Mariana (MG), 15 de outubro de 2026 MPJ | Mais Pelo Jornalismo
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O Bom Governante segundo Platão: Entre o Poder e as Virtudes

“O Bom Governante é aquele que age com sabedoria, justiça, temperança, coragem, prudência, verdade, autodomínio, desapego, conhecimento do bem e espírito público, colocando o bem comum acima de si mesmo”. (Vasconcelos, 2026)

O Bom Governante segundo Platão: Entre o Poder e as Virtudes

Os textos publicados na seção “Colunistas” não refletem as posições da Agência Primaz de Comunicação, exceto quando indicados como “Editoriais”.

Leia o texto (ou ouça o áudio) da coluna de Júlio Vasconcelos:

As eleições para Presidente da República estão chegando e os presidenciáveis estão investindo pesadamente de todas as formas para provar quem é o melhor candidato entre eles. Em meio a uma polarização acirrada, com candidatos fazendo uso indevidamente do nome de Deus e sendo transformados em ídolos, salvadores da pátria, disputando o poder orientados por interesses estritamente particulares, onde o dinheiro, o prestígio e o poder falam mais alto, uma pergunta permanece sempre atual: o que faz de alguém um bom governante?

Há mais de dois mil anos, Platão enfrentou essa questão em A República, uma das obras fundamentais da filosofia ocidental. Seu objetivo não era simplesmente discutir formas de governo, mas investigar uma questão muito mais profunda: quais as virtudes essenciais que um governante, o chamado Filósofo-Rei, precisa cultivar para que possa governar um país de forma íntegra, coerente e produtiva. A resposta de Platão é exigente e vale a pena dar uma conferida. 

A primeira virtude elencada por Platão é a Sabedoria, onde o governante deve ter conhecimento pleno do que é realmente bom para a sociedade e não apenas o que é de interesse particular, que rende mais voto ou que gera mais popularidade.

A segunda virtude é a Justiça, que é a capacidade de dar a cada um aquilo que lhe é de direito, buscando a harmonia e o bem comum acima de interesses pessoais ou de grupos específicos.

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A terceira virtude é a Temperança, onde o governante deve ter domínio sobre suas paixões e impulsos, não se deixando escravizar pela vaidade, pela ambição, pelo dinheiro, pelo prazer ou pelo desejo narcísico de poder.

A quarta virtude é a Coragem, que é representada pela capacidade de sustentar aquilo que é correto mesmo diante das maiores dificuldades e de ações impopulares. Aqui não se trata da coragem física de enfrentar perigos, mas da coragem moral e intelectual de defender aquilo que considera justo e legal, mesmo quando isso contraria interesses poderosos ou a opinião predominante.

A quinta virtude é a prudência, que é a capacidade de deliberar corretamente antes de agir, avaliando corretamente as consequências das decisões a serem tomadas, sem governar por impulsos descontrolados.

A sexta virtude é o amor à Verdade, buscando a realidade para além das aparências e opiniões, sem utilizar da manipulação para simplesmente obter vantagens políticas.

A sétima virtude é o Desapego ao Poder, não transformando de forma narcisista o governo em instrumento de satisfação pessoal e aceitando o poder como responsabilidade, não como privilégio.

A oitava virtude é o Autodomínio, onde a razão deve governar os desejos e impulsos. O indivíduo que não consegue governar a própria vida dificilmente será capaz de governar bem os outros. Um governante dominado pela vaidade, pela ambição, pelo desejo de vingança, pela necessidade permanente de aprovação ou simplesmente pelo prazer de exercer o poder, corre o risco de transformar suas emoções pessoais em decisões de Estado.

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A nona virtude é a supremacia do Conhecimento do Bem, representando pelo bem da comunidade e não simplesmente por interesses espúrios e imediatos.

Finalmente, a décima e última virtude é a predominância do Espírito Público, onde permanentemente os assuntos de interesse público devem estar acima dos assuntos de interesses particulares. O bom governante deve servir à comunidade e não simplesmente utilizá-la como instrumento para servir a si próprio.

Passados mais de dois milênios, seria exagerado afirmar que as soluções políticas propostas por Platão podem simplesmente ser transportadas para o mundo contemporâneo. Não podem, mas isso não diminui a atualidade da pergunta platônica. Talvez sua maior contribuição não esteja em nos oferecer um modelo político pronto, mas em nos obrigar a pensar sobre quem deve receber o poder e para que o poder deve ser utilizado. A pergunta mais importante que devemos nos fazer nesse momento diante de tantos candidatos não é simplesmente quem promete mais, mas quem possui sabedoria, justiça, temperança, coragem, prudência, verdade, autodomínio, desapego, conhecimento do bem e espírito público, colocando o bem comum acima de si mesmo.

Será que os candidatos antigos possuem todas essas virtudes ou precisamos de um novo entrante “outsider” para resgatar a nossas virtudes e nossa dignidade?

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Quem tem ouvidos, que ouça!

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