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Leia o texto (ou ouça o áudio) da coluna de Bernardo Campomizzi Machado:
Cada sociedade ou comunidade tem sua própria diversidade cultural, mas a história, apesar de ser moldada de acordo com os respectivos costumes, é contada pelos detentores de poder.
Em Minas Gerais foram construídas estruturas de poder discursivo que impõem a naturalização e a aceitação do modelo econômico minerário. Há uma tolerância e, mais, um incentivo explícito, mesmo à margem da ética e da lei, à ampliação da mineração no território do estado. Um modelo econômico que irradia poderes políticos e culturais. É a vocação de Minas e dá empregos, o que se diz.
Tal é a dominância da cultura da mineração que é praticamente inexistente um movimento ambientalista nas cidades tomadas por essa atividade econômica. Quando existem, são oriundos ou assessórios de direitos sociais, e não puramente ambientais, como associações de bairros ou de prática de esportes radicais. Em Mariana, por exemplo, não se pode associar dano socioambiental às mineradoras. São intocáveis.
O desenvolvimento sustentável constitui-se em ser ecologicamente correto (meio ambiente ecologicamente equilibrado para as presentes e futuras gerações), economicamente viável (sob o ponto de vista da economia pública e não da privada), socialmente justo (vida digna) e culturalmente diverso (diversidade cultural) sob o manto da ética socioambiental.
A diversidade cultural, especificamente, pode ser identificada a partir da interpretação dos diversos significados e símbolos historicamente impostos por aqueles que dominaram a cultura mineira.
Que se faça uma comparação: o órgão Arp Schnitger tem mais valor que uma viola caipira? A igreja barroca é mais valiosa que a casa de taipa ou pau a pique?
Não foi sem razão a incursão de um dos (senão o) mais prestigiados escritores brasileiros, o mineiro geraizeiro Guimarães Rosa, que relatou a vida nas Gerais, do vaqueiro, do povo sofrido detentor de uma cultura singular não advinda da mineração. Carlos Drummond de Andrade, o poeta mineiro geraizeiro, já fora de Itabira, sua cidade natal, expressou duras palavras contra aquela atividade que, sob o discurso do desenvolvimento, deixou apenas buracos e um retrato na parede.
Há um deslumbre nas regiões minerárias pela valorização da cultura estrangeira, arraigada e sedimentada pelo poder econômico dominante.
No início do mês, li o artigo de um colega advogado, defensor de mineradora da região de Mariana, numa prestigiosa revista eletrônica jurídica. Nesse artigo, após fazer uma análise do orgulho de estrangeiros sobre nomes e símbolos associados à mineração e utilizados por agremiações esportivas em outros países, concluiu temer que, em razão da imagem negativa da mineração no Brasil, o estado de Minas Gerais passe a se chamar apenas Gerais.
A analisar a conduta e o modelo minerário das empresas que o colega defende, pode-se imaginar, sim, a alteração dos nomes do estado e das nossas cidades. Mariana, quiçá, poderá se chamar Samarco. Ou Renova, que é mais juvenil. Brumadinho poderia ser Vale. Itabirito, Gerdau.
Grande parte da história de Minas Gerais está atrelada ao conto dos mineradores, ao discurso monocórdico e à cultura da mineração.
Só os mineradores têm história? Conhecemos Fernão Dias, Cláudio Manoel da Costa, Marquês de Pombal e Barão de Eschewege. Não conhecemos os queimados no Campo Grande de Ouro Preto nem os antigos moradores do Gogô de Mariana. Eles não têm nomes e sequer têm túmulos. Aliás, além de Marília, Chica da Silva e Ismália, existiam mulheres em Minas Gerais nos séculos XVIII e XIX? Nossos netos saberão quem foram os moradores de Bento Rodrigues e de Córrego do Feijão? Suas histórias de luta e de dor?
O passado não deve ser alterado, mas que seja ressignificado com a visão crítica daqueles que não tiveram a oportunidade de contar a história.



