Ouro-pretana Marinalva Brito ganha três medalhas em mundial

Aos 53 anos, atleta de Ouro Preto conquista ouro, prata e bronze no Open Masters Games em Abu Dhabi e transforma 13 anos de superação em pódio mundial

Atualizado em 04/03/2026 às 16:03, por Joyce Campolina.

Marinalva Brito, aos 53 anos volta ao Brasil com 3 medalhas a mais para a sua coleção. - Foto: Marinalva Brito/Reprodução

“Lembra da entrevista que eu fiz contigo? Que eu falei que o meu sonho era conquistar uma medalha no mundial? Conquistei 3”, disse Marinalva de Brito, com a voz embargada de orgulho.

Do outro lado da mensagem, enviada diretamente de Abu Dhabi, o riso nervoso misturado à emoção traduzia o peso de 13 anos de dedicação ao atletismo. “Foi duro, foi tenso, muito treinamento, muito foco, mas graças a Deus eu conquistei. Eu não tenho nem palavras pra te contar o que eu tô sentindo”, completou.

Aos 53 anos, a atleta ouro-pretana experimentou todas as categorias do pódio no Open Masters Games Abu Dhabi 2026: ouro no lançamento de dardo, prata no arremesso de peso e bronze no lançamento de disco. Medalhas inéditas em uma competição internacional de nível mundial, e que, para ela, simbolizam mais do que resultados esportivos.

 

Depois de 13 anos conquistar uma medalha no mundial foi extraordinário. Nossa, eu tô me sentindo fantástica, super orgulhosa também. Toda dedicação que eu tive nesses meses aí deu certo. Foi maravilhoso, só alegria

Marinalva Brito



 

Orgulho para Ouro Preto, Brasil e para o Mundo. - Foto: Marinalva Brito/Reprodução

 

De última colocada ao pódio mundial

A trajetória de Marinalva no esporte começou em 2011, por recomendação médica, após um período de depressão. A primeira prova foi uma corrida de 16 quilômetros, ela terminou como penúltima colocada. Dois anos depois, já integrava a Seleção Brasileira Master.

Um treinador foi direto ao ponto: “Guria, tu não tem porte físico pra fundista. Volta pro Brasil e tenta provas de explosão.” A mudança de rota levou Marinalva ao pentatlo e, posteriormente, às provas de lançamento. Com o diagnóstico de síndrome da fadiga crônica, veio mais uma adaptação. 

Ela passou a focar no arremesso de peso, dardo, disco, martelo e martelete. Foi ali que encontrou sua força e que começou a acumular recordes brasileiros e medalhas internacionais. “No momento em que eu subo naquele pódio, eu sinto tanto orgulho. Eu falo: ‘Nossa, eu saí lá de trás, passei a minha vida inteira pra chegar aqui hoje’.”

 

Muito além das pistas

Natural de Ouro Preto, Marinalva construiu uma carreira que vai além do esporte. Doutora em Saúde e Nutrição pela Universidade Federal de Ouro Preto, ela também é servidora da Câmara Municipal de Ouro Preto e treinadora  voluntária.

Na edição nº 110 da Entrevista Primaz, Marinalva falou sobre as múltiplas funções que equilibra diariamente: atleta, pesquisadora, treinadora e mãe. “É disciplina e prioridade. Você precisa entender o seu propósito”, afirmou na ocasião.

No doutorado, ela pesquisa atletas master femininas, com o objetivo de contribuir para políticas públicas voltadas a esse público. Para Marinalva, o atletismo no Brasil ainda enfrenta precariedade estrutural e falta de patrocínio, especialmente fora do eixo do futebol. “Não é só o saldo da medalha. Você tá ali por uma causa, pela sua saúde, pelo seu bem-estar, pela socialização.”
 

Medalhas que atravessam fronteiras

O desempenho brasileiro no Open Masters Games também foi expressivo. A delegação contou com 390 atletas e conquistou 119 medalhas no total: 44 ouros, 42 pratas e 33 bronzes. Entre eles, a atleta de Ouro Preto, que fez questão de dividir a conquista.


 

Um país cheio de medalhistas mundiais. - Foto: Marinalva Brito/Reprodução

“As medalhas são para Ouro Preto e para o Brasil”, comemorou. “Tive na competição Open Master Game Abu Dhabi e, graças a Deus, aquelas tão sonhadas medalhas em uma competição internacional foram conquistadas. Um bronze no lançamento de disco, uma prata no arremesso de peso e ouro no lançamento de dardo. Muito feliz.”

E se há uma frase que resume a trajetória de Marinalva, é a que ela repete como mantra: “Nunca é tarde pra gente começar.” A atleta que iniciou no esporte aos 38 anos, enfrentou depressão, mudou de modalidade, lidou com limitações físicas e seguiu treinando enquanto conciliava carreira acadêmica e vida profissional agora projeta novos desafios. Em agosto, ela disputa o Sul-Americano e o Mundial de Atletismo, na Coreia do Sul.

Lá em outubro, antes de encerrar a Entrevista Primaz, Marinalva deixou uma pergunta que funciona como provocação para ela e para todos nós:

“Que qualidade de vida que eu quero ter, quando eu tiver com 60, 70 anos?”

Em Abu Dhabi, pelo menos, ela já deu uma resposta concreta, ativa, potente e no lugar mais alto do pódio.


Joyce Campolina

É graduanda em Jornalismo pela UFOP, apaixonada por Jornalismo Cultural e Político, fotojornalismo, audiovisual e por contar histórias que precisam ser ouvidas