Enquanto cidades maiores concentram investimentos milionários e estruturas esportivas robustas, Ouro Preto segue provando, ano após ano, que talento, acolhimento e dedicação também transformam vidas. Somente neste mês, sete atletas formados e em formação pelo Instituto Trampolim voltaram para casa carregando medalhas nacionais e internacionais, reafirmando o município como uma das maiores referências da ginástica de trampolim no Brasil.
As conquistas mais recentes ajudam a dimensionar o impacto do projeto. No Pan-Americano, que aconteceu no último dia 22, os atletas Hernâni Mendes, João Arcuri e Letícia Araújo representaram o Instituto Trampolim e o Brasil na competição internacional. João conquistou a medalha de bronze no trampolim individual, enquanto Hernâni e João garantiram a prata no Duplo Mini Trampolim (DMT). Resultados que voltaram para Ouro Preto carregando além das medalhas, orgulho para uma cidade inteira.
No dia 17 deste mês, o campeonato Brasileiro Loterias Caixa de Ginástica de Trampolim por Idades, já havia colocado novamente Ouro Preto em evidência. A ginasta Alice Gomes Honorato conquistou a medalha de ouro no Trampolim Individual Adulto com a maior nota de toda a competição: 54.120 pontos. Na mesma competição, Antônia Silva brilhou ao conquistar ouro no Trampolim Individual Infantil Feminino e também no Duplo Mini Trampolim Infantil Feminino.
Outras ouro-pretanas também subiram ao pódio. Lavínia Carvalho conquistou o primeiro lugar no Sincronizado Infantil Feminino e no Duplo Mini Equipe Infantil. Já Maria Esther voltou para casa com o segundo lugar no Sincronizado Pré-Infantil Feminino.
Antes do Salto
Criado oficialmente em 2017 para facilitar a captação de recursos via Lei de Incentivo ao Esporte, o Instituto Trampolim carrega uma trajetória muito mais antiga. A iniciativa começou ainda em 1996, e desde então já beneficiou mais de 200 crianças e adolescentes da região. Sob o comando do professor Estácio Fonseca da Costa, o espaço se tornou um verdadeiro celeiro de atletas de alto rendimento e um ponto de acolhimento social para jovens em situação de vulnerabilidade.
Por trás de cada medalha existe uma história que começou dentro do ginásio do Instituto Trampolim. Alice Gomes, hoje um dos maiores nomes da modalidade no país, relembra que conheceu a ginástica ainda criança, em 2008, através do projeto Bolsa Cidadania, no bairro Caminho da Fábrica.
Eu era muito espoleta, pulava pra todo lado, fazia tudo quando era esporte gratuito. Um amigo me chamou pra fazer um teste com o professor Estácio. E, como eu costumo dizer, a ginástica me escolheu. Desde o primeiro momento em que entrei no ginásio, eu soube que queria aquilo pra minha vida

O que começou como brincadeira rapidamente virou sonho. Alice passou a treinar cada vez mais até alcançar, ainda muito nova, competições internacionais; Em 2010, disputou seu primeiro Pan-Americano, nos Estados Unidos, chegando à final. No mesmo ano, participou do Mundial da França e conquistou medalha de bronze no Duplo Mini Trampolim. “Ali eu entendi que tinha talento mesmo”, relembra.
“Ouro” Preto
Hoje atleta do Minas Tênis Clube, Alice nunca esquece suas origens. Para ela, Ouro Preto foi o começo de tudo.
Eu amo Ouro Preto. Minha família inteira mora aí. Foi por falta de estrutura e incentivo que precisei sair, mas tudo começou em Ouro Preto. Se não fosse a cidade, eu nunca teria chegado onde estou
Agora, a atleta mira novos desafios internacionais, incluindo etapas da Copa do Mundo e o Campeonato Mundial na China, em novembro. O maior sonho, no entanto, segue ainda mais alto: os Jogos Olímpicos de Los Angeles.
Mais do que formar atletas, o Instituto Trampolim se consolidou ao longo dos anos como ferramenta de transformação social. O próprio Estácio Fonseca, treinador, reconhece que muitos jovens encontraram no esporte um caminho distante da violência e da vulnerabilidade social.
Um ambiente que transforma mesmo na luta

A relação entre treinador e atletas ultrapassa o esporte. Alice, por exemplo, foi acolhida por Estácio ainda na adolescência. Em entrevista ao jornal O TEMPO, o treinador revelou que chegou a levar a atleta para morar em sua própria casa diante das dificuldades familiares enfrentadas por ela na época.
“Ela já era uma menina muito especial e talentosa. Demos um suporte para ela segurar uma barra familiar e imaginava que, se ela ficasse em Ouro Preto, ela poderia não evoluir bem. Fiz contato com o Minas e foi a partir dali que ela se desenvolveu ainda mais”, contou.
Mesmo enfrentando limitações estruturais e funcionando em um espaço afastado da região central, o Instituto segue revelando talentos em nível internacional. Reconhecido pela Confederação Brasileira de Ginástica, o local possui equipamentos de alto nível e já conquistou cinco medalhas em campeonatos mundiais.
Conseguimos formar uma família ali dentro. Acolhemos os meninos e transformamos vidas. Isso vai muito além do alto rendimento
Entre saltos, medalhas e sonhos olímpicos, Ouro Preto segue escrevendo seu nome na história da ginástica brasileira, provando que, mesmo entre as montanhas gerais e as dificuldades de incentivo, o esporte ainda é capaz de mudar destinos.


