Mariana (MG), 21 de maio de 2026 MPJ | Mais Pelo Jornalismo
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Pedofilia e o caso Epstein: o que a Psicanálise pode nos ensinar

“O Caso Epstein, à luz da psicanálise, não revela apenas a estrutura perversa de um indivíduo, mas expõe algo mais amplo: a articulação entre gozo, poder e recusa da lei no próprio tecido social”. (Vasconcelos, 2026)

Arte: Júlio Vasconcelos/Reprodução

Os textos publicados na seção “Colunistas” não refletem as posições da Agência Primaz de Comunicação, exceto quando indicados como “Editoriais”
Leia o texto (ou ouça o áudio) da coluna de Júlio Vasconcelos:


Recentemente, vem tomando conta da mídia o ocorrido nos Estados Unidos com o chamado “Caso Epstein”. O Caso envolve o multibilionário investidor norte-americano Jeffrey Epstein, acusado de abusar sexualmente de dezenas, possivelmente centenas de adolescentes e de fornecer meninas para pessoas poderosas. Em julho de 2019 foi preso pela segunda vez e em agosto foi encontrado morto na cela. A versão oficial foi suicídio, embora tenham surgido vários questionamentos sobre a veracidade desse ato. O caso voltou à cena por que vários documentos judiciais foram liberados entre 2023 e 2024, contendo o nome de figuras famosas no cenário mundial, tais como Bill Clinton, Donald Trump e o Príncipe Andrew, membro da família real britânica. 

Independentemente de qualquer tipo de julgamento ou posicionamento político-partidário, vale a pena conferir o que a psicanálise pode nos dizer sofre o fato.

A pedofilia é o ato de abuso sexual infantil, considerado como crime concreto. Para a psicanálise, é uma estrutura ou fantasia sexual dirigida a crianças. Não é apenas um desvio sexual, mas uma organização psíquica ligada à fixação, à perversão e a recusa da castração, que é a negação psíquica dos limites, da falta e da lei simbólica, sem jamais excluir sua dimensão criminosa.

Para Sigmund Freud, considerado o Pai da Psicanálise, a perversão aparece quando há uma fixação em fase pré-genital, escolha de objeto não mediada pela lei simbólica e recusa da diferença geracional. Na pedofilia, o sujeito pode buscar um objeto não ameaçador, abuso da relação de poder e evitação da alteridade adulta.

No caso de Jeffrey Epstein, não estamos apenas diante de desvio sexual, mas de uma rede organizada de tráfico, coerção, relação com elites e uso do poder econômico. Aqui a leitura psicanalítica ultrapassa o indivíduo e toca o campo social. Em muitos casos graves, observa-se o narcisismo extremo, sensação de impunidade, fantasia de superioridade e uso do outro como mero objeto. O gozo não é apenas sexual, mas também gozo de dominação. O que chama a atenção com relação aos envolvidos é a sensação de intocabilidade, a construção de rede cúmplice e o uso de dinheiro como blindagem. Isso pode indicar estrutura perversa articulada com poder. A perversão aqui não é apenas sexual, mas institucional.

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A psicanálise não serve para justificar o agressor, relativizar o ato ou substituir o julgamento jurídico. Ela serve para compreender a estrutura, não para absolver. Abuso infantil é violência objetiva. A criança vítima sofre trauma precoce, violação da confiança, inscrição traumática no corpo e possível repetição sintomática futura. O dano não é apenas físico, mas estrutural na constituição subjetiva.

O Caso Epstein, à luz da psicanálise, não revela apenas a estrutura perversa de um indivíduo, mas expõe algo mais amplo: a articulação entre gozo, poder e recusa da lei no próprio tecido social. Quando o dinheiro, o prestígio e as redes de influência funcionam como escudo contra a responsabilização, evidencia-se uma espécie de “desmentido coletivo” onde sabe-se do crime, mas age-se como se ele não existisse. Isso produz impactos sociais profundos tais como descrédito nas instituições, banalização da violência, desconfiança generalizada e cinismo moral. Do ponto de vista psicanalítico, trata-se do retorno do recalcado em escala social, onde o mal que não é simbolizado reaparece sob forma de escândalo, trauma coletivo e polarização. O desafio que emerge é ético e civilizatório, sustentando a lei simbólica acima do poder e restaurando a primazia do sujeito sobre sua redução a um mero objeto de gozo animalesco.

Quem tem ouvidos, que ouça!

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