Uma dissertação defendida no Programa de Pós-Graduação em Economia Aplicada da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) propõe um novo olhar sobre o forró: mais do que expressão cultural, a atividade pode atuar como vetor estratégico de desenvolvimento econômico local.
O trabalho, desenvolvido por Helbert de Oliveira Almeida, investiga como o setor pode contribuir para a diversificação da economia de Ouro Preto que, historicamente, é dependente da mineração.
Intitulada “E como que vive de forró?” Uma análise das contribuições socioeconômicas e culturais do forró em Ouro Preto, a pesquisa foi apresentada em 2026 e analisa a atividade produtiva sob a perspectiva da economia da cultura e das políticas públicas culturais.
O estudo parte da constatação de que, embora o município possua forte vocação cultural e turística, sua estrutura econômica ainda é concentrada em atividades mineradoras, o que reforça a necessidade de alternativas sustentáveis de desenvolvimento.
A relação do pesquisador com o tema não é apenas acadêmica, mas também pessoal. “Minha relação começou dentro do ambiente familiar desde pequeno e também foi algo que esteve presente em boa parte da minha vida”, afirma Helbert.
Ele relembra experiências desde a infância, quando já se apresentava em festas juninas, até a atuação mais recente na cidade: “Já em Ouro Preto, me aprofundei mais na vertente de dança de salão do forró como aluno e, depois, atuando na coordenação, produção e gestão cultural com meu amigo e professor Raphael no Ponto de Cultura Grupo de Forró Ouro Preto (GFOP)”, relata o forrozeiro.
Cultura como economia
A dissertação tem como objetivo central compreender de que forma o forró pode contribuir para o desenvolvimento local sustentável. Para isso, Helbert analisa não apenas a dimensão cultural da prática, mas também sua inserção econômica, as condições de trabalho dos agentes envolvidos e o papel do poder público no fomento ao setor.
A escolha do tema está diretamente ligada à sua trajetória acadêmica e profissional. O pesquisador ingressou no curso de Engenharia de Produção com o objetivo de pesquisar e estudar mais sobre trabalho. Porém, Helbert afirma que se encontrou na Economia, onde “as discussões sobre trabalho são mais flexíveis e possíveis de incluir alguns setores tradicionais da economia brasileira como a mineração e a indústria”. Segundo ele, a motivação também veio da realidade enfrentada por trabalhadores da cultura.
Ver que a classe cultural, é uma classe frequentemente exposta e frágil dentro das estruturas formais de trabalho brasiliero, não à toa é uma classe que tem que desenrolar bastante para conseguir viver só do trabalho cultural e com baixas chances de sucesso nessa trajetória.
Ao colocar o forró no centro da análise, o pesquisador também chama atenção para a importância de reconhecer economicamente setores historicamente marginalizados. “Colocar forró no enfoque de pesquisa e suas atividades econômicas é justamente para retomar a discussão de como setores não tradicionais já participam da economia local, e que é necessário ou urgente se discutir”, explica o pesquisador.
Para ele, o avanço do protagonismo do setor desses serviços, exige políticas que garantam melhores condições aos trabalhadores: “É preciso que a classe trabalhadora destes setores, principalmente a classe dos trabalhos culturais, sejam beneficiadas e consigam usufruir ao máximo do seu potencial no mercado”, completa, destacando a necessidade de assegurar dignidade na estrutura formal de trabalho.
Sua vivência como gestor cultural também influenciou o caminho da pesquisa. “Eu conhecia as dores na prática, mas precisava comprová-las empiricamente”, explica. Para ele, o desafio foi equilibrar envolvimento pessoal e rigor científico: “O maior desafio foi desligar o lado puramente emocional e adotar a racionalidade que a ciência exige”.

Invisibilidade e precarização
Entre os principais diagnósticos da pesquisa está a chamada “invisibilidade política” do forró. A análise de 76 atas do Conselho Municipal de Política Cultural (CMPC), entre 2012 e 2024, revelou que o gênero não aparece nas deliberações do órgão.
Helbert explica o impacto dessa ausência: “Se a manifestação cultural sequer é discutida oficialmente, ela fica à margem dos investimentos, fomento de longo prazo, e estruturação de políticas públicas ativas”.
Outro ponto crítico identificado é a dificuldade de transformar valor cultural em valor econômico. “Há uma falha na conversão do valor cultural do forró em valor econômico para seus trabalhadores”, aponta.
Segundo ele, o próprio poder público contribui para esse cenário: “O município reconhece a importância da arte ao contratá-la, mas a ‘comoditiza’, usando a cultura como um insumo barato”.
A pesquisa também aponta um crescimento na formalização de agentes culturais, com aumento na abertura de CNPJs. No entanto, isso não se refletiu em melhoria de renda. O fenômeno é descrito como “formalização induzida”. Helbert explica que “muitos trabalhadores viraram MEI, mas isso não refletiu em um ganho real ou estrutural de renda, mantendo a média salarial ainda sem grandes distorções”.

Potencial latente
Apesar das limitações, o estudo identifica no forró uma estrutura semelhante a um Arranjo Produtivo Local (APL) ainda não consolidado. O mapeamento revela uma rede ativa de músicos, produtores e outros profissionais que sustentam a atividade de forma colaborativa.
Segundo Helbert, esse levantamento revelou duas camadas distintas: “A ‘ponta do iceberg’, formada pelos poucos grupos formalizados, que conseguem contatos públicos, e uma ‘camada submersa’”, composta por redes autônomas, como luthiers, pesquisadores e coletivos culturais, que mantêm a cultura viva, mas “são estatisticamente e financeiramente invisíveis para as políticas da prefeitura e CMPC.”
Nesse contexto, o forró é apresentado como um “bem comum colaborativo”. A dissertação defende a atividade além de uma mercadoria, trata-se de uma rede de saberes e práticas sustentada pela própria comunidade. Os artistas e coletivos culturais formam uma espécie de inteligência coletiva que mantém o forró ativo, muitas vezes à margem do apoio estatal.
A pesquisa também destaca o potencial de geração de renda endógena. Inserido no campo da economia criativa, o forró é capaz de promover inclusão produtiva e movimentar recursos dentro do próprio município, valorizando identidades e talentos locais. Para o autor, trata-se de uma cadeia produtiva já existente, mas ainda pouco estruturada: um APL “latente”, que poderia se consolidar com políticas públicas adequadas.
Além do aspecto econômico, o estudo aponta o papel do forró na coesão social. Os espaços e eventos ligados ao gênero promovem encontros entre diferentes grupos sociais, fortalecendo vínculos comunitários e ampliando o sentimento de pertencimento. Como destaca Helbert, trata-se de uma prática essencialmente coletiva, baseada na troca e na convivência.
Em sua dissertação, Helbert indica que, ao reconhecer e investir no forró como um bem comum, o poder público pode transformar esse patrimônio cultural em um motor de desenvolvimento local sustentável, capaz de gerar renda e fortalecer o tecido social de Ouro Preto.

Caminhos para o futuro
Como conclusão, Helbert afirma que o modelo atual de gestão cultural em Ouro Preto opera de forma imediatista. “A gestão cultural atua de forma reativa, focada em apagar incêndios burocráticos ou suprir demandas turísticas de curto prazo”, analisa. Para ele, falta uma atuação mais estratégica: “Falta a postura de um ‘Estado Empreendedor’, que injete capital estruturante”.
Entre as recomendações estão a substituição de contratações diretas por editais mais estruturados e a capacitação de agentes culturais. “É necessário substituir a lógica de contratações diretas e imediatistas por editais de criação e promover o ‘letramento burocrático’”, defende o artista.
O pesquisador também propõe a criação de uma “plataforma estável” que conecte poder público e agentes culturais. “Na prática, seriam fóruns setoriais ativos, programas de capacitação técnica em gestão de carreira, editais constantes de fomento à cultura e a criação de "Bancos de Talentos" rotativos, propostas de leis visando a proteção dos agentes culturais locais com oportunidades no meio público e privado , explica.
Apesar dos desafios, Helbert acredita no potencial do setor. O pesquisador acredita ser “totalmente” possível transformar o valor cultural do forró em renda sustentável. Para isso, ele destaca a importância de investir na base: “Não apenas no show que sobe no palco, mas em toda a cadeia que cria esse ecossistema”.
Por fim, o estudo reforça o papel do forró como alternativa econômica. “O forró é um recurso baseado em um bem intangível, sendo uma alternativa econômica limpa e renovável”, afirma. Segundo ele, além de movimentar comércio e serviços, o fortalecimento do setor pode impactar positivamente toda a economia criativa local.
Nesse sentido, o forró deixa de ser apenas manifestação cultural para se consolidar como uma possível matriz produtiva para o município, desde que acompanhado por políticas públicas estruturantes e de longo prazo.



