Leia o texto (ou ouça o áudio) da coluna de Vinícus Mota Carvalho e Thiago Vieira da Silva:
Caminhar pelas ruas de pedra de Mariana é entender que em poucas décadas atrás aquela cidade escolheu ser uma cidade universitária, mas que hoje vê a Universidade e principalmente quem a faz como um fardo. Durante algumas décadas, as repúblicas estudantis foram o coração desse ecossistema estudantil, servindo como rito de passagem, memória, núcleo de formação política e abrigo para milhares de jovens que deixavam suas casas em busca de um diploma. Mas, aos poucos, um silêncio melancólico tem tomado conta de Mariana. As repúblicas particulares estão fechando as portas, uma a uma.
Afirmo que não estamos diante de um fenômeno isolado ou de mero "desinteresse juvenil". A morte das repúblicas particulares marianenses é o resultado de uma tempestade perfeita, uma engrenagem que tritura sonhos, misturando especulação imobiliária, crises nacionais de financiamento educacional e uma profunda e talvez irreversível mudança geracional.
O primeiro e mais implacável golpe contra a moradia estudantil vem da própria economia local. Mariana vive uma bolha imobiliária crônica, hiperinflada pela presença massiva da Samarco e da Vale. Especialmente após o crime de Fundão e o longo processo de reparação e retomada das operações, a cidade foi inundada por um exército de funcionários de empreiteiras e das próprias duas mineradoras.
Aqui reside a falha do sistema: as repúblicas de Mariana já foram majoritariamente particulares. Diferentemente do modelo de repúblicas federais tão consolidado na vizinha Ouro Preto, em Mariana os imóveis que pertencem à universidade e cedidos aos alunos têm critérios socioeconômicos para residência. Assim, o universitário marianense que não tem acesso a essas casas está à mercê da mão bem visível e pesada do mercado. Como um grupo de jovens que vive de bolsas, mesadas ou trabalho de baixa remuneração pode competir com o poderio financeiro de multinacionais na hora de disputar o aluguel de um casarão no centro histórico ou mesmo em uma casa distante do centro da cidade? A resposta é simples, não pode. O aluguel sobe, a república precisa ir para longe do campus até o dia que ela morre.
Se a inflação imobiliária empurrou as repúblicas para a beira do precipício, o desmonte da educação e o vírus do Covid-19 deram o empurrão final. A degradação do financiamento da universidade pública no Brasil na última década atingiu a assistência estudantil em cheio. Bolsas congeladas, e muitas vezes canceladas, e o encarecimento da cesta básica transformaram o ato de "estudar fora" um artigo de luxo. Sem renovação de calouros com poder aquisitivo, as repúblicas esvaziam.
E, então, veio a pandemia de Covid-19. Os anos de ensino remoto duraram tempo suficiente para quebrar a corrente de transmissão da cultura republicana. Quando as aulas presenciais finalmente retornaram, o calouro que desembarcou na rodoviária era outro. Revelou-se a face da Geração Z: um jovem mais reservado, individualista e preocupado com a saúde mental e sua privacidade. Esse “fenômeno” já era visto antes da pandemia, mas se acentuou mais severamente no retorno.
O universitário de hoje prefere dividir uma pequena kitnet com apenas um colega a enfrentar a dinâmica muitas vezes caótica, as hierarquias rígidas e as obrigações de uma república tradicional com oito pessoas. A ideia de sacrificar o próprio conforto e espaço pessoal em nome de uma "irmandade forjada a fórceps" perdeu o apelo para uma geração hiperconectada digitalmente, mas que não tolera invasões de espaço físico ou psicológico, e nesse caso eles não estão errados, muitas das práticas cotidianas de uma república tradicional já deveriam ser repensadas ou abolidas.
Para compreender a fragilidade crônica dessas repúblicas, precisamos olhar para quem as habita. O campus da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) em Mariana abriga o Instituto de Ciências Sociais Aplicadas (ICSA) e o Instituto de Ciências Humanas e Sociais (ICHS). Estamos falando de futuros jornalistas, assistentes sociais, historiadores, professores, administradores e economistas.
Além disso, historicamente, o perfil socioeconômico desse estudante é diferente do ingressante das engenharias tradicionais ou de estudantes de universidades renomadas como USP e UFMG, reverberando diretamente no perfil do ex-morador. Nas repúblicas, os ex-alunos costumam atuar como padrinhos financeiros da casa nos meses de vacas magras. Porém, o recém-formado em cursos de humanas e sociais enfrenta um mercado de trabalho brasileiro precarizado, com salários iniciais e até finais engessados. Sem o fôlego financeiro dos mais velhos para cobrir os rombos no aluguel, as casas particulares perdem sua única rede de proteção.
A república estudantil em Mariana era um laboratório de tolerância e convivência. Você dividia a cozinha com o colega conservador do interior, o militante fervoroso da capital, o notívago e o atleta diurno. Essa fricção constante era muitas vezes a parte mais importante da formação universitária, aprender a conviver com quem é fundamentalmente diferente de você.
Para complementar todo esse caos, hoje observamos a ascensão das repúblicas de nicho. O universitário atual transferiu a lógica dos algoritmos das redes sociais para a vida real, criando verdadeiras câmaras de eco habitacionais. O jovem quer morar exclusivamente com seus "iguais", pessoas que compartilham exatamente o mesmo alinhamento político, os mesmos hábitos alimentares, a mesma orientação sexual ou o mesmo estilo de vida. Sendo que morar em república até a pandemia significava muitas vezes aprender a ceder, a olhar para o Outro e enxergar um ser humano com medos e angústias iguais às suas. Parte importante da vida adulta se aprendia assim, na prática, convivendo sob o mesmo teto com pessoas totalmente diferentes, mas que tinham os mesmos objetivos: se formar e deixar um teto para quem vinha depois.
O problema prático dessa busca implacável por uma pureza identitária ou conforto absoluto é que ela estilhaça a demanda. Quando uma casa exige que o candidato passe por um filtro comportamental ou ideológico estreitíssimo para ser aceito, o funil de calouros encolhe drasticamente. A intolerância ao contraditório e a recusa em lidar com as imperfeições do Outro deixam os quartos vazios. E o boleto do aluguel, indiferente às bolhas sociais, não perdoa a falta de moradores. Ainda que Narcísio só ame o próprio reflexo, o mundo é diverso e as contas implacáveis.
Por último e não menos importante, além de intelectualmente desonesto, não é possível analisar o esvaziamento das habitações coletivas sem tocar em uma ferida aberta da nossa era: a profunda crise de saúde mental dessa geração de estudantes. Estamos lidando com a juventude mais diagnosticada e medicada da história. A depressão crônica, a ansiedade paralisante e o esgotamento criaram uma geração que, muitas vezes, precisa do suporte químico de remédios tarja preta simplesmente para conseguir levantar da cama e assistir a uma aula.
Aqui ocorre um choque de realidade incontornável. A dinâmica de uma república tradicional frequentemente barulhenta, caótica, repleta de gatilhos sociais, cobranças do coletivo e interações forçadas acaba sendo um ambiente profundamente hostil para uma mente adoecida.
O estudante que luta contra crises de pânico, ou que precisa de controle absoluto sobre sua rotina e silêncio para que seus antidepressivos e estabilizadores de humor funcionem, não tem controle emocional necessário para lidar com a imprevisibilidade de dividir a vida com outras seis ou oito pessoas. Para esse jovem, o isolamento em uma kitnet não é frescura ou mero capricho individualista, tornou-se um mecanismo de sobrevivência. A privacidade virou sinônimo de preservação da própria sanidade.
Há saída? O pacto necessário pela sobrevivência
A constatação desse declínio é dura, mas a resignação seria um erro histórico. Se o cenário mudou, as estratégias de sobrevivência precisam mudar na mesma velocidade. A preservação da vida universitária em Mariana exige um pacto urgente entre o poder público, a universidade e os próprios estudantes.
O município precisa assumir sua responsabilidade: Mariana precisa decidir se quer ser apenas um acampamento de luxo para a mineração ou um polo de inteligência. É possível ser tanto um polo minerador quanto um polo de desenvolvimento científico. A prefeitura, que lucra indiretamente com a economia universitária (estudantes têm seu consumo quase exclusivo dentro da cidade) e tem o caixa turbinado pelos royalties, poderia instituir um Bolsa Aluguel Municipal para estudantes de baixa renda. Além disso, a Câmara Municipal tem a faca e o queijo nas mãos para aprovar o IPTU Zero para proprietários de imóveis que aluguem exclusivamente para coletivos estudantis, equilibrando o jogo contra a especulação.
As repúblicas que sobreviverão serão aquelas que transitarem para um modelo de cooperativa de moradia. Quartos individuais ou duplos, divisões justas de tarefas e o fim absoluto de dinâmicas que cheiram a assédio moral. Mas isso não pode o eximir de responsabilidades e tarefas programadas, viver em comunidade é uma arte política que precisa ser aprendida e compreendida por todas as partes envolvidas. Não existe espaço em repúblicas para adolescentes disfuncionais
A profissionalização do apoio
Por fim, é hora de profissionalizar a ajuda externa. Em vez de depender do socorro desesperado quando o aluguel atrasa, as repúblicas precisam criar associações de ex-alunos formalizadas, inspiradas em pequenos fundos patrimoniais. Doações mensais simbólicas e contínuas de dezenas de ex-moradores criam um caixa de resistência inabalável.
O fim das repúblicas particulares de Mariana não é uma fatalidade inevitável da economia. É uma escolha política e comportamental. Fazer nada também é uma escolha.
Ou a prefeitura, a universidade e os estudantes agem agora, em bloco, ou esses casarões cheios de histórias existirão apenas nas páginas dos trabalhos de conclusão de curso dos mesmos institutos que um dia ajudaram a povoar.
Este texto foi escrito com a co-autoria de Thiago Vieira da Silva, jornalista e assistente editorial, graduado em Letras pelo ICHS, ex-morador da república particular Deuses do Gólo, em Mariana.





