Mariana (MG), 8 de setembro de 2026 MPJ | Mais Pelo Jornalismo
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Premiere de "Peregrinação" lota cineteatro com horror surreal

Longa de Luciane Trevisan une lendas locais e estética russa para explorar a identidade feminina em noite de teatro lotado

Uma foto horizontal, de plano médio, mostra um grupo diverso de treze pessoas, homens e mulheres, em pé em um palco de teatro, de frente para uma plateia lotada. Eles estão alinhados em frente a uma grande tela de projeção que exibe o logotipo vermelho e branco do Instituto Dragão Fantástico e texto de direitos autorais. Uma mulher na extrema esquerda do palco segura um microfone e gesticula enquanto fala. As pessoas no palco usam uma variedade de roupas casuais e formais. A plateia, vista das fileiras de trás, preenche o teatro e está voltada para o palco, com as costas das cabeças visíveis. O teatro tem paredes escuras e cortinas pretas ao lado da tela. A iluminação é focada no palco.

O Cineteatro Municipal ficou lotado para prestigiar a premiere de Peregrinação no último sábado - Foto: Lui Pereira/Agência Primaz

O Cineteatro Municipal de Mariana foi palco de um evento cultural marcante no último sábado (31). Com o teatro completamente lotado, o público prestigiou a estreia de "Peregrinação", longa-metragem de 80 minutos que mergulha no horror gótico e no surrealismo.

A produção do Instituto Dragão Fantástico não apenas entregou uma obra de arte visual, mas também reforçou o compromisso social ao oferecer recursos de audiodescrição e intérprete de Libras, garantindo acessibilidade durante toda a exibição. Ao final da sessão, o elenco e a equipe técnica foram recebidos com calorosos aplausos, consolidando o sucesso de um cinema autoral feito "em casa".

 

A estética do delírio e a surpresa musical

Livremente inspirado na lenda da Noiva de Furquim, o filme acompanha Isabel, uma jovem cujos preparativos matrimoniais são atravessados por objetos carregados de simbolismo trágico: um vestido de noiva antigo e uma aliança.

Para a diretora e roteirista Luciane Trevisan, o surrealismo foi o caminho escolhido para fugir do realismo trivial. "O conto já é bem surrealista... você cria um outro mundo, um mundo que não é o mundo real, um mundo que você pode fazer o que você quiser", explicou a cineasta, definindo a obra como um exercício de "estranheza".

O filme contou com recursos de acessibilidade como interprete de Libras e audiodescrição - Foto: Lui Pereira/Agência Primaz

A influência do mestre russo Andrei Tarkovsky é evidente na dilatação temporal das cenas, que respeitam o "tempo de digestão" de cada quadro. Luciane buscou extrair uma interpretação orgânica de seus atores através dessa lentidão: "A minha proposta era gravar as cenas assim... de deixar o ator, deixar, deixar, deixar. O rosto vai se transformar (...) a postura, né?". Essa atmosfera onírica transforma espaços comuns, como uma loja de vestidos, em locais fantasmagóricos, ritualísticos.

Além da direção, Luciane surpreendeu os presentes ao revelar-se como a voz por trás das canções da trilha sonora, compostas por Sérgio Barbosa. A diretora, que gosta de incorporar sua voz em seus trabalhos, afirmou que a presença de músicas com letra confere um tom diferenciado à obra: "acho legal ter uma música com letra assim, dá uma diferença, fica meio popão... dá uma quebra na narrativa".

 

Novos talentos e o orgulho do cinema local

A produção não foi apenas um exercício estético, mas uma plataforma para talentos da região, como a atriz Janainna Santoza, estudante de Artes Cênicas na UFOP. Para ela, a experiência foi "extremamente surreal", sendo sua estreia de fato na atuação e no audiovisual. "É a primeira vez que de fato eu faço uma grande cena e ainda mais estreando em um longa. Sou extremamente grata", celebrou a atriz.

A atriz Bruna D’Angelo também compartilhou a emoção de ver o resultado na tela grande pela primeira vez, admitindo a tensão de encarar o público, mas reforçando a importância do apoio regional. "É muito gratificante ver as pessoas vindo apreciar uma obra local... é o que a gente precisa, que as pessoas apreciem o que a gente tem aqui na região porque é uma coisa fantástica", comemorou a atriz.

 

Superação técnica e o olhar dos bastidores

A jornada para finalizar "Peregrinação" foi um desafio de produção. O projeto nasceu como um curta-metragem e, durante a montagem, a equipe percebeu que tinha material para um longa.
 

Pensado inicialmente para ser um curta-metragem, Peregrinação é o primeiro longa da carreira de Luciane Trevisan - Foto: Lui Pereira/Agência Primaz

O diretor de fotografia e montador, Raed Hilário, relatou o nervosismo que acompanhou a estreia devido a contratempos técnicos: "O processo todo foi um desafio, foi tudo muito difícil até a gente entender que ia virar um longa-metragem. Hoje eu estava bem nervoso, deu uns 'BO’s', o notebook não estava funcionando, a tela ficou balançando demais... fiquei rezando a sessão toda para o filme não parar", comentou.

O fotógrafo still e ex-estagiário da Agência Primaz, Gustavo Batista, que registrou cenas fundamentais como a introdução e o "fatídico" casamento em Furquim, celebrou a oportunidade de redescobrir a cultura regional sob uma nova ótica.

Para ele, a produção conseguiu equilibrar a tradição com a inovação artística: "Eu fiz poucas diárias, quem acompanhou a maior parte das gravações foi Gabriela Cortez, uma profissional incrível, mas foi uma experiência muito legal... estar ali em Furquim e ver a lenda por essa outra perspectiva. Acho que tem muitas coisas que eles trazem, mas muitas coisas que eles mudam também. Então, muito legal estar ali no momento. É muito gostoso poder contribuir com esta obra".

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