Santa Casa terá atendimento odontológico para pessoas com TEA
Emenda parlamentar de R$300 mil permitirá ampliar atendimento odontológico especializado para pacientes autistas da Região dos Inconfidentes
Deputado Wendel Mesquita anunciou a destinação de recursos para atendimento odontológico a pessoas com TEA durante visita à Santa Casa de Misericórdia de Ouro Preto - Foto: Larissa Antunes/Agência Primaz
Na última sexta-feira (13), o deputado estadual Wendel Mesquita anunciou a destinação de R$700 mil em recursos para a Santa Casa de Misericórdia de Ouro Preto. Do total, R$300 mil serão aplicados no projeto de atendimento odontológico para pessoas com transtorno do espectro autista (TEA) e outros R$400 mil serão utilizados na compra de equipamentos e na troca de camas hospitalares da instituição.
O anúncio foi feito durante visita do parlamentar ao hospital, ao lado da diretoria e da equipe de odontologia responsável pelo projeto. Segundo o deputado, a iniciativa busca fortalecer o atendimento em saúde e ampliar o acesso a tratamentos especializados na região dos Inconfidentes.
Projeto odontológico voltado ao autismo
De acordo com Wendel Mesquita, a decisão de destinar a emenda surgiu após conhecer o trabalho desenvolvido pela equipe do hospital Santa Casa “Eu atuo com o fortalecimento ao tratamento de pessoas autistas em Minas Gerais. Fiquei sabendo, através do meu assessor Ricardo, que aqui na Santa Casa havia um projeto odontológico voltado para autistas. Quando conheci, fiquei encantado”, disse.
Segundo o deputado, o diferencial da iniciativa está no atendimento hospitalar para casos mais complexos. “São casos em que é preciso fazer um canal ou uma cirurgia dentária e o autista não consegue realizar o procedimento em um consultório comum. Ele precisa vir para uma sala cirúrgica, com anestesia. Poucos hospitais no Brasil têm esse tipo de atendimento”, explicou.
O recurso de R$300 mil será destinado à ampliação do projeto que já existia, funcionando apenas de forma particular. Com o recurso, o atendimento de pacientes de Ouro Preto e de cidades da região, como Mariana e Itabirito, passa a acontecer de forma gratuita.
A emenda parlamentar deverá ser cadastrada até o dia 20 deste mês, com previsão de liberação dos recursos até junho deste ano. O deputado também afirmou que pretende manter o apoio ao projeto nos próximos anos. “Esse ano estamos entrando nessa parceria e o nosso intuito é todo ano trazer mais recursos para que esse projeto continue, porque ele é fundamental”, afirma.
Mesquita ressaltou ainda que muitas famílias não têm condições de arcar com os custos de procedimentos odontológicos complexos. “Muitos autistas são filhos de mães solo e de famílias de baixa renda. Um procedimento desse de forma particular é muito caro”, relatou o deputado.

Atendimento especializado
O projeto é coordenado pela dentista Ana Márcia Araújo, que atua na Santa Casa e há anos acompanha as dificuldades enfrentadas por pacientes autistas durante consultas odontológicas. Segundo ela, o ambiente do consultório pode ser um grande desafio para esses pacientes.
Ana explica que a adaptação ao ambiente é a principal dificuldade no processo de atendimento. “A iluminação do consultório, o barulho do motor e até a presença de outras pessoas no ambiente podem incomodar o paciente. Muitas vezes até sentar na cadeira para avaliação já é uma dificuldade extrema”, explica.
De acordo com a dentista, parte dos pacientes consegue se adaptar gradualmente ao atendimento, mas há situações em que a intervenção precisa ser imediata. “Existem casos em que o paciente sente muita dor e precisa de tratamento rápido. Não dá para esperar dez ou quinze consultas tentando adaptar o paciente. Nesses casos, a gente precisa realizar o atendimento em bloco cirúrgico, com acompanhamento médico e de forma segura”, afirmou a coordenadora do projeto.
Até então, muitos desses procedimentos eram realizados de forma particular. “Hoje muitas famílias precisam custear o tratamento odontológico junto com os custos hospitalares. Poder fazer isso dentro do SUS é muito importante e gratificante”, relata.
Ela também destacou que, em alguns casos, as famílias precisavam buscar atendimento fora da região. “A nossa referência era em outra cidade. Imagine levar uma criança com dor dentro de um carro para fazer um tratamento odontológico. Isso gera um desgaste muito grande para a família”.
Fluxo de atendimento
Segundo a equipe da Santa Casa, o atendimento odontológico hospitalar para pessoas com TEA seguirá um fluxo específico dentro da rede de saúde. A maioria dos pacientes inicia o acompanhamento em unidades de saúde ou centros de especialidades odontológicas dos municípios.
A partir da avaliação dos profissionais, os casos mais complexos podem ser encaminhados para procedimentos hospitalares. “Não é todo paciente autista que precisa vir para o hospital. Existe um processo de avaliação entre os dentistas da rede. Só os casos em que realmente é necessário realizar o procedimento com sedação são encaminhados para o bloco cirúrgico”, explica Thatyanna Mota, coordenadora da equipe de comunicação do hospital.
Antes da realização de procedimentos mais complexos, também existe um processo de adaptação ao consultório odontológico. “Essas crianças precisam de previsibilidade. As consultas também são curtas, geralmente em torno de 20 minutos, para evitar estresse”, explica Thatyanna.
Ainda de acordo com a coordenadora, durante o processo de encaminhamento, pode haver o envio de vídeos do consultório para os pacientes, para que eles possam conhecer o ambiente antes mesmo de conhecerem o hospital.

Impacto para as famílias
Segundo Ana Márcia, o objetivo do projeto é garantir mais qualidade de vida para os pacientes e seus familiares. “A gente quer trazer mais conforto e dignidade para esses pacientes. Não é só tratar a dor, mas permitir que eles tenham um atendimento tranquilo e qualidade de vida”, afirmou.
Ela também destacou que a proposta é oferecer tratamento odontológico completo. “A gente não quer que essas crianças venham ao dentista apenas para extrair dentes. Queremos fazer restaurações, tratamento de canal e preservar a saúde bucal, assim como qualquer pessoa tem direito”, concluiu.
Com o novo recurso, a expectativa é ampliar o acesso ao atendimento especializado e fortalecer a rede de cuidado para pessoas com TEA não só em Ouro Preto, mas em toda a Região dos Inconfidentes.

Larissa Antunes
É graduanda em Jornalismo na UFOP e estagiária na Agência Primaz de Comunicação. Possui interesse por jornalismo cultural, radiojornalismo, audiovisual, fotojornalismo, movimentos político-sociais e expressões artístico- culturais.







