Saúde mental, medicamentalização e dependência de psicofármacos

“Reduzir a saúde mental apenas à medicação é desconsiderar a importância da escuta, do vínculo, do acolhimento e de abordagens psicossociais”. (Blog do CENAT)

Atualizado em 26/03/2026 às 08:03, por Júlio Vasconcelos.

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Leia o texto (ou ouça o áudio) da coluna de Júlio Vasconcelos:

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Medicamentalização é o uso excessivo e indevido de medicamentos para tratar problemas fisiológicos ou mentais, transformando experiências normais da vida em doenças. Ela também foca na solução rápida farmacológica (pílulas) para tratar questões complexas, como tristeza ou estresse, ignorando causas subjacentes. Na prática, o que se tem observado é que esse fenômeno vem aumentando de forma assustadora e preocupante nos últimos tempos, principalmente quando se trata de saúde mental. Esse processo, por sua vez, tem gerado um aumento expressivo no número de drogarias nas cidades, como é o caso de Mariana.

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Na década de 70, se não me falha a memória, como muitos devem se lembrar, em Mariana existiam apenas 03 farmácias ou outras poucas mais: a do Saulo, a do Senhor Geraldo e a da Dona Tereza de Abrão. Atualmente, levantamentos locais apontam que hoje esse número pode passar de 30, se considerados bairros e distritos e ainda está crescendo! Isso significa uma proporção aproximada de 01 farmácia para cada 2.100 habitantes, uma taxa muito elevada para uma cidade de médio porte, quase o dobro da média nacional que gira aproximadamente de 1 para cada 4 mil habitantes. A indústria farmacêutica agradece! Não é à toa que as farmácias atualmente são chamadas de drogarias...

O problema é que questões humanas antes elaboradas no campo da convivência, da experiência subjetiva, do tempo de adaptação ou de psicoterapia, passaram a ser frequentemente traduzidas em linguagem farmacológica. Tristeza prolongada, ansiedade, estresse, dificuldade de dormir, irritabilidade, fadiga emocional e insegurança passaram a ser rapidamente convertidas em demanda por medicamentos. Nesse cenário, cresceu fortemente o consumo de psicofármacos, medicamentos que atuam no sistema nervoso central, influenciando diretamente o humor, a ansiedade, o sono e a atenção. Clonazepam, Alprazolam, Diazepam, Zolpidem e Fluoxetina tornaram-se parte da rotina de milhões de brasileiros. O Conselho Federal de Farmácia registrou crescimento expressivo nas vendas desses antidepressivos e estabilizadores de humor nos últimos anos, onde o consumo praticamente mais que dobrou em relação ao início da década passada.

A maior preocupação está sobretudo em medicamentos ansiolíticos e sedativos. Esses medicamentos funcionam bem em um primeiro momento, depois o organismo se adapta, gerando tolerância. A mesma dose já não produz o mesmo efeito e a pessoa sente gradativamente necessidade de uma dosagem maior e, ao tentar suspender a medicação, surgem sintomas semelhantes ao da dependência anterior, tais como irritabilidade, angústia, insônia e tremores e sensação de vazio. Nesse círculo vicioso, cria-se uma dependência medicamentosa silenciosa e muitas pessoas não percebem, aprofundando-se cada vez mais nessa nova relação.

Na verdade, esse fenômeno revela um traço marcante do nosso tempo, onde vivemos em uma sociedade capitalista selvagem que impera um processo constante de cobrança e pressão para melhor desempenho e alcance de mais e mais resultados, de busca desenfreada por riqueza, de excesso de estímulos, de pouco tempo para lazer e descanso e de pouco investimento em desenvolvimento emocional e espiritual. Nestas circunstâncias, o medicamento surge, de forma milagrosa, como um regulador rápido. Muitos pacientes iniciam o uso para situações pontuais e acabam por tornarem-se dependentes da medicação para dormir, acalmar-se ou funcionar socialmente. O remédio deixa de ser recurso terapêutico temporário, passando a ocupar papel central de regulação emocional.

Tudo transparece que o problema é muito mais sério do que aparenta ser! O crescimento do número de farmácias deve ser lido não apenas como indicador do crescimento populacional e econômico, mas também como indicador relacionado à aceleração do adoecimento físico e mental. Na verdade, ele expressa o comportamento de uma sociedade que passou a recorrer cada vez mais à química para administrar suas emoções, seus sofrimentos e suas fragilidades relacionadas à vida cotidiana.

O desafio contemporâneo não está em negar o valor dos medicamentos, mas em recolocá-los em equilíbrio com outras formas de cuidado relacionadas à psicanálise, à reorganização de hábitos, ao fortalecimento de vínculos sociais e à implantação de políticas públicas de saúde mental, a exemplo da Norma Regulamentadora NR1, recém revisada. Sem isso, corre-se o risco de transformar unicamente o alívio farmacológico em respostas quase exclusivas para as dores humanas que, muito além do tratamento fisiológico e farmacológico, exigem um processo de compreensão muito mais amplo e aprofundado do universo da mente humana. 

Quem tem ouvidos, que ouça!


Júlio Vasconcelos

Júlio César Vasconcelos, Mestre em Ciências da Educação, Professor Universitário, Coach, Escritor e Sócio-Proprietário da Cesarius Gestão de Pessoas