Mariana (MG), 21 de maio de 2026 MPJ | Mais Pelo Jornalismo
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“Sonhos de Glaura” encanta a comunidade do distrito em estreia emocionante

Evento em escola do distrito reúne robótica, arte e estreia do filme “Sonhos de Glaura” feito com a comunidade pela UFOP. Estreia do curta reacende debate sobre a criação do curso de cinema na universidade

Pessoas juntas em lancamento de filme

Um filme realizado com a comunidade e para a comunidade, “Sonhos de Glaura” nasce na Escola onde tudo começou. - Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz

“Glaura reúne em si a doçura dos campos e a beleza que nem os deuses desprezam.” A frase de Manoel Inácio da Silva Alvarenga, poeta e escritor de “Glaura”, provou -se com força no último sábado (11), quando o distrito de Glaura, em Ouro Preto, se transformou em palco de um encontro entre tecnologia, arte e pertencimento.

Realizado na Escola Municipal Benedito Xavier, o evento “Robótica e Cultura de Glaura” reuniu apresentações estudantis, manifestações culturais e marcou o lançamento do curta-metragem Sonhos de Glaura, fruto de uma intensa construção coletiva entre universidade e comunidade.

A programação começou ainda durante o dia, com atividades que iam de exposições de robótica a apresentações de teatro, podcasts com causos da região e degustação de comidas típicas, como angu à baiana, doce de leite e goiabada com queijo. À noite, o pátio da escola se transformou em sala de cinema, lotada por moradores ansiosos para se verem, literalmente, na tela.

 

Cada detalhe foi pensado com carinho para valorizar a cultura, a criatividade e o talento dos nossos alunos, que são os grandes protagonistas desta noite

Miliane Carvalho, vice-diretora da Escola

 

Vice-diretora da escola se emociona com impacto do evento na vida dos alunos da sua escola. - Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz

Um filme feito com e para Glaura

Árvores, cachoeiras e cultura local são celebradas no filme. - Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz

Dirigido pelo professor e cineasta Adriano Medeiros da Rocha, da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), o curta Sonhos de Glaura é resultado do projeto WebCINETV UFOP, que articula pesquisa, formação e produção audiovisual na região. O filme que trata de temáticas como infância, protagonismo feminino e pertencimento territorial, é o retrato de um processo de dois anos de cocriação.

“Desde o início, nosso desejo era construir com eles e para eles, com a comunidade, escola, famílias. A partir de uma oficina de cocriação, ideias foram surgindo e se transformaram no roteiro e, agora, no filme”, explicou Adriano. E completa dizendo que não tinha outro lugar para fazer o lançamento do curta se não a quadra daquela escola. “Tudo começou aqui, a gente brincava aqui e apesar de todas as questões técnicas e de acústica, o filme precisava fazer o seu lançamento aqui, com a comunidade”, se emociona.

A produção envolveu moradores em todas as etapas, da atuação à direção de arte. A jovem Rafaela Pinto Dantas, protagonista do curta aos 8 anos de idade, resume o impacto da experiência: 

 

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Foi uma experiência incrível. Olhando pro telão, acho que vou sentir muita felicidade e orgulho, por ter ido lá todos os dias, ficar até tarde, mas eu acho que vai ser bem bom o filme

Rafaela Dantas, atriz

 

 

Rafaela afirma que apesar de amar viver Sonhos de Glaura, quer seguir um pouquinho com a carreira de atriz, mas que seu sonho mesmo é ser pediatra. - Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz

 

Segundo a produtora do filme Érica Siqueira, o envolvimento da comunidade foi além das câmeras. Em um filme que dispensou o uso de fitas zebradas, para demarcar gravações, graças ao entendimento dos moradores, fez de um cafezinho em intervalo das filmagens, rotina com a comunidade. “A gente agradece muito o acolhimento, igual a  Dona Aparecida, que abriu a casa, que fez lanchinho pra gente, que o tempo todo quis nos receber lá”, relembrou a produtora.
 

Formação, afeto e protagonismo

O processo criativo também foi pedagógico e afetivo, especialmente com o elenco infantil. Antes dos ensaios, as crianças brincavam: pique, jogos, bicicleta. Só depois vinham os textos. “Foi um filme construído com o lúdico”, disse o diretor.

 

O lúdico do filme para o evento. - Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz

A estudante Clara Pinto Dantas, de 13 anos, responsável pela direção de arte e fotografia, destacou o caráter transformador da experiência. “É um filme de empoderamento feminino, algo em que eu acredito muito. Tudo que passa no filme, é uma coisa que eu acredito e que minha mãe me ensinou muito e eu acho que assim, vai ser muito emocionante ver”, conta a pequena cineasta.  
 

“Foi uma experiência incrível acompanhar tudo e ficar por trás das câmeras. Percebi que quero seguir no jornalismo”, afirmou Clara Dantas. - Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz

Já para os pais, o impacto é visível. “O legal é ver o brilho no olho dela cada vez que fala do filme”, contou Edmundo Dantas, pai de Rafaela, ou Glaura, para os espectadores mais íntimos. A mãe, Flávia Isabel, reforça a importância da visibilidade do filme para o distrito: “Tem muita cultura aqui que as pessoas nem conhecem. Isso precisa ser mostrado”.

 

Entre fotos, robôs e cinema, a comunidade se reconhecia nos pequenos detalhes. - Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz

Extensão universitária: devolvendo à comunidade

O evento e o filme evidenciam o papel central da extensão universitária, um dos pilares da universidade pública. Para o reitor da UFOP, Luciano Campos da Silva, iniciativas como essa mostram o caminho que a instituição deve seguir. “A universidade não pode se encastelar. Ela deve levar para a comunidade aquilo que produz. Estar aqui hoje mostra que estamos no caminho certo”, afirmou o magnífico.

O professor do curso de jornalismo presente no evento, Fred Salomé, reforçou  essa perspectiva: “a gente não tá aqui fazendo graça pra Glaura, a gente tá devolvendo pra Glaura o que Glaura investiu na gente”, garantiu.

Essa troca, segundo ele, é o que democratiza o conhecimento. “Isso é cultura movimentando, essa troca do que sou eu e do que está além de mim e a universidade faz isso, o curso fez isso, o cinema fez isso”.
 

Cultura como transformação

Para além de moradores da comunidade, professores e reitores, o evento contou com a participação da vice-prefeita de Ouro Preto, Regina Braga, que, sendo moradora do distrito de Engenheiro Corrêa destacou o impacto simbólico do evento. “Educação e cultura são sinônimo de transformação de vidas. Glaura já é um sonho, né? Aí, você fazer um filme, sonhos de Glaura, uma criança falando de empoderamento feminino, protagonismo feminino, isso pra mim gente, eu to encantada”, se emociona.

Para moradores e participantes, o evento também reafirma a identidade local. “Aqui é muito rico culturalmente. Trazer essa vivência de robótica, dança, teatro e cinema pra cá é essencial”, disse a monitora Érica Franco Amaral.

 

Cinema na UFOP: um futuro em construção

Animados, professor e vice-prefeita afirmam: “Queremos o curso de Cinema na UFOP”. - Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz

O sucesso da iniciativa também reacende um debate importante: a criação do curso de Cinema e Audiovisual na UFOP. Segundo o reitor, o projeto já está aprovado internamente e agora avança para viabilização estrutural. 

 

Ouro Preto tem vocação para o cinema. Já temos produção, temos capacidade. Agora é buscar recursos, estrutura e professores. Este é o ano de correr atrás disso

Luciano Campos, reitor da UFOP


 

 

Adriano Medeiros e Luciano Campos da Silva confraternizam pós lançamento e celebram a arte e o cinema. - Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz

A proposta, vinculada ao Instituto de Filosofia, Artes e Cultura (IFAC), pretende formar profissionais com foco em patrimônio, preservação e integração latino-americana. Para Regina Braga, a criação do curso é estratégica. “O que vemos hoje em Glaura é prova do potencial transformador desse curso. Queremos o curso de cinema”.
 

Próximos passos

Após a estreia em Glaura, Sonhos de Glaura já tem sete exibições confirmadas em escolas e centros culturais. A equipe pretende circular por festivais, especialmente no circuito infanto-juvenil, ao longo do próximo ano.

Paralelamente, novos projetos já estão em desenvolvimento pela WebCINETV UFOP, incluindo documentários e um programa de TV.

Enquanto isso, em Glaura, fica o legado de um dia em que ciência, arte e comunidade se encontraram, provando que, quando universidade e território caminham juntos, a cultura deixa de ser um privilégio e se torna uma experiência transformadora e totalmente compartilhada.

 

Um boné fala mais que mil palavras. Viva! - Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz

 

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