“Glaura reúne em si a doçura dos campos e a beleza que nem os deuses desprezam.” A frase de Manoel Inácio da Silva Alvarenga, poeta e escritor de “Glaura”, provou -se com força no último sábado (11), quando o distrito de Glaura, em Ouro Preto, se transformou em palco de um encontro entre tecnologia, arte e pertencimento.
Realizado na Escola Municipal Benedito Xavier, o evento “Robótica e Cultura de Glaura” reuniu apresentações estudantis, manifestações culturais e marcou o lançamento do curta-metragem Sonhos de Glaura, fruto de uma intensa construção coletiva entre universidade e comunidade.
A programação começou ainda durante o dia, com atividades que iam de exposições de robótica a apresentações de teatro, podcasts com causos da região e degustação de comidas típicas, como angu à baiana, doce de leite e goiabada com queijo. À noite, o pátio da escola se transformou em sala de cinema, lotada por moradores ansiosos para se verem, literalmente, na tela.
Cada detalhe foi pensado com carinho para valorizar a cultura, a criatividade e o talento dos nossos alunos, que são os grandes protagonistas desta noite

Um filme feito com e para Glaura

Dirigido pelo professor e cineasta Adriano Medeiros da Rocha, da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), o curta Sonhos de Glaura é resultado do projeto WebCINETV UFOP, que articula pesquisa, formação e produção audiovisual na região. O filme que trata de temáticas como infância, protagonismo feminino e pertencimento territorial, é o retrato de um processo de dois anos de cocriação.
“Desde o início, nosso desejo era construir com eles e para eles, com a comunidade, escola, famílias. A partir de uma oficina de cocriação, ideias foram surgindo e se transformaram no roteiro e, agora, no filme”, explicou Adriano. E completa dizendo que não tinha outro lugar para fazer o lançamento do curta se não a quadra daquela escola. “Tudo começou aqui, a gente brincava aqui e apesar de todas as questões técnicas e de acústica, o filme precisava fazer o seu lançamento aqui, com a comunidade”, se emociona.
A produção envolveu moradores em todas as etapas, da atuação à direção de arte. A jovem Rafaela Pinto Dantas, protagonista do curta aos 8 anos de idade, resume o impacto da experiência:
Foi uma experiência incrível. Olhando pro telão, acho que vou sentir muita felicidade e orgulho, por ter ido lá todos os dias, ficar até tarde, mas eu acho que vai ser bem bom o filme

Segundo a produtora do filme Érica Siqueira, o envolvimento da comunidade foi além das câmeras. Em um filme que dispensou o uso de fitas zebradas, para demarcar gravações, graças ao entendimento dos moradores, fez de um cafezinho em intervalo das filmagens, rotina com a comunidade. “A gente agradece muito o acolhimento, igual a Dona Aparecida, que abriu a casa, que fez lanchinho pra gente, que o tempo todo quis nos receber lá”, relembrou a produtora.
Formação, afeto e protagonismo
O processo criativo também foi pedagógico e afetivo, especialmente com o elenco infantil. Antes dos ensaios, as crianças brincavam: pique, jogos, bicicleta. Só depois vinham os textos. “Foi um filme construído com o lúdico”, disse o diretor.

A estudante Clara Pinto Dantas, de 13 anos, responsável pela direção de arte e fotografia, destacou o caráter transformador da experiência. “É um filme de empoderamento feminino, algo em que eu acredito muito. Tudo que passa no filme, é uma coisa que eu acredito e que minha mãe me ensinou muito e eu acho que assim, vai ser muito emocionante ver”, conta a pequena cineasta.

Já para os pais, o impacto é visível. “O legal é ver o brilho no olho dela cada vez que fala do filme”, contou Edmundo Dantas, pai de Rafaela, ou Glaura, para os espectadores mais íntimos. A mãe, Flávia Isabel, reforça a importância da visibilidade do filme para o distrito: “Tem muita cultura aqui que as pessoas nem conhecem. Isso precisa ser mostrado”.

Extensão universitária: devolvendo à comunidade
O evento e o filme evidenciam o papel central da extensão universitária, um dos pilares da universidade pública. Para o reitor da UFOP, Luciano Campos da Silva, iniciativas como essa mostram o caminho que a instituição deve seguir. “A universidade não pode se encastelar. Ela deve levar para a comunidade aquilo que produz. Estar aqui hoje mostra que estamos no caminho certo”, afirmou o magnífico.
O professor do curso de jornalismo presente no evento, Fred Salomé, reforçou essa perspectiva: “a gente não tá aqui fazendo graça pra Glaura, a gente tá devolvendo pra Glaura o que Glaura investiu na gente”, garantiu.
Essa troca, segundo ele, é o que democratiza o conhecimento. “Isso é cultura movimentando, essa troca do que sou eu e do que está além de mim e a universidade faz isso, o curso fez isso, o cinema fez isso”.
Cultura como transformação
Para além de moradores da comunidade, professores e reitores, o evento contou com a participação da vice-prefeita de Ouro Preto, Regina Braga, que, sendo moradora do distrito de Engenheiro Corrêa destacou o impacto simbólico do evento. “Educação e cultura são sinônimo de transformação de vidas. Glaura já é um sonho, né? Aí, você fazer um filme, sonhos de Glaura, uma criança falando de empoderamento feminino, protagonismo feminino, isso pra mim gente, eu to encantada”, se emociona.
Para moradores e participantes, o evento também reafirma a identidade local. “Aqui é muito rico culturalmente. Trazer essa vivência de robótica, dança, teatro e cinema pra cá é essencial”, disse a monitora Érica Franco Amaral.
Cinema na UFOP: um futuro em construção

O sucesso da iniciativa também reacende um debate importante: a criação do curso de Cinema e Audiovisual na UFOP. Segundo o reitor, o projeto já está aprovado internamente e agora avança para viabilização estrutural.
Ouro Preto tem vocação para o cinema. Já temos produção, temos capacidade. Agora é buscar recursos, estrutura e professores. Este é o ano de correr atrás disso

A proposta, vinculada ao Instituto de Filosofia, Artes e Cultura (IFAC), pretende formar profissionais com foco em patrimônio, preservação e integração latino-americana. Para Regina Braga, a criação do curso é estratégica. “O que vemos hoje em Glaura é prova do potencial transformador desse curso. Queremos o curso de cinema”.
Próximos passos
Após a estreia em Glaura, Sonhos de Glaura já tem sete exibições confirmadas em escolas e centros culturais. A equipe pretende circular por festivais, especialmente no circuito infanto-juvenil, ao longo do próximo ano.
Paralelamente, novos projetos já estão em desenvolvimento pela WebCINETV UFOP, incluindo documentários e um programa de TV.
Enquanto isso, em Glaura, fica o legado de um dia em que ciência, arte e comunidade se encontraram, provando que, quando universidade e território caminham juntos, a cultura deixa de ser um privilégio e se torna uma experiência transformadora e totalmente compartilhada.



