Uma artista

Os textos publicados na seção “Colunistas” não refletem as posições da Agência Primaz de Comunicação, exceto quando indicados como “Editoriais”

Atualizado em 02/12/2022 às 13:12, por Giseli Barros.

Foto: David Peinado/Pexels

Ouça a coluna de Giseli Barros:

 audio 1.mp3 

A camisa amarela, já surrada pelo uso, parece ainda feliz de outros tempos. Compondo a personagem, veste também uma bermuda larga de malha escura, calçando um par de chinelos bem gastos. Se alguém desejasse reparar, perceberia pés finos, com dedos ossudos, menores em relação à borracha suja e mais fina nos calcanhares. Com a cabeça descoberta, os cabelos escuros reluzem pouco no dia ensolarado.

/apidata/imgcache/1b6ca8f31b2386faa695068c84d8ff02.jpeg?banner=postmiddle&when=1773380649&who=345

No centro do pátio de um estacionamento comercial, uma voz conduz, animadamente, o evento. O som grave se espalha por todo o espaço, provocando outras vozes que se alteram, ao mesmo tempo em que se misturam em conversas distintas. De fora, o grupo parece um só, mas há vários deles organizados como pequenas irmandades. Faz parte do contrato social: associações que se revelam eufóricas com copos de cerveja, destilados e energético.

A música anima os presentes, que se preparam para o momento catártico do dia. No telão instalado em ponto estratégico, rodeado de barracas, a imagem é projetada para o início da partida de logo mais. Corpos se esbarram, enquanto, paradoxalmente, a bebida acelera os batimentos cardíacos, ainda que, aos poucos, os músculos entrem em estado de relaxamento. Entre iguais, ninguém percebe a figura desbotada que bebe de um copo esquecido ou de outro cedido, quase sem querer, em momento tão distraído.

/apidata/imgcache/2cb565cd5fc40fab2aa9f77bf1dcb137.jpeg?banner=postmiddle&when=1773380649&who=345

Seus interlocutores ideais, em inocente desejo ou por pura alucinação do protagonista, são a plateia que nem o repara. Presença invisível, ainda que tão ousada, ensaia passos ritmados fora do compasso. Agita os braços com movimentos de malabares. Equilibra o mundo nas mãos. Seus braços finos suportam o peso da vida a ele preterida. No passado, aprendiz dos sinais fechados. Pulava as linhas tracejadas dos asfaltos, deslizando entre carros hostis. Às vezes, uma criança arrisca o sorriso para o artista mirim. O pai se assusta. Outros passam velozes. Na melhor das hipóteses, o cidadão fora da faixa contribui para uma moeda que rola, uma nota que voa do automóvel.

Artista da vida, vai se esquivando como pode. Encontra a dança do grito. Desvenda as letras graves da gramática potente de becos e vielas. Sem voz nascera, mas o corpo fala das cenas vividas e imaginadas. O corpo canta através dos seus movimentos largos. Agora, ali, é a sua grande oportunidade. Imagina-se no palco montado à sua frente. Projeta-se para além do telão ainda vazio. Ganha asas. Salta. Equilibra-se em uma das mãos. Ninguém o vê. Arrisca uma manobra mais ousada. O chinelo quase escapa. Súbito pensamento. Transforma-se em malabarista. Equilibrista no meio-fio. Mais um salto. Os chinelos chegam até as nuvens. Sorri largamente. Assemelha-se à criança dos primeiros anos. Poucos dentes na boca larga. Um dia, guardou o de leite debaixo do travesseiro. Fez um pedido. De volta, recebeu solavancos. Melhor a rua. Desfaz o pensamento intruso e arrisca um rodopio extravagante. Agita-se no círculo invisível entre as vozes que se voltam para o telão. Deixa a plateia extasiada. É um artista. Sabe disso. Terá um palco somente seu. Para o momento, é um dia feliz. O apito dá início à partida. Olhos no telão. Ele também agita a camisa amarela no meio da torcida.


Giseli Barros

Giseli Barros é professora, mestra em Literatura Brasileira pela UFMG, membro efetivo da ALACIB-Mariana