Permanece aberta até 24 de abril, com visitação das 10 às 17h, a exposição “Entre Memórias e Presente: Ressignificando a Vida”, inaugurada na noite dessa sexta-feira (10), no Porão-Galeria da Casa de Cultura – Academia Marianense de Letras (AML), fruto de uma retomada de uma atividade deixada de lado desde os anos 1970, quando o artista Newton Godoy passou a dedicar-se à Engenharia Civil, tanto na iniciativa privada quanto na esfera do serviço público, inclusive com marcante atuação política em Mariana.
Acadêmicos saúdam ressignificação e retomada da arte
A abertura oficial da exposição “Entre Memórias e Presente: Ressignificando a vida” ficou a cargo dos acadêmicos Andreia Donadon Leal e JB Donadon Leal que, cada um a seu modo, abordaram a proposição do evento como um encontro sensível entre arte, memória e superação, ressaltando o resultado e a simbologia da produção recente de um artista que retoma a pintura após 14 anos convivendo com o diagnóstico da Doença de Parkinson, transformando a arte em instrumento de autocuidado, estímulo à memória e reconstrução da própria história.

Evocando Marcel Duchamp, um dos pais da arte conceitual, a acadêmica Andreia Donadon Leal foi a primeira a fazer uso da palavra na cerimônia de abertura da exposição de pinturas de Newton Godoy, lembrando que, na ressignificação da arte contemporânea, o artista oferece uma obra "incompleta" para o espectador, que também é um participante ativo na construção do sentido, tornando-a uma "arte que faz pensar".
Particularizando para o caso do artista, em sua condição peculiar, Andreia acrescentou que, em termos de ressignificação de vida, Godoy exemplifica a busca humana por sentido sob perspectivas psicológicas e filosóficas, dando sentido ao pensamento da psiquiatra Bárbara Fonseca, de que o ser humano é um "ser em busca de sentido", impulsionado pela "vontade de sentido", conseguindo escapar da frustração de sentimentos futilidade e absurdo, característicos de uma "neurose de massa".
Ao final de sua fala, Andreia descreve a arte de Newton Godoy como o reencontro com sua "potência máxima de poder ressignificar sua vida através da arte, dando a si mesmo e ao outro um novo significado, uma nova chance e um novo sentido.

A arte de Newton Godoy transcende sua formação como desenhista técnico e engenheiro, apropriando-se de seu conhecimento científico de perspectiva, profundidade, vazios, ondulações, espelhamento, luz e sombra
Saudando a plateia formada por integrantes da Academia Marianense de Letras, artistas, familiares do expositor e representantes da classe política local, JB Donadon Leal concentrou seu discurso em aspectos da obra de Newton Godoy, destacando que a transição, de profissional das chamadas Ciências Exatas para artista, foi suave, pois ele infunde suas telas com "poesia", o toque artístico esperado, resultando em representações de cidades iluminadas e edifícios, tais como igrejas e seminários, que são mais do que meras reproduções; descritas como "poemas iluminados" e "poemas virtuosos" que convidam à reflexão.
Palavra do artista

Depois de palavras de agradecimento aos presentes, Newton Godoy conduziu os participantes do evento ao Porão-Galeria da Casa de cultura de Mariana, onde respondeu a algumas perguntas de reportagem da Agência Primaz.
Questionado sobre a diversidade de estilos das obras expostas, o artista revelou que essa multiplicidade é proposital, vista como “uma busca por um caminho ou uma estratégia para explorar diversos pontos de vista ao criar uma tela”.
Segundo Newton, sua intenção é manter-se aberto a experimentar os estilos que lhe vêm à mente, desde que tenha as condições para executá-los, ressaltando que, embora a fixação em um estilo único possa acontecer no futuro, se houver uma tendência mais forte em algum deles, neste momento a ideia de abandono total da variedade é descartada.
Esse posicionamento permite, no entendimento do artista, o aprimoramento da apresentação de trabalhos através de colaboração e busca por novos caminhos, mediante uma orientação especializada do professor Lúcio Magalhães, a quem atribui grande ajuda na tomada de decisões sobre "o que fazer e como fazer", com foco em continuar a vida, buscando modificar a unidade para melhorar o todo, de modo a alcançar o melhor resultado possível na apresentação de suas obras.
Ouro ponto destacado por Newton Godoy foi a extrema importância da arte em seu processo terapêutico pessoal, especialmente no contexto de viver com a Doença de Parkinson. Considerando que a arte lhe proporciona a oportunidade de ser produtivo e inovador em suas expressões, contribuindo para um sentimento de utilidade e propósito.
Em outras palavras, o artista reconhece que a dedicação à arte permite que ele lide com as limitações impostas sem ressentimento ou revolta, promovendo uma abordagem de leveza, dedicação e amor, por meio da qual pode e pretende servir de exemplo para outras pessoas.
Ressignificação e emergir da vida

A abertura da exposição em Mariana tem uma simbologia adicional. Com diferença de poucas semanas, a cidade natal de Newton Godoy assiste ao ressurgimento de um artista, enquanto ele próprio, em seu ambiente familiar, é agraciado com o nascimento de Joaquim, seu primeiro neto, já presente, antecipadamente, na figura de sua mãe grávida, representada na obra “Entre Presenças”.
É mesmo uma situação em que eu faço a primeira exposição minha e Mariana, mostrando uma faceta da minha personalidade, do meu ser, que é esse lado artístico. Coincidentemente, isso acontece no ressurgimento de uma nova faceta da minha situação humana, surge o meu neto, que também renova a vida no seu nascimento
Finalizando, o artista expressa sua esperança de que seu neto “possa ter um mundo melhor, possa ser feliz e possa viver em paz nessa terra”, usufruindo de pensamentos e ações que possam promover a “mudança do todo, começando por cada um, tentando mostrar os caminhos que o mundo nos permite traçar e o alcance das decisões que a gente toma, de modo a ser exemplo para as futuras gerações”.


