Viver, estudar e trabalhar no município de Mariana tornou-se um desafio financeiro crescente que destoa da realidade econômica do restante do país. Entre julho de 2025 e junho de 2026, o Índice de Preço ao Consumidor de Mariana (IPC-MARIANA) acumulou uma inflação de 11,01%, enquanto o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), medido pelo IBGE, ficou em 4,64% no mesmo período. Ou seja, o custo de vida na cidade cresceu mais que o dobro da média nacional.
O cenário de aceleração não cedeu no primeiro quadrimestre de 2026, quando o IPC-MARIANA marcou 5,08% contra apenas 2,60% do IPCA. A Agência Primaz teve acesso a uma nota técnica, elaborada pelo professor Dr. Luiz Mateus Ferreira, do Instituto de Sociais Aplicadas da Universidade federal de Ouro Preto (ICSA/UFOP), e integrante do Observatório Econômico de Mariana, que fundamenta esses dados e revela que a inflação no município é influenciada por condicionantes estruturais estritamente locais.
Fatores como o mercado imobiliário hiperaquecido pela atividade mineradora, a intensa demanda da população universitária e a forte dependência de produtos vindos de fora formam a tempestade perfeita para o bolso dos moradores.





O peso exorbitante dos gastos obrigatórios anula o poder de compra e escancara os imensos desafios de viver em uma cidade cuja economia gravita, quase exclusivamente, em torno da mineração e da vida acadêmica.
A força da mineração e a explosão dos aluguéis
O epicentro absoluto da crise inflacionária marianense está na moradia. Apenas entre os meses de janeiro e abril de 2026, o grupo Habitação acumulou alta de expressivos 9,49% no IPC-MARIANA, consolidando-se como o grande vetor da inflação local, sendo responsável, sozinho, por quase 42% de toda a inflação acumulada no quadrimestre. Essa disparada nos preços dos aluguéis possui um responsável primário: o peso do setor de exploração mineral sobre um mercado imobiliário com fortíssima restrição de oferta.
A atividade mineradora atrai continuamente para a cidade um enorme contingente de profissionais especializados, executivos e trabalhadores temporários de empresas terceirizadas. Trata-se de um público com poder aquisitivo substancialmente superior à média da população, o que aquece de imediato e de forma muito agressiva a demanda por residências. Contudo, a cidade não consegue expandir sua oferta habitacional no mesmo ritmo. A topografia acidentada, os altos custos da construção civil, o tempo prolongado para implantação de loteamentos e as severas restrições urbanísticas para proteção do rico patrimônio histórico travam o surgimento de novos imóveis.
Esse cenário resulta em um violento desequilíbrio entre a alta procura impulsionada pela mineração e a baixa disponibilidade de imóveis. A dinâmica verificada em Mariana, contudo, ilustra uma marca estrutural dos territórios ligados à extração. Conforme dados do relatório do IPEAD/UFMG encomendado pela AMIG (Associação dos Municípios Mineradores de Minas Gerais e do Brasil), estudos comprovam que o custo de vida é significativamente maior em cidades mineradoras. O relatório aponta que o grande fluxo de empresas e trabalhadores gera o chamado "Custo Mineração", superaquecendo os preços dos imóveis e serviços básicos e penalizando severamente a maioria da população que não trabalha no setor e não recebe seus altos salários. Em Mariana, esse fenômeno excludente ganha contornos ainda mais graves pela limitação física do espaço urbano.
O drama e a vulnerabilidade dos estudantes da UFOP
Se a mineração desregula os preços de mercado com altos salários, quem sofre as consequências mais drásticas dessa especulação imobiliária são os alunos da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). O impacto voraz do custo de vida sobre a comunidade universitária é abordado de maneira enfática na nota técnica. Mariana abriga diariamente centenas de estudantes vindos de diversas regiões do país, que necessitam com urgência de moradia (em repúblicas, apartamentos e kitnets), internet, alimentação e serviços.
No entanto, por habitarem a mesma cidade, esses jovens competem diretamente pelos exatos mesmos imóveis escassos que são cobiçados pelos trabalhadores da mineração. Diante do forte poder de barganha das empresas e profissionais do setor extrativista, os estudantes acabam sendo empurrados para as margens do mercado imobiliário, sujeitando-se a pagar aluguéis exorbitantes para não perderem a vaga na universidade.
A gravidade do quadro reside no fato de que a esmagadora maioria desse público depende financeiramente de bolsas de pesquisa, programas de assistência estudantil ou apoio da família. Tais fontes de renda são notórias por permanecerem congeladas durante longos períodos, sem qualquer tipo de reajuste automático para acompanhar os índices inflacionários. O resultado é uma rápida e agressiva corrosão da capacidade financeira dos universitários. Como Habitação (9,49%) e Alimentação (alta de 3,47% no quadrimestre, consumindo mais de 27% do orçamento) são despesas inegociáveis de sobrevivência, os alunos acabam sacrificando o lazer, a saúde e outras áreas fundamentais. A asfixia orçamentária é tamanha que, segundo o estudo, eleva seriamente o risco de evasão no ensino superior, uma vez que a permanência estudantil na cidade se torna insustentável.
População flutuante, dependência externa e despesas inegociáveis

O eixo mineração-universidade não afeta apenas os aluguéis, mas a economia da cidade de maneira sistêmica. Mariana convive com uma gigantesca "população flutuante", composta por pessoas que não moram na cidade, mas transitam por ela todos os dias para estudar, prestar serviços terceirizados ou trabalhar. Esse fluxo constante infla de forma expressiva a procura por refeições, infraestrutura e bens de consumo diário.
Para atender a tamanho volume, o comércio local depara-se com outro gargalo apontado pelo IPC-MARIANA: a dependência sistêmica de fornecedores externos. Pelo fato de a cidade importar de outras regiões quase tudo aquilo que vende, os altos custos de transporte, logística e frete rodoviário são transferidos integralmente para o preço da prateleira.

Esse gargalo logístico atinge seu ponto crítico no grupo Alimentação e Bebidas. Embora a elevação de 3,47% aferida até abril de 2026 seja numericamente menor que a da moradia, os alimentos configuram o item mais custoso do orçamento médio marianense, devorando 27,25% de todas as despesas familiares. Somado a isso, o grupo de Educação acumulou variação de 9,90%, e os gastos do grupo Saúde e Cuidados Pessoais subiram 6,08%, fortemente puxados pelos reajustes de remédios e artigos farmacêuticos.
A fatura da desigualdade: inflação corrói a renda e o consumo
Enquanto categorias com fortes acordos sindicais e executivos do setor mineral conseguem negociar ganhos salariais e manter o poder de compra, a ampla maioria da população marianense que está fora da mineração — empregados do comércio, funcionalismo público ou trabalhadores informais — absorve todo o choque do "Custo Mariana". A queda no valor da renda real é severa e brutal.
As famílias de baixa renda ocupam, junto aos estudantes universitários, o topo do ranking de vulnerabilidade. Elas gastam quase todo o dinheiro disponível com os custos mais básicos de sobrevivência. Quando o aluguel, a conta de luz e a feira sobem acima do nível nacional simultaneamente, não existe qualquer margem para readequação financeira. A população idosa também amarga as consequências, assistindo à renda das aposentadorias ser engolida pelo encarecimento vertiginoso dos cuidados de saúde. Ironicamente, até mesmo o comércio periférico enfraquece: com a renda totalmente retida nas despesas essenciais, falta aos moradores o dinheiro para adquirir vestuário, cultura, bens duráveis e lazer, asfixiando o desenvolvimento de outras áreas da economia local.
Caminhos práticos para mitigar o Custo Mariana
É fato que o governo municipal não dispõe de autonomia para controlar a taxa de juros do país, entretanto, a nota técnica adverte que o custo de vida decorre majoritariamente de problemas internos, demandando urgência na adoção de políticas públicas locais.
A medida de impacto imediato sugerida pelo estudo é a formulação de uma agressiva e ampla política habitacional. Para frear o mercado imobiliário e oferecer alívio aos inquilinos, é fundamental criar estímulos rápidos à construção de novas moradias, fomentar projetos robustos de moradia estudantil — poupando os alunos da UFOP da especulação — e destravar a requalificação de imóveis desocupados na área central, conciliando com o cuidado patrimonial.

Paralelamente, para não ser refém dos preços de fretes logísticos do país, a cidade precisa investir pesado no fortalecimento do abastecimento alimentar, apostando no fomento da agricultura familiar, na criação de circuitos curtos de comercialização e na estruturação das feiras livres do município.

Por fim, investir com seriedade na diversificação da matriz produtiva — estimulando tecnologia, economia criativa e turismo — revela-se a principal saída para que a cidade não seja mais refém do superaquecimento provocado pelo ciclo de uma única atividade econômica, garantindo, a longo prazo, sustentabilidade e justiça social aos marianenses.





