O que antes era uma denúncia baseada em levantamentos preliminares agora é um fato científico validado pela comunidade acadêmica global. O artigo intitulado “Qualidade técnica de levantamentos florísticos de linha de base na avaliação de impacto ambiental: um estudo de contraprova de um projeto de mineração em Minas Gerais, Brasil” em tradução livre, publicado nesta terça-feira (12) na revista Impact Assessment and Project Appraisal (IAPA) uma das mais respeitadas no campo do planejamento e sustentabilidade, destaca que a negligência técnica em estudos ambientais subestima drasticamente o risco ambiental real na Serra de Ouro Preto.
O artigo, que pode ser encontrado online na plataforma Taylor & Francis, aponta que no local onde a mineradora BHP Billiton, uma das corresponsáveis pelo rompimento da Barragem de Fundão, pretende realizar pesquisas minerais, há a ocorrência de plantas que podem desaparecer completamente da face da Terra caso o projeto avance. As citações do artigo apresentadas nesta reportagem são traduções livres de nossa redação, uma vez que o texto original foi publicado em inglês.
Validação científica
Os dados que agora ganham as páginas de uma prestigiada revista internacional não são inteiramente novos para os leitores da Agência Primaz. Há mais de um ano, em março de 2025, durante o evento HidroGeoDia, a professora Lívia Echternacht, do Departamento de Biodiversidade da UFOP e coordenadora do estudo, já havia antecipado os resultados preliminares dessa "contraprova" botânica.
Na ocasião, a pesquisadora denunciou que o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) da BHP apresentava falhas inaceitáveis para uma empresa de seu porte. Agora, com o estudo finalizado e revisado por pares, os números são ainda mais contundentes: em apenas um dia de inventário independente na Serra de Ouro Preto, a equipe da UFOP identificou 79 espécies, das quais 56 (71%) estavam ausentes no relatório oficial da mineradora.
Risco de extinção iminente
O artigo científico é enfático ao afirmar que a metodologia da mineradora falhou em identificar as espécies mais vulneráveis, como as raras e microendêmicas (que só existem em um local específico). Entre os achados da UFOP, destacam-se plantas que correm risco de extinção total, como:
Vriesea badinii (Bromélia): Esta espécie é classificada como Criticamente Ameaçada e é encontrada apenas na Serra de Ouro Preto. Os pesquisadores alertam que ela “poderia ser extinta com a destruição da Serra de Ouro Preto e é provavelmente uma das espécies mais impactadas pelo projeto”.
Nicotiana stat. nov.: Trata-se de uma nova espécie para a ciência, endêmica de Ouro Preto e potencialmente “criticamente ameaçada”.
Cinnamomum erythropus: Árvore da família da canela, listada como “em perigo” e endêmica de Minas Gerais. O estudo observa que, embora seja "localmente abundante" na área, foi ignorada pela BHP.
Cambessedesia pityrophylla: Espécie “em perigo” e endêmica do Quadrilátero Aquífero-Ferrífero.

Comprometimento do Patrimônio Público
Além da perda irreparável da biodiversidade, o estudo ressalta que a área da Serra de Ouro Preto, que compreende locais como a Serra do Chafariz e a Pedra do Amolar, é um patrimônio público que deve ser salvaguardado, especialmente por estar na entrada de uma cidade que é Patrimônio Mundial da UNESCO.
A conclusão dos cientistas é de que diagnósticos de baixo rigor técnico, como o apresentado pela BHP, impedem que as medidas de mitigação e compensação sejam eficazes, favorecendo um ciclo de degradação ambiental progressiva.
O artigo finaliza convocando a comunidade científica a realizar mais estudos de contraprova para expor as limitações dos licenciamentos atuais e exigir práticas mais rigorosas.
O padrão da omissão: Do Siqueira-Norte ao Projeto Rancharia
A preocupação com a credibilidade dos dados da BHP Billiton ganha força ao observar o Projeto Rancharia – Fase 2, outra frente de licenciamento da empresa focada na área da Fazenda Tesoureiro. Assim como no caso do Siqueira-Norte, especialistas e movimentos sociais apontam lacunas graves que parecem seguir um padrão de negligência:
Omissão Arqueológica: O grupo CONTERRA denunciou que a BHP ignorou vestígios arqueológicos das ruínas da Fazenda Tesoureiro em seus estudos oficiais, apesar de estarem a menos de 500 metros de um ponto de sondagem.

Subestimação da Flora: No Projeto Rancharia, o parecer técnico do grupo OBSERVA/UFOP indica que o EIA da mineradora omitiu seis espécies de plantas ameaçadas de extinção com registros confirmados para a área. Isso representa um aumento de 300% na lista de espécies em risco em relação ao declarado pela empresa.
Estratégia de Fragmentação: a fragmentação de grandes projetos em pequenas "mini-minas" facilita aprovações rápidas com estudos simplificados, mascarando os impactos cumulativos sobre aquíferos estratégicos e sobre áreas de preservação ambiental.
Este cenário de "invisibilidade" técnica não é isolado. Em Ouro Preto, casos recentes como o da Mina Patrimônio, onde uma caverna foi omitida em relatórios e posteriormente soterrada, reforçam a tese de que a omissão deliberada de atributos ambientais e culturais pode ser uma estratégia recorrente para evitar restrições ao uso da terra.
No caso da BHP, o artigo científico conclui que, dada a sua "capacidade financeira virtualmente ilimitada", a apresentação de diagnósticos tão falhos compromete a integridade do licenciamento, além de colocar em dúvida as reais intenções da mineradora.
Vizinhos incômodos
Enquanto a BHP Billiton avança com seus pedidos de pesquisa, a empresa Rio Manso Mineração LTDA já tramita o licenciamento para a lavra efetiva no Projeto Tesoureiro, localizado na mesma área de interesse do Rancharia - Fase 2. O empreendimento pretende extrair 800 mil toneladas de minério de ferro por ano em uma operação a céu aberto que abrange 22 hectares da antiga Fazenda Tesoureiro, localizada na área de amortecimento do Parque Estadual do Itacolomi.
Ameaça ao Patrimônio e ao Turismo
A proximidade do projeto com marcos históricos e ambientais é o que mais gera indignação. De acordo com o Estudo de Impacto Ambiental (EIA/RIMA) da própria Rio Manso, a cava da mina ficará a apenas 8 metros do sítio arqueológico da Fazenda Tesoureiro. Além disso, a operação estará a:
800 metros da Fazenda do Manso-Casa Bandeirista (tombada pelo IEPHA);
2 km da Lagoa do Custódio;
3 km do centro de Lavras Novas.
Para os moradores, o projeto é uma "sentença de morte" para o ecoturismo, base da economia local. O movimento aponta que o fluxo de 12 carretas pesadas por hora na MG-129 e o impacto visual da cava (visível do Pico do Itacolomi e do Mirante do Morro do Cachorro) descaracterizarão irreversivelmente a paisagem.
Além disso, o Projeto Tesoureiro atinge diretamente os córregos Belém e dos Prazeres, fundamentais para a Cachoeira dos Prazeres e para a Represa do Custódio. Além do risco hídrico, a fauna local corre perigo extremo, com destaque para a libélula Heteragrion itacolomii, espécie endêmica encontrada apenas nos arredores do parque, e plantas ameaçadas como a Araucária e o Jacarandá-da-bahia.
Mobilização e Audiência Pública
A reação das comunidades de Lavras Novas, Chapada, Santo Antônio do Salto e Saramenha culminou no nascimento do movimento “Salve o Itacolomi” em abril de 2026. O grupo busca unir o saber técnico da UFOP com a vivência dos moradores para expor falhas no licenciamento.
Sensível ao conflito, o deputado Leleco Pimentel (PT) protocolou o Requerimento de Comissão nº 21.267/2026 na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). A audiência pública convocada, ainda sem data definida, visa debater os impactos socioeconômicos e as ameaças ao patrimônio natural e cultural, atendendo ao pedido das comunidades que temem a depredação ambiental e o comprometimento de suas dinâmicas comunitárias.


