A noite desta segunda-feira (27), transformou a tranquilidade da casa paroquial de Lavras Novas em um centro de resistência e debate estratégico sobre o futuro da região. Moradores de diversos distritos, incluindo Chapada, Santo Antônio do Salto, Saramenha, Itatiaia e Rancharia, reuniram-se para manifestar um posicionamento unânime: a rejeição absoluta aos novos projetos minerários que ameaçam a zona de amortecimento do Parque Estadual do Itacolomi (PEIT).
O ato não foi apenas um protesto simbólico, mas o ponto de partida do movimento “Salve o Itacolomi”, que busca unir o saber técnico de especialistas e professores da UFOP com a vivência cotidiana de quem vê na Serra a base de sua economia e identidade.
O Projeto Tesoureiro e a sombra da BHP
No centro do conflito está o Projeto Tesoureiro, de titularidade da mineradora Rio Manso Mineração LTDA, que pretende extrair 800 mil toneladas de minério de ferro por ano. A operação, prevista para ocorrer a céu aberto, abrange uma área de mais de 22 hectares na antiga Fazenda Tesoureiro. Embora a empresa defenda a viabilidade do empreendimento como motor de geração de empregos e tributos, a comunidade local observa com desconfiança a movimentação de bastidores.
A relação com a BHP Billiton Brasil LTDA agrava as tensões sociais, a mineradora, uma das responsáveis pelo rompimento da barragem de Fundão, avança paralelamente com o Projeto Rancharia – Fase 2, enquanto a Rio Manso busca a lavra na mesma localidade, na Fazenda Tesoureiro.
Lideranças locais, como o sociólogo e morador da Chapada, Sérgio Gadelha, alertam para uma estratégia de fragmentação do território. Segundo Gadelha, há uma desconfiança de que a BHP pretenda apenas mapear o potencial mineral para, posteriormente, vender direitos fracionados a diversas "mini-minas", o que facilitaria o licenciamento ambiental sob legislações mais flexíveis.
A ameaça ao "berço das águas"

O projeto está localizado em uma área classificada como de "Classe Especial" para a conservação da biodiversidade mineira. Uma minuta de parecer do Instituto Estadual de Florestas (IEF), à qual a Agência Primaz teve acesso, manifesta-se de forma contrária à continuidade do licenciamento.
O documento técnico ressalta que a intervenção atingirá diretamente os córregos Belém e dos Prazeres, cujas águas fluem para a Cachoeira dos Prazeres e a Represa do Custódio, vitais para o ecossistema do Rio Doce e para o lazer turístico.
Além do risco hídrico por assoreamento e sedimentos, a fauna local corre perigo extremo. A região abriga a espécie endêmica de libélula Heteragrion itacolomii, encontrada apenas nos arredores do parque, além de anfíbios raros cujos habitats seriam fragmentados pela cava.

Cerca de 10% da supressão vegetal prevista atingiria campos rupestres ferruginosos, um ecossistema frágil e rico em biodiversidade. Além disso, espécies ameaçadas de extinção, como a Araucária e o Jacarandá-da-bahia são encontradas no local previsto para ser explorado pela mineradora.
Colapso logístico e descaracterização turística
Para os moradores e empresários do setor de hospitalidade da região, a mineração representa uma sentença de morte para o turismo sustentável nos arredores de Lavras Novas.
A única via de acesso é a rodovia MG-129, que, segundo o Estudo de Impacto Ambiental, passará a receber um fluxo de aproximadamente 12 carretas pesadas por hora. "A poeira constante, o barulho, os riscos de acidentes e o congestionamento significam um transtorno na vida dos moradores e a quebra da economia dessas comunidades", afirma o movimento de moradores.

O impacto visual também é de grande magnitude. A cava minerária será visível de pontos icônicos como o Pico do Itacolomi e o Mirante do Morro do Cachorro, ambos localizados dentro do Parque Estadual do Itacolomi, descaracterizando a paisagem natural que é o principal atrativo para os visitantes.
Além disso, moradores dos bairros Saramenha e Tavares temem que as vibrações do tráfego intenso comprometam a estrutura física de suas casas, somando-se à poluição sonora e atmosférica que pode degradar a qualidade de vida local.
Salve o Itacolomi
De acordo com Sérgio Gadelha, o movimento não conta ainda com lideranças definidas, mas carrega o desejo de preservar os distritos, o meio ambiente e o sossego dos arredores.
Sérgio, que é sociólogo, tem uma trajetória de décadas de lutas comunitárias. Radicado na Chapada há mais de 20 anos, ele já participou de frentes contra a instalação de torres de alta tensão e gasodutos que também ameaçavam o sossego do vilarejo.
Para ele, a atual mobilização é o "start" de algo muito maior. "Viemos para a Chapada em busca de tranquilidade, e esses projetos podem comprometer bastante os nossos sonhos", desabafa.
O morador expressa o sentimento coletivo de decepção com o poder público municipal, criticando a falta de transparência sobre o processo de licenciamento. Apesar do clima de incerteza, o movimento "Salve o Itacolomi" já colhe frutos, com centenas de apoiadores em redes sociais e formalizando parcerias com associações de moradores de diversos distritos.
O grupo agora se organiza em duas frentes: uma política, para dar visibilidade à causa, e outra técnica-jurídica, focada em expor falhas no licenciamento e garantir que a Serra do Itacolomi permaneça como um patrimônio preservado para as futuras gerações.


