Mariana (MG), 30 de abril de 2026 MPJ | Mais Pelo Jornalismo
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Moradores de Lavras Novas e região se mobilizam contra o avanço da mineração no Itacolomi

Encontro na casa paroquial marca o nascimento do movimento “Salve o Itacolomi”; especialistas e moradores alertam para riscos irreversíveis ao ecoturismo, ao patrimônio histórico e às nascentes que abastecem o vetor sul de Ouro Preto

Uma fotografia noturna em frente à Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres, em Lavras Novas, Minas Gerais. Cerca de vinte pessoas de diversas idades estão reunidas no gramado em frente ao templo, em um ato de protesto. A igreja ao fundo é uma construção colonial branca com detalhes em rosa escuro nas quinas e ao redor das janelas e portas. Possui uma porta central de madeira azul sob um frontão de pedra esculpida e duas janelas superiores também azuis. À direita, vê-se uma torre sineira. As pessoas estão distribuídas em pé e agachadas, vestindo roupas casuais de frio, como jaquetas e blusas de manga comprida. Muitas delas seguram cartazes artesanais feitos de papel branco com frases escritas à mão em caneta preta e vermelha. Entre as mensagens legíveis, destacam-se: Defenda o Turismo em Lavras Novas Não à mineração no Itacolomi! SOS Parque Mexeu com o Itacolomi, mexeu comigo! Lavras Novas ameaçada! Rio e Montanhas O clima do grupo é de seriedade e união. A iluminação é artificial, focada no grupo e na fachada da igreja, destacando o contraste com o céu escuro da noite.

O movimento se reuniu para lutar contra o avanço da mineração sobre a região do Parque do Itacolomi - Foto: Salve o Itacolomi

A noite desta segunda-feira (27), transformou a tranquilidade da casa paroquial de Lavras Novas em um centro de resistência e debate estratégico sobre o futuro da região. Moradores de diversos distritos, incluindo Chapada, Santo Antônio do Salto, Saramenha, Itatiaia e Rancharia, reuniram-se para manifestar um posicionamento unânime: a rejeição absoluta aos novos projetos minerários que ameaçam a zona de amortecimento do Parque Estadual do Itacolomi (PEIT). 

O ato não foi apenas um protesto simbólico, mas o ponto de partida do movimento “Salve o Itacolomi”, que busca unir o saber técnico de especialistas e professores da UFOP com a vivência cotidiana de quem vê na Serra a base de sua economia e identidade.

O Projeto Tesoureiro e a sombra da BHP

No centro do conflito está o Projeto Tesoureiro, de titularidade da mineradora Rio Manso Mineração LTDA, que pretende extrair 800 mil toneladas de minério de ferro por ano. A operação, prevista para ocorrer a céu aberto, abrange uma área de mais de 22 hectares na antiga Fazenda Tesoureiro. Embora a empresa defenda a viabilidade do empreendimento como motor de geração de empregos e tributos, a comunidade local observa com desconfiança a movimentação de bastidores.

A relação com a BHP Billiton Brasil LTDA agrava as tensões sociais, a mineradora, uma das responsáveis pelo rompimento da barragem de Fundão, avança paralelamente com o Projeto Rancharia – Fase 2, enquanto a Rio Manso busca a lavra na mesma localidade, na Fazenda Tesoureiro. 

Lideranças locais, como o sociólogo e morador da Chapada, Sérgio Gadelha, alertam para uma estratégia de fragmentação do território. Segundo Gadelha, há uma desconfiança de que a BHP pretenda apenas mapear o potencial mineral para, posteriormente, vender direitos fracionados a diversas "mini-minas", o que facilitaria o licenciamento ambiental sob legislações mais flexíveis.

A ameaça ao "berço das águas"

O polígono do Projeto Tesoureiro fica próximo da área conhecida como Manso, no Parque Estadual do Itacolomi, onde fica localizada a Casa Bandeirista, o Museu do Chá e a Capela de São José

O projeto está localizado em uma área classificada como de "Classe Especial" para a conservação da biodiversidade mineira. Uma minuta de parecer do Instituto Estadual de Florestas (IEF), à qual a Agência Primaz teve acesso, manifesta-se de forma contrária à continuidade do licenciamento. 

O documento técnico ressalta que a intervenção atingirá diretamente os córregos Belém e dos Prazeres, cujas águas fluem para a Cachoeira dos Prazeres e a Represa do Custódio, vitais para o ecossistema do Rio Doce e para o lazer turístico.

Além do risco hídrico por assoreamento e sedimentos, a fauna local corre perigo extremo. A região abriga a espécie endêmica de libélula Heteragrion itacolomii, encontrada apenas nos arredores do parque, além de anfíbios raros cujos habitats seriam fragmentados pela cava.

O Parque Estadual do Itacolomi é lar da libélula endêmica Heteragrion itacolomii - Foto: Ávila Jr, WF

Cerca de 10% da supressão vegetal prevista atingiria campos rupestres ferruginosos, um ecossistema frágil e rico em biodiversidade. Além disso, espécies ameaçadas de extinção, como a Araucária e o Jacarandá-da-bahia são encontradas no local previsto para ser explorado pela mineradora.

Colapso logístico e descaracterização turística

Para os moradores e empresários do setor de hospitalidade da região, a mineração representa uma sentença de morte para o turismo sustentável nos arredores de Lavras Novas. 

A única via de acesso é a rodovia MG-129, que, segundo o Estudo de Impacto Ambiental, passará a receber um fluxo de aproximadamente 12 carretas pesadas por hora. "A poeira constante, o barulho, os riscos de acidentes e o congestionamento significam um transtorno na vida dos moradores e a quebra da economia dessas comunidades", afirma o movimento de moradores.

Vista do morro do cachorro em direção a ADA do projeto da Rio Manso Mineração - IEF

O impacto visual também é de grande magnitude. A cava minerária será visível de pontos icônicos como o Pico do Itacolomi e o Mirante do Morro do Cachorro, ambos localizados dentro do Parque Estadual do Itacolomi, descaracterizando a paisagem natural que é o principal atrativo para os visitantes. 

Além disso, moradores dos bairros Saramenha e Tavares temem que as vibrações do tráfego intenso comprometam a estrutura física de suas casas, somando-se à poluição sonora e atmosférica que pode degradar a qualidade de vida local.

Salve o Itacolomi

De acordo com Sérgio Gadelha, o movimento não conta ainda com lideranças definidas, mas carrega o desejo de preservar os distritos, o meio ambiente e o sossego dos arredores.

Sérgio, que é sociólogo, tem uma trajetória de décadas de lutas comunitárias. Radicado na Chapada há mais de 20 anos, ele já participou de frentes contra a instalação de torres de alta tensão e gasodutos que também ameaçavam o sossego do vilarejo. 

Para ele, a atual mobilização é o "start" de algo muito maior. "Viemos para a Chapada em busca de tranquilidade, e esses projetos podem comprometer bastante os nossos sonhos", desabafa.

O morador expressa o sentimento coletivo de decepção com o poder público municipal, criticando a falta de transparência sobre o processo de licenciamento. Apesar do clima de incerteza, o movimento "Salve o Itacolomi" já colhe frutos, com centenas de apoiadores em redes sociais e formalizando parcerias com associações de moradores de diversos distritos.

O grupo agora se organiza em duas frentes: uma política, para dar visibilidade à causa, e outra técnica-jurídica, focada em expor falhas no licenciamento e garantir que a Serra do Itacolomi permaneça como um patrimônio preservado para as futuras gerações.

 

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