O Dia de Tiradentes (21), símbolo máximo da memória cívica mineira, foi celebrado mais uma vez longe do povo. Em 2026, a tradicional entrega da Medalha da Inconfidência voltou a ser deslocada da Praça Tiradentes para o Centro de Artes e Convenções da UFOP e, com ela, também se deslocaram os sentidos de participação, escolha de medalhas e pertencimento que historicamente marcam a data.

Do lado de fora, grades, barreiras policiais e um fluxo controlado de pessoas contrastavam com a ideia de um evento público. A restrição de acesso não atingiu apenas a população em geral. A própria imprensa enfrentou um roteiro rígido de credenciamento e deslocamento, com retirada antecipada de credenciais e circulação condicionada a vans oficiais. O controle logístico reforçou a percepção de distanciamento físico e político, incomodando inclusive os turistas presentes na Praça.
A transmissão ao vivo da entrega das medalhas, realizada paralelamente ao desfile militar simbólico, provocou incômodo entre as poucas pessoas presentes na Praça Tiradentes. Exibida em um telão instalado em frente ao Museu da Inconfidência, a solenidade acabou se sobrepondo ao próprio desfile, gerando ruídos e dispersando a atenção do público durante as honrarias. “Meu Deus, que falazada”, comentou um popular, incomodado com o excesso de discursos que ecoavam pela praça.
O Grande Colar e o epicentro da controvérsia
Se a forma já causava incômodo, o conteúdo elevou o tom das críticas. A concessão do Grande Colar, mais alta honraria do Estado, ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, tornou-se o ponto central da tensão.

A escolha foi justificada pelo governador em exercício de Minas, Mateus Simões, que afirmou que a honraria tem caráter nacional e que Tarcísio “representa para Minas o mesmo que Tiradentes representou para o Brasil”. A declaração, no entanto, encontrou forte resistência entre os presentes.
“É banalizar a memória de Tiradentes”, afirmou o museólogo Gilson Santana, especialista em cultura e identidade, presente na honraria. Para ele, a própria restrição do evento levanta suspeitas: “Estão podando a visibilidade. Em algumas situações, dá até para pensar que o objetivo é o que a gente tá acabando de confirmar hoje aí ó: trazer governador Tarcísio para receber um mérito tão importante como esse. É medo de vaiar, porque isso aqui é uma vergonha”, criticou.
Para parte dos presentes, a associação com Tarcísio,figura ligada a projetos políticos contemporâneos controversos, produz um debate difícil de ignorar em um feriado que sempre marcou a construção de uma identidade nacional autônoma.
Acender a pira da liberdade e homenagear um cara com esse perfil? Um golpista? Fascista? Qual o respeito que eles têm pela democracia?
Política demais, Tiradentes de menos
A cerimônia de 2026 pareceu, para muitos, menos sobre memória e mais sobre sinalização política. A escolha de Tarcísio foi vista não como gesto isolado, mas como parte de uma questão mais ampla que envolve política e disputas ideológicas no campo nacional.
E como a gente tá vivendo no Brasil um paradoxo muito complicado e perigoso, isso reacende nessas situações aí, traz um cara que não tem um mínimo respaldo. É governador lá de São Paulo. Ele poderia até vir, mas se tivesse a mínima relevância para isso, o que não tem
Esse pano de fundo ficou ainda mais evidente com o embate entre o prefeito de Ouro Preto, Ângelo Oswaldo, e o governador Mateus Simões. Em discursos atravessados por referências à educação cívica e ao papel das Forças Armadas, o que deveria ser um momento de unidade cívica transformou-se, mais uma vez, em arena de recados políticos.
Homenagens e falta de diversidade
Além do questionamento claro no grau máximo da honraria ter sido entregue a Tarcísio de Freitas, as homenagens concedidas neste ano revelam um padrão que vai além do reconhecimento institucional. E expõem a necessidade em contemplar chefes de Estado e autoridades do alto escalão político.
Estão na lista o ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça e os senadores Rogério Marinho e Carlos Viana. No campo cultural e esportivo, embora haja maior diversidade de áreas, os nomes seguem concentrados entre personalidades de ampla projeção nacional, como Samuel Rosa, Gusttavo Lima e o atacante Hulk.
A participação feminina, claro, permanece minoritária. Artistas como Paula Fernandes, Débora Falabella e Grace Passô figuram entre as homenageadas, assim como a defensora pública-geral de Minas Gerais, Caroline Loureiro Goulart Teixeira. Ainda assim, os dados indicam que cerca de 73% dos agraciados são homens, um desequilíbrio evidente de gênero na distribuição das honrarias.
Outro ponto que se sobressai é a concentração das homenagens em trajetórias já legitimadas por redes institucionais, políticas e econômicas. Representantes do Judiciário, do Executivo, do Legislativo, das forças de segurança e do setor empresarial ocupam parcela significativa da lista, enquanto lideranças comunitárias, agentes culturais periféricos e representantes de grupos historicamente sub-representados têm presença reduzida no evento.
Uma festa sem povo

Enquanto autoridades discursavam dentro do Centro de Convenções, do lado de fora, alguns morros acima, a sensação era de exclusão. Visitantes que viajaram quilômetros para acompanhar a cerimônia se depararam com barreiras físicas e simbólicas.
“A gente veio de Belém e achamos que seria na praça. É histórico. Seria muito mais interessante participar”, disse Ticiane Ribeiro. “Mas está privado. Fica estranho. Até assustei, pensei que estava acontecendo dentro da Igreja”, afirmou a turista, se referindo ao Museu da Inconfidência.
Quando questionada se conseguia pensar em algum motivo plausível para a transferência do evento, Ticiane deixou claro o seu questionamento. "Falam muito que é pela segurança, né? Mas aqui, tá até difícil de andar, essas barreiras, os policiais, não vejo aqui um lugar de atentado, não entendi, seria muito mais interessante e simbólico se fosse aqui”, afirmou.
Curiosamente, o esforço de controle, de público, de acesso, de circulação, não foi sinônimo de silêncio. Pelo contrário, a repercussão do evento tomou as redes sociais, atravessadas por indignação, ironia e perplexidade. “Nem os pombos foram”, “desonra à Inconfidência”, afirmou alguns moradores de Ouro Preto no Instagram.

O que resta de Tiradentes?
Celebrar Tiradentes sempre foi, em Ouro Preto, mais do que cumprir protocolo. Era sobre ocupar a praça, ouvir discursos, transformar memória em pertencimento. E hoje, se tornou um evento de restrito acesso, sujeito a esvaziamento e perda de sentido para a população ouropretana.
E entre grades e honrarias, Ouro Preto assistiu, mais uma vez, a um 21 de abril em disputa. E, desta vez, com o público do lado de fora.




