Entre cafés recém-passados, chá de capim-cidreira, pilhas de HQs espalhadas pelos corredores e estudantes em peso ocupando o auditório e salas de oficinas, o Instituto de Ciências Sociais Aplicadas (ICSA), da Universidade Federal de Ouro Preto, se transformou, nesta semana, em um grande ponto de encontro do jornalismo em quadrinhos no Brasil.
Começado nesta quarta-feira (6) e seguindo até sexta, o I Simpósio Nacional de Jornalismo em Quadrinhos movimenta o campus de Mariana com debates, oficinas, lançamentos de livros, sessões de autógrafos e encontros culturais que aproximam universidade, comunidade e artistas de diferentes regiões do país.
Idealizado pelo grupo de pesquisa Quintais e pelo projeto de extensão Lugar Desenhado, o simpósio reúne quadrinistas, roteiristas, jornalistas, pesquisadores e estudantes para discutir as relações entre HQs, memória, cidade, política e narrativa jornalística.
E o fato de o primeiro simpósio nacional do país sobre o tema acontecer justamente em Mariana não é coincidência. A cidade abriga o Fora do Plástico, referência nacional em jornalismo em quadrinhos criada pelos jornalistas egressos da UFOP Mariana Viana e Pedro Ferreira.

UFOP como referência em novas narrativas
Para a professora Hila Rodrigues, coordenadora do projeto Lugar Desenhado, o simpósio consolida um movimento que já vinha crescendo dentro do curso de Jornalismo da UFOP há anos.
Segundo ela, a disciplina “Jornalismo em Quadrinhos”, ofertada desde 2015, vem atraindo cada vez mais estudantes interessados em explorar outras formas de contar histórias.
A gente foi vendo que essa é uma área que o mercado também está abrindo. Você não precisa necessariamente desenhar, mas é sobre fazer roteiro, entrevistar, transformar a narrativa tradicional em narrativa sequencial, explorar essa área linda do Jornalismo

Mais do que discutir quadrinhos, Hila afirma que o evento busca ampliar horizontes profissionais e criativos para estudantes do curso. “É abrir espaço para roteiristas, para quem se forma em jornalismo também encontrar outro campo de atuação além das plataformas tradicionais”, disse.
A professora, que é apaixonada por jornalismo em quadrinhos, destacou a força cultural de Mariana para um evento desse porte e reforçou que como a cidade é tão forte no cenário formativo e artístico e ainda é a sede do Fora do Plástico, “por que o simpósio nacional não ser aqui também?”, questionou.

Universidade pública de portas abertas
Além do caráter acadêmico, o evento também aposta na aproximação entre universidade e comunidade. Na manhã desta quinta-feira (7), por exemplo, estudantes do Colégio Dom Silvério participaram de atividades e oficinas no Museu Casa Alphonsus de Guimaraens, um dos espaços que integram a programação do simpósio.
Para Hila, esse intercâmbio é um dos pontos mais importantes do encontro.
Essa universidade é pública, gratuita e é da cidade. Eu queria muito que a comunidade viesse mais para a universidade. E quadrinhos é uma linguagem que aproxima as pessoas, então a ideia era muito essa: estreitar ainda mais os laços da UFOP com a comunidade
Um encontro histórico para o jornalismo em quadrinhos
O coordenador do grupo Quintais, Cláudio Coração, avalia o simpósio como um marco para a área no Brasil. Segundo ele, o evento nasce de uma articulação construída dentro da própria UFOP, unindo pesquisa, extensão e produção prática.
Muito disso vem das pesquisas realizadas aqui na universidade, da disciplina histórica de Jornalismo em Quadrinhos e do projeto Lugar Desenhado, a UFOP é referência nacional
Coração também destacou o papel do Fora do Plástico na criação dessa rede nacional de um jornalismo que apesar de estar ganhando espaço e ser muito bem consolidado no mercado, ainda sofre com muita resistência no meio tradicional na profissão
“O principal emblema talvez seja o Fora do Plástico, criado por estudantes egressos da UFOP que fazem parte dessa rede. O fato de ser o primeiro simpósio com esse tratamento, a partir dessa perspectiva de fusão entre jornalismo e quadrinhos, é absurdo”, afirmou.
Grandes nomes dos quadrinhos reunidos em Mariana

A abertura do simpósio, realizada na quarta-feira (6), contou com a mesa “O Universo dos Quadrinhos: as possibilidades de registro de memória e afetos em cada obra”, mediada pelo professor Henrique Leroy, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Participaram da discussão o quadrinista João Marcos Mendonça, roteirista da Maurício de Sousa Produções, e Mariana Viana.
O evento ainda reúne convidados como Augusto Paim, autor do “Pequeno Manual de Reportagem em Quadrinhos”; Pablito Aguiar, autor de “Água até aqui”; e Hyna Crimson, autora de obras sobre saúde mental e juventude.Todos os convidados presentes no evento são autores de livros belíssimos, que também estão disponíveis para venda durante o simpósio.

Além das mesas de debate, o simpósio promove oficinas práticas, exibição de documentários, momentos culturais e sessões de autógrafos com os artistas convidados.
Narrativas que aproximam pessoas
Para o professor e pesquisador Pedro Lavigne, o crescimento do jornalismo em quadrinhos revela uma busca por formas mais humanas de construir informação. “A nossa relação com a informação tem sido muito controversa. Existe uma necessidade de narrativas que nos vinculem mais, que traga mais essa conexão com outras formas de pensar a informação também”, afirmou.

O pesquisador ressalta ainda o viés político dos quadrinhos e a sua proximidade com o típico jornal tradicional diário em contrapartida a um livro lúdico infantil. “Porque ele(quadrinho) vem de uma caricatura, que vem de você pensar politicamente alguma coisa, então é uma estética que é toda voltada para política.
A jornalista Mariana Viana, criadora do Fora do Plástico, destacou justamente esse potencial emocional e narrativo dos quadrinhos, em conseguirem representar sentimentos e experiências de maneira subjetiva que muitas vezes escapam à fotografia ou ao texto convencional. “O desenho faz essa ponte entre aquilo que a pessoa fala e aquilo que ela sente”, explicou.
Calouros descobrem novas possibilidades
Entre os estudantes presentes, o simpósio também despertou curiosidade em quem está começando agora na área. A estudante do primeiro período Franciele Garcia contou que teve ali seu primeiro contato com o jornalismo em quadrinhos.
É uma forma diferente de fazer jornalismo que eu nunca tinha nem pensado, ta sendo bem legal conhecer esse outro lado, essas novas e outras possibilidades da profissão

Cultura e sessão de autógrafos
Na sexta, a programação cultural também ganha destaque com debates sobre humor, política e temas sensíveis nas HQs e animações. Entre os destaques está a mesa “Dilemas sociais e políticos no universo das HQs e das animações”, que traz referências a produções populares como O Irmão do Jorel e discute questões como pânico moral, representatividade e os desafios sociais presentes nas narrativas contemporâneas.
Na parte da manhã, o público poderá participar da sessão de autógrafos “Venha pegar sua HQ!”, aberta a partir das 11h10, momento em que autores convidados estarão disponíveis para conversar com os participantes e apresentar suas obras. Já no período da tarde, o encerramento cultural fica por conta da audição comentada do álbum Nó na Orelha, do Criolo, em uma atividade promovida pela equipe do Baculejo, que propõe uma escuta coletiva e debate sobre música, cidade e cultura.

Gratuito e aberto à comunidade, o simpósio reforça a UFOP como um dos principais espaços de debate sobre novas narrativas jornalísticas no país e coloca Mariana, mais uma vez, no centro da produção cultural e acadêmica brasileira.
Programação
8 de Maio (Sexta-feira)
Local: Auditório do ICSA / UFOP
10h – Mesa de Discussão: "Dilemas sociais e políticos no universo das HQs e das animações".
Temas e Debatedores: Pedro Lavigne (UFMG) sobre "O Irmão do Jorel"; Miller Correa de Brito (UFOP) sobre pânico moral e animações; Hyna Crimson (UNA) sobre temas sensíveis.
Mediação: Prof. Dr. Cláudio Coração (UFOP).
11h10 – "Venha pegar sua HQ!": Manhã de autógrafos.
12h: Intervalo para almoço.
14h – Mesa de Discussão: "Jornalismo em Quadrinhos, Universidade e Comunidade".
Composição: Prof. Dr. Reges Schwaab (UFSM) e Mariana Viana.
Mediação: Prof. Dr. Frederico Tavares (UFOP).
Convidado Especial: Augusto Paim.
15h30 – Momento Cultural: "Baculejo do Disco e Lugar Desenhado".
Atividade: Audição e debate do álbum "Nó na Orelha" (Criolo).
Mediação: Equipe Baculejo (Quintais/UFOP)


