A revisão do Plano Diretor de Ouro Preto colocou a comunidade de Botafogo em estado de alerta. Um dossiê técnico elaborado pela Associação dos Moradores e Amigos de Botafogo (AMAB) e apresentado à comissão de elaboração do Novo Plano Diretor nesta segunda (13), denuncia que a proposta de macrozoneamento da prefeitura pretende consolidar polígonos minerários para as empresas HG Mineração e Patrimônio Mineração em áreas de extrema sensibilidade ambiental. Segundo o documento, a medida ignora a vocação natural do território e prioriza interesses privados em detrimento da segurança hídrica de milhares de pessoas.
Blindagem Institucional
De acordo com o dossiê, a proposta de macrozoneamento do Novo Plano Diretor de Ouro Preto apresenta uma contradição ética e jurídica alarmante ao consolidar perímetros de "atividades minerais e industriais" exatamente sobre as áreas de operação da Patrimônio Mineração e da HG Mineração, empresas que são alvos centrais da Operação Rejeito, da Polícia Federal.
Segundo as investigações, essas mineradoras integrariam uma organização criminosa (ORCRIM) suspeita de movimentar R$1,5 bilhão por meio de corrupção sistêmica e fraudes em licenciamentos, incluindo o pagamento documentado de R$500 mil em propina para garantir o êxito do projeto da Mina Patrimônio.
Para os moradores de Botafogo, a validação desses polígonos no planejamento decenal do município representa a "institucionalização de interesses privados em detrimento do interesse coletivo", uma vez que o Plano Diretor deveria zelar pela função social da cidade e pela segurança hídrica, em vez de blindar institucionalmente atividades de empresas cujas licenças atuais enfrentam pedidos de cancelamento e embargos por fraudes e crimes ambientais.
A "caixa d’água" do Quadrilátero Ferrífero
A Serra do Botafogo é descrita no dossiê como um reservatório estratégico indispensável. A região abriga os aquíferos Cauê, Cercadinho e Gandarela, que funcionam como "esponjas geológicas" responsáveis por alimentar nascentes e cursos d'água essenciais para as bacias dos rios das Velhas e Doce. O Ribeirão Funil, que nasce na localidade, é um rio Classe 1 usado para o abastecimento direto de 15 mil pessoas.
O dossiê da AMAB é enfático sobre os riscos da atividade minerária nessas áreas:
O território é simultaneamente reconhecido como sensível e vulnerável, mas tratado como apto à intensificação de atividades de alto impacto... ampliando riscos como rebaixamento do lençol freático, contaminação hídrica, assoreamento de cursos d’água e desaparecimento de nascentes
Patrimônio Cultural em risco
Além da ameaça ambiental, a mineração em Botafogo, situada a apenas 7 km do centro histórico de Ouro Preto, coloca em perigo o título de Patrimônio da Humanidade concedido pela UNESCO. A área de influência direta dos projetos abriga ruínas da mineração colonial e a Capela de Santo Amaro, datada do século XVII, cuja abertura do processo de tombamento municipal foi aprovado por unanimidade em 2009.
Para os moradores, a introdução de escavadeiras e explosões nesta paisagem cultural representa um dano irreparável:
A inserção de atividades minerárias nesse contexto implica não apenas impactos físicos — como vibrações, poeira e alteração da paisagem —, mas também processos de desestruturação social e simbólica
O dossiê sustenta ainda que a inclusão dessas áreas no planejamento urbano como zonas industriais e minerais configura um "desvio de finalidade" do Plano Diretor. O documento argumenta que o instrumento deveria orientar o uso do solo com base na função social da cidade e na proteção do bem-estar coletivo, e não para viabilizar operações de empresas investigadas por crimes ambientais e corrupção na Operação Rejeito.
A associação de moradores reforça a gravidade da situação:
A reintrodução ou validação desses territórios no planejamento urbano municipal levanta questionamentos sobre a governança territorial e a integridade do processo decisório. Nesse sentido, a medida pode ser interpretada como institucionalização de interesses privados em detrimento do interesse coletivo


Clamor pela exclusão dos polígonos
Diante das evidências técnicas de fragilidade do solo e da notória relevância histórica da região, a comunidade de Botafogo fundamenta seu pleito na própria cartilha informativa da revisão do Plano Diretor, que estabelece a participação popular como "fundamental em todas as fases do processo" para garantir que a legislação reflita as reais necessidades da população.
O guia oficial reforça que o Plano Diretor deve ser uma "construção coletiva", funcionando como um "pacto entre toda a sociedade" onde as decisões tomadas afetam diretamente o cotidiano de todos.
Como existe a abertura para sugestões em consultas e audiências públicas, os moradores protocolaram o dossiê técnico para manifestar formalmente que o território não é uma zona disponível para a expansão mineral, mas sim uma área estratégica de produção de água e preservação cultural.
É com base no direito à gestão democrática da cidade e da propriedade, que a comunidade exige a "exclusão imediata" dos polígonos minerários do macrozoneamento proposto. Os moradores defendem que o futuro do subdistrito deve ser construído em consonância com sua vocação hídrica e arqueológica, recusando a "institucionalização de interesses privados" que colocam em risco o patrimônio coletivo e a segurança hídrica regional.
Dessa forma, o clamor popular é pelo reconhecimento formal de Botafogo como área prioritária para conservação hídrica e salvaguarda de ecossistemas. A comunidade sustenta que o desenvolvimento da região deve ser pautado pelo turismo de base local e pela preservação de seu patrimônio cultural e ambiental, assegurando que o planejamento urbano proteja as "caixas d'água" do Quadrilátero Ferrífero para as presentes e futuras gerações. Mineração no Botafogo, não!
HidroGeoDia
No próximo sábado (18), acontecerá pela segunda vez no Botafogo o HidroGeoDia, o evento é uma iniciativa global criada pela Associação Internacional de Hidrogeologistas para dar visibilidade à importância das águas subterrâneas e aos conflitos socioambientais que as ameaçam.
Em Ouro Preto, o evento é organizado pela Cátedra UNESCO “Água, Mulheres e Desenvolvimento” NUCAT/UFOP em parceria com o PET de Engenharia Geológica e a Associação de Moradores e Amigos do Botafogo (AMAB). A programação envolve caminhadas por nascentes, cachoeiras e ruínas históricas, além de rodas de conversa sobre hidrogeologia, direitos territoriais e os impactos de empreendimentos minerários na região.

A edição de 2025 ficou marcada pelo soterramento clandestino de uma caverna natural pela mineradora Patrimônio, ato que se tornou símbolo da luta pela preservação dos aquíferos locais. Além de seu caráter científico, o evento funciona como uma prestação de serviço à sociedade, gerando relatórios técnicos que subsidiam a mobilização comunitária contra a destruição da "caixa d'água" do Quadrilátero Ferrífero.
O evento promete ser mais um espaço de luta e defesa dos aquíferos diante da ameaça de instalação de mineradoras no território do subdistrito sem uma avaliação cumulativa de impactos sobre o meio ambiente.
A concentração será às 9h na Capela de Santo Amaro do Botafogo. A programação inclui uma caminhada guiada por nascentes, cachoeiras e áreas de mata, com paradas para rodas de conversa sobre hidrogeologia, licenciamento ambiental e direitos territoriais. Haverá também feirinha com lanche e almoço à venda, fortalecendo a economia local. Os organizadores recomendam o uso de calçado fechado, roupas confortáveis (calça e manga longa), chapéu/boné, capa de chuva ou sombrinha, além de levar água própria. As inscrições são gratuitas e devem ser feitas antecipadamente pelo link: forms.gle/HidroGeoDia2026.


