Mariana (MG), 19 de julho de 2026 MPJ | Mais Pelo Jornalismo
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21ª CineOP homenageia Helena Solberg e as mulheres no cinema

Mostra reúne 139 filmes, homenageia Helena Solberg e reafirma a preservação audiovisual como ferramenta para proteger a história, a cultura e o futuro do Brasil

A imagem em preto e branco mostra uma estrutura de evento ao ar livre em um ambiente histórico. No lado direito, em primeiro plano, destacam-se grandes blocos de pedra sobrepostos, com textura áspera e marcas do tempo. Ao centro, há um grande painel vertical escuro com letras brancas onde se lê "CINEOP" e, abaixo, "7ª MOSTRA DE CINEMA DE OURO PRETO". Na parte inferior do painel, há o logotipo da "UNIVERSO PRODUÇÃO", composto por uma estrela estilizada. Uma parte da mesma identidade visual do evento aparece rotacionada verticalmente em uma superfície reflexiva ao lado. No canto esquerdo, ao fundo e em um plano inferior, observa-se uma plateia com fileiras de cadeiras vazias alinhadas, além de algumas pessoas de costas caminhando pelo local.

6 dias de muito cinema, história, cultura e preservação audiovisual - Foto: Analu Bambirra

Em um tempo marcado pela velocidade dos algoritmos, pela produção massiva de conteúdo e pela aparente descartabilidade da memória, a 21ª edição da CineOP - Mostra de Cinema de Ouro Preto propõe um tema fundamental para o Brasil contemporâneo: “Um país existe nas imagens que preserva”. 

Entre os dias 25 e 30 de junho, Ouro Preto vira a capital brasileira, desta vez, da memória audiovisual. Mais do que um festival de cinema, a CineOP reafirma sua condição de único evento do país dedicado exclusivamente à articulação entre preservação, história e educação, consolidando um espaço onde o cinema deixa de ser apenas entretenimento para assumir seu papel de patrimônio cultural.

Ao reunir 139 filmes, debates, oficinas, masterclasses internacionais, exposições e atividades educativas, a CineOP acontece em vários espaços da cidade, como na Praça Tiradentes, Anexo do Museu da Inconfidência e principalmente no Centro de Artes e Convenções da UFOP e busca trazer uma reflexão sobre o passado, o presente e o futuro do audiovisual brasileiro.
 

O cinema como patrimônio nacional

Criada em 2006 pela Universo Produção, a CineOP surgiu de uma inquietação no circuito dos festivais brasileiros: discutir a preservação audiovisual em um país historicamente marcado pela perda de acervos culturais.

O resultado é um evento que vai além da exibição de filmes. Enquanto outros festivais concentram suas atenções em lançamentos e premiações, a CineOP se dedica a pensar quem cuida das imagens que contam a história do Brasil e do mundo. 

Essa vocação se torna ainda mais significativa em um cenário de avanços tecnológicos acelerados, digitalização massiva de conteúdos e ameaças constantes à preservação de arquivos físicos e digitais.

Em Ouro Preto, cidade reconhecida como Patrimônio Cultural da Humanidade, a discussão ganha outros contornos simbólicos. As ruas de pedra, os casarões coloniais e os monumentos históricos dialogam diretamente com os filmes, documentos e registros que a mostra busca preservar.

Helena Solberg: uma vida dedicada a filmar mulheres, memórias e resistências

Helena Solberg é uma cineasta, produtora e roteirista brasileira. - Foto: Divulgação/UniversoProdução

A grande homenageada desta edição é a cineasta carioca Helena Solberg, figura fundamental para compreender a história do cinema realizado por mulheres no Brasil. Sua trajetória atravessa mais de seis décadas de produção audiovisual e acompanha transformações profundas da sociedade brasileira e latino-americana.

O ponto de partida dessa história está em A Entrevista (1966), curta-metragem frequentemente apontado como o primeiro filme feminista da produção moderna brasileira. Nele, jovens mulheres da classe média refletem sobre casamento, trabalho, sexualidade e expectativas sociais em uma época em que tais temas raramente encontravam espaço no cinema nacional.

O filme inaugura uma filmografia marcada pelo interesse em ouvir vozes historicamente silenciadas

Radicada nos Estados Unidos durante boa parte da década de 1970, Solberg ampliou seu olhar para as questões femininas em escala internacional, dirigindo obras como The Emerging Woman (1974), The Double Day (1975) e Simplesmente Jenny (1977).

Nos anos seguintes, voltou suas câmeras para os conflitos políticos da América Latina, registrando ditaduras, processos revolucionários e disputas sociais.

Seu premiado documentário Carmen Miranda: Bananas is My Business (1994) resgatou a complexidade da artista para além dos estereótipos construídos por Hollywood, enquanto obras mais recentes, como Meu Corpo, Minha Vida (2017) e Uma Carta para Beatrice (2022), reafirmam sua disposição de discutir direitos, memória e identidade.

A homenagem da CineOP reconhece não apenas sua importância histórica, mas também sua influência sobre gerações de realizadoras brasileiras. Na abertura do evento, Helena receberá o Troféu Vila Rica e terá dois de seus primeiros filmes exibidos na Praça Tiradentes: A Entrevista (1966) e Meio-Dia (1970).
 

Reescrever a história do cinema brasileiro pelas mulheres

A homenagem a Helena Solberg reflete uma das grandes apostas curatoriais desta edição.Sob o título "Como Elas Começaram? Memórias do Primeiro Filme", a Temática Histórica propõe uma revisão da historiografia tradicional do audiovisual brasileiro a partir das trajetórias de mulheres cineastas.

A iniciativa parte de uma constatação simples que muitas dessas histórias permanecem invisibilizadas ou sub-representadas nos relatos oficiais sobre o cinema nacional.  Ao investigar os caminhos percorridos por realizadoras até seus primeiros longas-metragens, a mostra constrói uma narrativa alternativa para a história do audiovisual brasileiro.

O percurso passa por obras fundamentais como Feminino Plural (1976), de Vera de Figueiredo; Mar de Rosas (1977), de Ana Carolina; Que Bom Te Ver Viva (1989), de Lúcia Murat; Um Céu de Estrelas (1996), de Tata Amaral; e Um Dia com Jerusa (2020), de Viviane Ferreira.
 

Lúcia Murat e a memória da ditadura

Entre os encontros mais aguardados da programação está a roda de conversa "Memórias dos Primeiros Filmes - Helena Solberg e Lúcia Murat Contra Autoritarismos". A mesa aproxima duas cineastas separadas por gerações, mas unidas pela compreensão do cinema como instrumento de resistência.

E no caso de Lúcia Murat, essa relação é profundamente biográfica. Militante estudantil durante a ditadura militar, Murat foi presa em 1971, aos 22 anos, e submetida a sessões de tortura no DOI-Codi do Rio de Janeiro. 

Décadas depois, transformaria essa memória em matéria cinematográfica em obras como Que Bom Te Ver Viva (1989), Quase Dois Irmãos (2004) e A Memória que Me Contam (2013). Ao reunir Murat e Solberg, a CineOP promove um encontro entre diferentes formas de registrar e enfrentar os autoritarismos que atravessaram a história brasileira e latino-americana.

O cinema que nasce na escola

Desde sua criação, a CineOP ocupa um lugar singular nas discussões sobre cinema e educação no Brasil. Foi dentro da mostra que se consolidou o Fórum da Rede Kino e que se ampliaram os debates sobre a implementação da Lei 13.006/2014, responsável por tornar obrigatória a exibição de filmes nacionais nas escolas brasileiras.

Em 2026, a temática educacional assume o título "Primeira Vez: Cinema, Descoberta e Invenção". Inspirada no curta cubano Por Primera Vez (1967), a proposta investiga o primeiro encontro entre espectadores e imagens em movimento. 

A reflexão aborda ainda uma realidade brasileira marcada por desafios estruturais. Embora o país possua mais de 47 milhões de estudantes na educação básica, a implementação efetiva da legislação que prevê a exibição de cinema nacional nas escolas ainda encontra obstáculos. E é aí que a CineOP reafirma seu papel histórico como espaço de articulação entre educadores, pesquisadores, gestores públicos e realizadores.

Um festival que pensa o futuro

Embora seja reconhecida por sua relação com a memória, a CineOP está longe de ser um evento nostálgico. Entre os debates, as oficinas e as masterclasses, temas como inteligência artificial, educação audiovisual, preservação digital e democratização do acesso à cultura serão abordados durante os 6 dias de evento.

Esse movimento ganhará foco especial nas 11 atividades formativas que compõem a programação, incluindo oficinas de preservação digital, recuperação audiovisual, animação em película e pesquisa documental. As três masterclasses internacionais reforçam o caráter de intercâmbio global que a mostra vem consolidando ao longo dos anos.

A programação, no entanto, extrapola as telas. Há lançamentos de livros, exposições, cortejos culturais, festa junina, apresentações musicais e encontros que atravessam diferentes campos da cultura.

O encerramento, marcado pelo anúncio do vencedor da Mostra Competitiva, culmina com o Cine-Concerto Canção do Novo Mundo, reunindo Titane, Túlio Mourão e intervenções visuais de Eder Santos.

Confira aqui a programação completa.

 

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