Mariana (MG), 30 de abril de 2026 MPJ | Mais Pelo Jornalismo
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A Doce Vida: o banho de Vera Fischer no Jardim em Mariana

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Mulher de vestido preto com estampa clara está de pé dentro de uma fonte iluminada à noite, com água até a altura das coxas. Ela abre os braços e inclina a cabeça para trás, sorrindo, enquanto jatos de água formam arcos ao redor. Ao fundo, há edificações com janelas iluminadas e postes de luz, criando uma atmosfera noturna acolhedora.

Vera Fischer, em cena da novela Espelho da Vida - Foto: Reprodução/TV Globo

Ouça o áudio de "A Doce Vida: o banho de Vera Fischer no Jardim em Mariana", de Cláudio Coração:

De setembro de 2018 a abril de 2019, a tevê globo exibiu no horário das seis a telenovela Espelho da Vida, de Elizabeth Jhin, cuja trama tocava em temas espíritas e memorialísticos e se acomodava na bucólica cidade ficcional de Rosa Branca. Parte fundamental da composição do cenário do folhetim global foi captada em Mariana, Minas Gerais. Lembro que, à época, houve um certo desconforto com o fato de a Globo ajudar no custeio da iluminação da região central de Mariana, no intuito de dinamizar o local da produção de sua própria novela.

A instalação de toda a parafernália na praça Gomes Freire, o icônico Jardim, local escolhido para a montagem da logística de produção, gerou, junto aos aborrecimentos, um mar de tapumes, placas e orientações para-oficiais de trânsito. Na contramão do mau-humor alojado, houve também a circulação, naqueles meses, de parte do cast da novela na cidade: João Vicente de Castro, Alinne Moraes, Vitória Strada, Kéfera, Ângelo Antônio, Irene Ravache, Robson Nunes, Luciana Vendramini etc.

Era comum se deparar com atores e atrizes em restaurantes, sorveterias, bancos, festas, inclusive nos chamados rocks, as festas universitárias da UFOP. Robson Nunes, por exemplo, era figurinha carimbada em muitas delas. A propósito, o que rolou de anedota e fofoca com os globais, nesses rolês, não é mole não.

Mas, de todo o elenco da novela, a grande expectativa era em torno da aparição, previamente anunciada, de Vera Fischer, que, diferentemente de muitos de seus colegas, não tinha se instalado em Mariana (alguns se hospedaram em Ouro Preto). Me lembro de conversar com estudantes de Jornalismo que trabalharam como figurantes, e eles diziam que Vera Fischer era a pessoa mais aguardada pelos fãs, mais requisitada pela imprensa e mais blindada pela produção. Das poucas cenas que gravou em Mariana, uma em particular se destaca.

Corte para o famigerado dia da aparição da atriz em Mariana. O frenesi com a presença de Vera Fischer no lago do Jardim – local em que sua cena seria gravada – mobilizou uma multidão ao redor do centro histérico, sem contar pessoas já condicionadas com a instalação do set propriamente dito. Pois bem, foi montada uma espécie de “operação de guerra” para controlar o contato de qualquer reles mortal com a diva. Eu mesmo, estava fortuitamente em uma cafeteria perto da praça e tive que me retirar do estabelecimento, com os demais clientes, a partir de uma mobilização de seguranças, laptops, bips, corredores poloneses, para permitir que Vera entrasse na cafeteria, pegasse o café (e algum lanche) e retornasse ao local da gravação. O imperativo era um só: deixem Vera Fischer flanar.

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Meio que perplexos diante daquele aparato, também pudemos conferir, no tumulto do momento, a cena literal: um simples banho da personagem Carmo/Gertrude no lago. Apesar da singeleza da referida tomada audiovisual, enquadrada dezena de vezes (dá-lhe corta, grava, corta, grava, corta), havia nas entrelinhas da ocasião uma envolvente simbologia. É como se ali, em pouquíssimos minutos, em um banho no lago do Jardim em Mariana, se acumulassem as referências de tantas personagens vividas por Vera Fischer em sua longa trajetória artística, na compreensão da força desses papeis, no cinema e na tevê; todas elas, de algum modo, a se banharem com Carmo/Gertrude: a Eva de A Superfêmea (1973), a Judite de Perdoa-me por me Traíres (1980), a Ritinha de Bonitinha, mas Ordinária (1981), a Bárbara de Eu te Amo (1981), a Anna de Amor, Estranho Amor (1982), a Luiza de Brilhante (1981), a Jocasta de Mandala (1987), a Letícia de Doida Demais (1987), a Saninha de Desejo (1990), a Eduarda de Riacho Doce (1990), a Lídia de Pátria Minha (1994), a Neuza de Navalha na Carne (1997), a Helena de Laços de Família (2000), a Yvete de O Clone (2001) etc.

Além das reminiscências, na circunstância de produção de uma novela para lá de insossa (Espelho da Vida foi mal de audiência e de crítica), Vera Fischer se traduzia no banho como um acontecimento, a dar conta de um gesto terno revestido no tempo. Banhava-se com certa desobediência, algum desprezo. A evidenciar, com esse desapego em cena, independentemente das marcações de suas personagens na trama da novela, o contraste com o efêmero de luzes e ruídos (zums e plocts) de aparelhos celulares à mão de curiosos tentando captar a lida da estrela em ação. O que realmente se revelava ali era o still, o instante decisivo da imagem poderosa: Vera Fischer se banhando no Jardim em Mariana. Ali estavam a notícia e a crônica. Abraçadas.

A isso, a essa efígie, olhando em retrospectiva, valeria mesmo a interdição de clientes em qualquer café, de qualquer cidade, porque naquele rico instante de feitura parecia estar depositada a síntese da doce vida. Cuja referência maior é o filme de Federico Fellini (1920-1993), La Dolce Vita (1960), e, especificamente, sua cena mais emblemática: o banho da atriz Anita Ekberg (1931-2015), sua personagem Sylvia, presenciada por Marcello, interpretado pelo grande Marcello Mastroianni (1924-1996), no lago da Fontana de Trevi, em Roma.

Guardadas as dimensões e relevâncias das duas obras, é tanta semelhança entre os dois lances visuais (os respectivos banhos) que, no limite da interpretação, parece também se tratar de um complemento: a madura mulher Vera Fischer, de 2018, em consonância com a jovem mulher Anita Ekberg, de 1960. Personagens e atrizes em projeções e sintonias diversas. Compondo compreensões sobre o belo. 

Por meio dessa aproximação espírita, tal qual o enredo destacado de Espelho da Vida, o banho da artista no Jardim em Mariana condensa um mundo felliniano. Vera Fischer poderia ter participado de algum filme de Fellini, é verdade, na produção derradeira do cineasta italiano nos anos 1970-1990. Só que o banho no Jardim possibilita o transcendental encontro entre eles, no reflexo e na constatação de que, apesar do tédio de uma cidade, seja ela real ou ficcional, seja ela prosaica ou vibrante, o belo se manifesta. Como um sutil mergulho em uma fonte d´água. Essa conexão é um ato fantasmagórico, docemente fantasmagórico.

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