Mariana (MG), 30 de abril de 2026 MPJ | Mais Pelo Jornalismo
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Justiça para o Botafogo: MPF pede fim da mineração em vitória histórica

O Ministério Público Federal exige a anulação de licenças e a suspensão de sete projetos minerários, dando fôlego à resistência da comunidade que luta há anos para proteger suas águas e sua memória

Fotografia aérea de ângulo picado (vista de cima) capturada por drone, mostrando uma celebração comunitária no gramado da Capela de Santo Amaro, localizada no distrito de Botafogo, em Ouro Preto. No centro da composição, dezenas de pessoas de diversas idades estão organizadas em uma grande ciranda, formando um círculo irregular e de mãos dadas sobre a grama verde. No interior dessa roda principal, há um grupo menor de pessoas e uma mulher ao centro, que parece coordenar a atividade. Os participantes vestem roupas casuais e coloridas, muitos usando chapéus para se proteger do sol. À direita da imagem, vê-se a lateral da capela, uma construção rústica de paredes brancas com detalhes em verde nas janelas e uma cobertura de telhas de barro envelhecidas. Próximo à igreja, há dois túmulos brancos e baixos. Na parte superior esquerda, uma tenda branca oferece sombra, e ao fundo, a área é cercada por uma densa vegetação de árvores e arbustos. O muro baixo que delimita o terreno da capela acompanha a curvatura do gramado, onde também é possível notar alguns cartazes e bandeiras fixados. A iluminação é de luz natural plena, indicando um dia ensolarado.

Após anos de luta, a comunidade de Botafogo finalmente respira aliviada e com a esperança do fim definitivo da mineração no território - Foto: Lui Pereira/Agência Primaz

Após anos de uma "novela" marcada por crimes ambientais, esquemas de corrupção e uma resistência incansável, a comunidade de Botafogo, em Ouro Preto, respira um ar de alívio e esperança. O Ministério Público Federal (MPF) enviou nesta quarta-feira (29) uma recomendação determinante à Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad/MG): a anulação imediata da licença ambiental de uma mineradora e a suspensão de outros sete projetos minerários que ameaçam a região.

Esta decisão não é apenas um ato administrativo; é o reconhecimento de uma luta que transformou moradores em guardiões de um patrimônio que pertence a toda a humanidade. O órgão fundamentou a medida em falhas jurídicas e técnicas graves, além da omissão deliberada de informações sobre o patrimônio espeleológico e arqueológico da Serra de Ouro Preto.

O rastro de uma luta: do crime à resistência

Imagem aérea da área
A proximidade da mineradora, sufocava a comunidade com ruído e poeira- Foto: Lui Pereira/Agência Primaz

A história de resistência do Botafogo ganhou o mundo em 22 de março de 2025, o Dia Mundial da Água. Enquanto a comunidade se reunia para o evento científico HidroGeoDia, a mineradora Patrimônio Mineração soterrava, na calada da noite, uma caverna natural que havia sido "escondida" nos estudos de licenciamento. Aquele crime ambiental, flagrado por drones, tornou-se o símbolo da "mineração predatória" denunciada pelos moradores.

A partir dali, a Agência Primaz acompanhou cada reviravolta: desde a primeira suspensão judicial em abril de 2025, passando pelo "acordo agridoce" que permitiu a retomada parcial das atividades em agosto, até a bombástica Operação Rejeito da Polícia Federal. As investigações revelaram as entranhas de um esquema de corrupção bilionário, onde a licença da Mina Patrimônio teria sido garantida mediante o pagamento de R$500 mil em propina a altos servidores do estado.

Um passo firme no fortalecimento da comunidade

O MPF agora ecoa o mantra que o Cacique Danilo Borum-Kren e as lideranças da Associação de Moradores e Amigos de Botafogo (AMAB) repetiram exaustivamente: "A gente não bebe minério de ferro, a gente bebe água". 

A recomendação atual destaca o risco crítico aos aquíferos Cauê, Cercadinho e Gandarela, as "esponjas geológicas" que abastecem milhares de pessoas e alimentam as bacias dos rios das Velhas e Doce.

Para Líria Barros, vice-presidente da Associação de Moradores e Amigos de Botafogo (AMAB), este momento representa a consolidação de um esforço coletivo pela vida.

A recomendação do Ministério Público Federal é um passo firme nessa caminhada. Agradecemos imensamente a todos os parceiros que, dia após dia, dedicam suas forças pela preservação das serras e dos territórios. Seguimos confiantes de que esse trabalho pode contribuir muito para a conscientização e para o fortalecimento das comunidades

Líria Barros, AMAB


 

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A vitória de hoje é também uma resposta à tentativa de "blindagem" das mineradoras no Novo Plano Diretor e no decreto municipal de 17 de abril, que, embora criasse uma Unidade de Conservação, deixava o Botafogo vulnerável ao excluir justamente as áreas de conflito minerário.

Vigilância e o caminho para o tombamento definitivo

O objetivo da comunidade é tombamento da serra como patrimônio hídrico, ambiental, cultural, histórico, arqueológico e paisagístico - Foto: Líria Barros/AMAB

Apesar do clima de celebração, o recado é claro: a luta continua. O MPF exige que o Estado avalie o impacto cumulativo e sinérgico dos sete projetos previstos, pondo fim à estratégia das empresas de fragmentar licenciamentos para "driblar" exigências ambientais.

A comunidade segue firme na coleta de assinaturas para o Projeto de Lei de Iniciativa Popular que busca o tombamento da Serra do Botafogo. O objetivo é transformar a vitória jurídica de hoje em uma paz duradoura, onde o ecoturismo e a preservação das águas centenárias sejam o único futuro possível para os filhos de Santo Amaro do Botafogo.

A vitória de hoje impõe uma urgência administrativa imediata. A Semad tem agora o prazo de 30 dias para informar ao Ministério Público Federal sobre o acatamento das medidas. A paz parece finalmente estar no horizonte da Serra, mas a comunidade segue vigilante para que essa vitória se torne definitiva.

O papel da apuração jornalística

A Agência Primaz manteve o compromisso de documentar cada desdobramento dessa jornada. Nossa apuração buscou trazer transparência aos fatos, em uma cobertura presente e vigilante sobre o território de Botafogo.

Tal presença permitiu que as denúncias da comunidade e os alertas científicos sobre os aquíferos fossem amplificados, contribuindo para a fiscalização de interesses que impactam o patrimônio público.

Foto: Lui Pereira/Agência Primaz
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