Mariana (MG), 30 de abril de 2026 MPJ | Mais Pelo Jornalismo
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Mariana vira palco de debate sobre catástrofes que não acabam

Seminário na UFOP discute como desastres prolongam seus efeitos no cotidiano em uma cidade marcada por tragédias

Bento Rodrigues após o rompimento da Barragem de Fundão - Foto:Sabrina Passos/Lampião

Em Mariana, falar de catástrofe no passado é quase impossível. Mais de dez anos após o rompimento da barragem de Fundão, a cidade segue convivendo com marcas que não desapareceram. É nesse território, que acontece, entre os dias 6 e 8 de maio, o III Seminário da Rede Linhas, no Instituto de Ciências Sociais Aplicadas(ICSA), da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP).

O seminário integra os projetos “Catástrofes cotidianas 2: potências do atordoamento” e “Dinâmicas da Cultura Visual na constituição da textualidade de Mariana (MG) pela fotografia”, e propõe uma reflexão sobre os efeitos duradouros de acontecimentos catastróficos na vida social.

Em vez de tratar a catástrofe apenas como um evento pontual, a iniciativa parte da compreensão de que seus desdobramentos continuam a agir sobre o cotidiano, produzindo efeitos prolongados nas relações, nas memórias e nos modos de percepção. 

A proposta do encontro vai além da teoria acadêmica. Ao reunir pesquisadores da UFOP, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), o seminário tenta dar nome a uma sensação comum para locais marcados por tragédias que resistem no dia a dia.

Chamadas de “catástrofes cotidianas”, essas experiências não se encerram no momento do impacto. Elas continuam nos conflitos por moradia, na violência que atravessa a vida urbana, na ausência de políticas públicas e nas disputas por memória e reparação. “A proposta é pensar em como a catástrofe continua operando no cotidiano, produzindo efeitos que não se encerram no momento do acontecimento”, afirma o professor da UFOP e organizador do evento, Flávio Valle.

 

Uma cidade atravessada por crises

 

Ocupação Vila Serrinha - Foto: João Victor/Olhares Comunitários

 

A programação, organizada pelo grupo Cultura Fotográfica, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM) da UFOP, acontece em um momento emblemático para a Primaz de Minas. 

Além das consequências ainda abertas do desastre-crime de 2015, que seguem sem responsabilização criminal das mineradoras, a cidade enfrenta outros conflitos que ajudam a entender, na prática, o conceito debatido no evento. 

Nas regiões de ocupação da chamada Cidade Alta, cerca de 11 mil pessoas vivem sob risco de despejo. São mais de 3 mil famílias que enfrentam uma disputa judicial que pode resultar na demolição de suas casas. 

Os processos, iniciados no início dos anos 2000, são consequência da ausência de políticas públicas habitacionais na cidade, além dos altos valores de alugueis, que inflacionaram no pós-rompimento da barragem. 

“Quando falou em demolir, imagina essa quantidade de pessoas descendo tudo pro centro pra buscar um aluguel, cê acha que Mariana acomoda esse tanto de família aqui?”, questionou Bruna Mendes, moradora da ocupação Vila Serrinha em conversa com a nossa equipe. 

Enquanto isso, outras dimensões da violência também se tornam parte desse cotidiano.Este ano,a Lei Larissa Maria de Oliveira foi promulgada pelo município, após o assassinato brutal de uma jovem e sua filha. 

A legislação institui uma semana de prevenção ao feminicídio e aposta na reeducação masculina como estratégia para enfrentar a violência de gênero. Para além de Mariana, o ano de 2026, vem sendo marcado pela alta do movimento red pill e pelo aumento da taxa de feminicídio no Brasil.

 

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Mulher caminha sozinha durante a noite - Foto: João Paulo/Olhares Comunitários

 

De teoria à experiência vivida

É nesse cenário que o seminário acontece e ganha densidade. Ao discutir conceitos como “atordoamento”, os pesquisadores buscam compreender como populações expostas a crises contínuas reorganizam suas vidas, suas percepções e suas formas de existir.

 

O seminário reúne pesquisadores de diferentes instituições para apresentar o desenvolvimento de suas pesquisas e debater maneiras de abordar as Catástrofes Cotidianas e quais são os limites e as potências do Atordoamento

Flávio Valle, organizador do evento

 

A programação inclui apresentações de pesquisas, mesas de debate e atividades formativas que dialogam diretamente com temas presentes na cidade: desigualdade, violência doméstica, mobilidade urbana excludente, raça, gênero e disputa por território.
 

Programação

Na quarta-feira, dia 6, estudantes de iniciação científica apresentam pesquisas que abordam temas como moda periférica, religião, cinema, raça, gênero e luta pela terra. À noite, uma mesa reúne pesquisadores das três universidades para discutir cultura visual, violência doméstica, narrativas midiáticas e poéticas do tempo.

Já na quinta (7), o foco recai sobre metodologias de pesquisa em contextos marcados por conflito e desigualdade. Estão em pauta temas como fotografia participativa, mobilidade urbana excludente, narrativas de travestis na universidade e dramaturgias latino-americanas. 

O dia 8 de maio, sexta-feira, será dedicado ao balanço coletivo e à construção de encaminhamentos futuros entre os grupos de pesquisa. Além da dimensão acadêmica, o seminário também aposta na formação prática. Estudantes de jornalismo participam da cobertura fotográfica colaborativa do evento, aproximando teoria e prática e ampliando a circulação do conhecimento produzido.
 

Um debate não só acadêmico

Gratuito e aberto ao público, o seminário convida não apenas estudantes e pesquisadores, mas também moradores e interessados a refletirem sobre uma questão que permanece em Mariana: como viver em uma cidade onde diferentes formas de catástrofe seguem em curso?
 

SERVIÇO

III Seminário da Rede Linhas: Limites e Potências do Atordoamento nas Catástrofes Cotidianas

6 a 8 de maio

13h às 20h

Hemeroteca do ICSA - Mariana

Gratuito, inscrições no local

Mais informações: https://tinyurl.com/bdzdjt9m 

 

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