Texto de Andreia Donadon e J. B. Donadon-Leal
Leia o texto (ou ouça o áudio) da coluna de Andreia Donadon Leal:
A Casa de Cultura – Academia Marianense de Letras abre-se em abraço de conforto aos familiares e amigos do Acadêmico Rafael Arcanjo Santos, filho do fundador da Academia, o inesquecível professor Waldemar de Moura Santos.
Esse abrir de portas é para homenagear o Acadêmico Professor Rafael Arcanjo Santos, fundador, com os irmãos Antônio e Francisco, do Coral Madrigal e do Grupo Musical Uns & Outros, mas Rafael também criou a Escola de Violão Prof. Moura Santos. Profundo conhecedor da história cultural de Minas Gerais, de Mariana e da Academia Marianense de Letras, o professor Rafael lutou ferrenhamente pela pulsação de vida da cultura marianense – suas lendas, sua música – sacra e popular, suas artes, sua arquitetura e sua memória.
Conheci Rafael nos corredores do IFAC da UFOP nos anos 1980, quando lá ia dar aulas. Quando chegava mais cedo, ouvia alguém tocando piano, era Rafael, um dos servidores heróis que ajudaram a construir aquele importante Instituto de Filosofia e Artes da UFOP. Me reencontrei com Rafael na agenda cultural de Ouro Preto e Mariana, e com sua coluna aprendi muito da história de Mariana e da região dos Inconfidentes. No Curso de Letras, pesquisadores que precisavam de jornais históricos de Mariana recorriam a Rafael, que formou um acervo completo das publicações periódicas de Mariana. Rafael doou esses jornais para o ICHS, que utiliza desse acervo para pesquisas e estudos sobre as publicações marianenses. Depois, nos reencontramos, em novembro de 2000, quando ele, ajudando-nos a construir um jornal cultural em Mariana, publicou na primeira página do primeiro Jornal Aldrava Cultural artigo exaltando a Academia Marianense de Letras e seu departamento artístico cultural que atuam como sustentáculo da cultura marianense, com honra dignificando a produção cultural do passado e pavimentando caminhos para a produção do futuro.
É preciso enaltecer o amor que Rafael nutriu pela Casa de Cultura – Academia Marianense de Letras, com atos de cuidado para que a Casa permanecesse cumprindo com os compromissos firmados em sua fundação, de congregar as pessoas que lavram produtos culturais, para poder fazer com que Mariana e o mundo saibam das nossas potencialidades criativas, das pessoas que mantêm viva a profecia de Alphonsus de Guimaraens – sempre a sonhar, sempre a sonhar, versos que Rafael sempre lembrava ao conclamar pessoas a não desistirem de produzir cultura em Mariana.
O Coral Madrigal há 55 anos entoa em quatro vozes a liturgia da Semana Santa, além da participação dos cantores do Madrigal no Coro Mestre Vicente, nas novenas ao longo do calendário litúrgico anual da Catedral da Sé. Dezenas de alunos da Escola de Violão Prof. Moura Santos preparam-se para apresentação comemorativa dos 25 anos de fundação da Escola. Os violões entoarão acordes de saudade e gratidão.
Rafael, o Arcanjo, foi morar com os Santos, mas seu legado permanece vivo – o acervo de jornais históricos de Mariana continuam a permitir pesquisas lá no ICHS; as suas publicações de apontamentos históricos de Mariana continuarão a dar luz a muitas descobertas, as apostilas de violão continuarão a iniciar muitos novos talentos musicais, suas harmonizações de cânticos sacros continuarão a encantar as celebrações religiosas nas novenas e nas Semanas Santas marianenses, suas falas sobre a formação humanística nos seminários e nos colégios de Mariana e sua defesa à preservação dos acervos dos museus de Mariana continuarão a nos inspirar nas Quintas Acadêmicas.
Queríamos solicitar às irmãs e aos irmãos do acadêmico Rafael que nos autorizem a publicar o livro de sonetos que o poeta Rafael deixou em edição datilografada, que está lá em seus guardados. Nós tentamos convencê-lo a publicar esse belíssimo conjunto de sonetos, mas os olhos do Rafael eram voltados para o cuidado dos outros, deixando-nos à espera de uma decisão que não veio.
Rafael deixou também um artigo que será publicado na Revista da Academia que será editada em breve.
Caro Rafael, agora Arcanjo aconchegado pelos Santos, descanse em paz, que nós temos o compromisso de manter viva a Casa de Cultura – Academia Marianense de Letras, seguindo o seu exemplo de mantenedor do legado de seu pai e de seu irmão Ozanan e de outros que amaram e amam a cultura literária, artística e científica desta terra Primaz de Minas Gerais.
À Luz da Viola de Rafael Arcanjo
A Casa de Cultura-Academia Marianense de Letras amanheceu com as portas fechadas,
mas o coração aberto em saudade.
É que uma das suas luzes se apagou aqui na terra
para acender no céu: Rafael Arcanjo Santos.
Músico.
Acadêmico.
Filho de Mariana.
Rafael tinha o dom de transformar silêncio em melodia
e palavra em abrigo.
Na viola, ele contava histórias que os livros não deram conta.
Na Academia Marianense de Letras, ele guardava a memória
e tecia o futuro da nossa cultura com linhas de poesia.
Quantas vezes a sua música atravessou essas portas amarelas?
Quantas vezes sua voz ecoou nas salas, ensinando, acolhendo, inspirando?
Ele não apenas tocava. Ele curava.
Não apenas escrevia. Ele resgatava.
Rafael foi ponte entre o passado e o presente.
Foi raiz e foi asa.
Foi o violeiro que fez do cordão da viola um cordão de afeto,
unindo gerações na Casa de Cultura.
A vida, às vezes, tira o músico do palco
mas nunca cala a canção.
E a canção do Rafael vai seguir.
Vai seguir nas aulas, nas rodas, nas páginas,
no repicar dos sinos de Mariana e no vento que bate nas janelas azuis.
Descanse, maestro.
Que os anjos afinem a sua viola lá no alto.
E que nós, aqui embaixo, tenhamos coragem
de continuar tocando a música que você começou.





