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Leia o texto (ou ouça o áudio) da coluna de Júlio Vasconcelos:
Recentemente, fomos surpreendidos em Mariana com a triste e alarmante notícia de que uma jovem aluna da Escola Municipal Dom Oscar, estudante do 7º ano, agrediu com socos e puxões de cabelo uma pedagoga que a advertiu porque estava furando uma fila durante uma dança de quadrilha, em uma festividade junina no pátio da escola. A Prefeitura Municipal de Mariana através do Prefeito e do Secretário de Educação, além de várias outras pessoas e instituições, se manifestou formalmente e publicamente com uma nota de repúdio e tomou as devidas providências legais e de apoio com relação ao caso.
Infelizmente, a violência nas escolas brasileiras deixou de ser um fenômeno esporádico para se tornar uma preocupação constante de educadores, gestores e familiares. Pesquisas nacionais e internacionais confirmam a gravidade dessa realidade. Dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) apontam que o Brasil figura entre os países com maior índice de violência contra professores em sala de aula.
Para a Psicanálise, a agressividade faz parte da constituição humana. Sigmund Freud, em O Mal-Estar na Civilização, afirmou que o ser humano possui impulsos agressivos que precisam ser regulados pela vida em sociedade. A educação existe justamente para transformar a violência em convivência, substituindo a força pela palavra e o impulso pela lei. Educar significa, em grande medida, ensinar essa passagem.
Nas últimas décadas, entretanto, observa-se um enfraquecimento da autoridade do professor, algumas vezes apoiado, infelizmente, até pelos próprios familiares. Não são raros os casos de pais que entram em sérios atritos com a escola por defender de forma radical atitudes de indisciplina cometidas pelos filhos no ambiente escolar. O professor deixa de ser visto como um parceiro da família na educação dos filhos e passa a ser tratado como um inimigo, cuja atuação passa a ser questionada ou desautorizada. Conflitos que deveriam ser resolvidos pelo diálogo dando mais credibilidade aos professores, transformam-se em acusações, hostilidade e exposição pública e até processos na justiça.
Sob a perspectiva psicanalítica, essa mudança possui profundas consequências. Jacques Lacan, um renomado psicanalista francês (Paris, 1901-1981), observou que a sociedade contemporânea passou de uma cultura fortemente marcada pela proibição para uma cultura caracterizada pela busca incessante da satisfação imediata. Vivemos sob a influência de um discurso que incentiva o consumo, a rapidez, a realização instantânea dos desejos e a contestação. Nesse contexto, qualquer limite tende a ser percebido como uma afronta. O professor torna-se, então, aquele que interrompe o fluxo da satisfação imediata. Ao dizer "não", ao impor regras ou exigir esforço, ele desperta reações que muitas vezes extrapolam a simples discordância e assumem a forma da agressividade, como no caso citado. A violência não se dirige apenas à pessoa do professor, mas ao lugar simbólico que ele ocupa como representante da Lei.
Outro aspecto importante refere-se ao fortalecimento do narcisismo na cultura contemporânea. Crianças e adolescentes crescem em uma sociedade que valoriza intensamente a exposição, a aprovação imediata e a construção de uma imagem idealizada de si mesmos. A crítica, a correção e o fracasso tornam-se experiências cada vez mais difíceis de suportar. Assim, uma observação feita pelo professor pode ser vivida como humilhação ou ataque pessoal, desencadeando reações desproporcionais, como a que aconteceu.
Isso não significa, evidentemente, que toda violência seja consequência exclusiva de processos psíquicos. Existem fatores sociais, econômicos e familiares que exercem enorme influência sobre o comportamento dos estudantes. A Psicanálise, contudo, lembra que compreender as origens subjetivas da violência não implica justificá-la. Ao contrário, significa reconhecer que somente a punição não resolve o problema se não houver espaços de escuta, elaboração e construção de vínculos respeitosos.
Também é necessário considerar o sofrimento dos próprios professores. A exposição contínua à violência gera medo, insegurança e desgaste emocional. Muitos profissionais passam a exercer suas atividades sob permanente estado de alerta, preocupados mais em evitar conflitos do que em ensinar. Outros desenvolvem sentimento de impotência, desânimo e desejo de abandonar a profissão e, por vezes, abandonam de fato. A escola perde, assim, uma de suas funções essenciais: ser um ambiente de transmissão do conhecimento e de formação humana.
A violência contra professores representa um sintoma do mal-estar de nosso tempo que evidencia dificuldades na transmissão da autoridade, na elaboração das frustrações e na convivência com os limites. Enfrentá-la exige muito mais do que medidas disciplinares: exige reconstruir o valor da palavra, do respeito e da função educativa. Afinal, quando um professor é desrespeitado, não é apenas um profissional que sofre; é a própria educação que se enfraquece e, com ela, a esperança de uma sociedade mais justa, ética e humana.
Quem tem ouvidos, que ouça!





