Os textos publicados na seção “Colunistas” não refletem as posições da Agência Primaz de Comunicação, exceto quando indicados como “Editoriais”.
Leia o texto (ou ouça o áudio) da coluna de Júlio Vasconcelos:
Psicanálise e filosofia são irmãs gêmeas que caminham de mãos dadas. A palavra Amor, por sinal bastante desgastada ultimamente, é um tema recorrente e muito explorado por essas duas correntes, em todos os tempos. Afinal o que é o amor? Creio que vale a pena dar uma parada e refletir um pouco sobre isso.
Os gregos antigos perceberam que a palavra amor era insuficiente para descrever a riqueza das relações humanas e, por isso, desenvolveram diferentes conceitos para expressar formas distintas de amar. Ao longo dos séculos, a filosofia, as ciências da mente e a própria tradição cristã foram elaborando esse conceito e chegaram a uma classificação, dividindo-o em quatro faces distintas, mas perfeitamente interpostas e complementares: Eros, Philia, Estorge e Ágape.
Com toda certeza, compreender essas diferentes modalidades de amor nos ajuda a entender melhor nossos relacionamentos, nossas motivações e até mesmo nossos conflitos emocionais.
O amor Eros é o amor do desejo, associado à atração e à paixão. Seu nome deriva do deus grego Eros, correspondente ao Cupido romano. Na experiência humana, Eros manifesta-se como uma força que impulsiona uma pessoa em direção à outra. Na obra "O Banquete", de Platão, o amor erótico não se limita à sexualidade. Ele representa um impulso que leva o ser humano a buscar aquilo que lhe falta, aquilo que considera belo e desejável. É caracterizado pela Intensidade emocional, pelo desejo de proximidade, pela forte atração física ou psicológica, pela busca da união com o outro e pela tendência à idealização. É o que acontece quando um casal recém-apaixonado passa horas conversando, sente saudades constantes e experimenta forte atração física. A presença do outro provoca entusiasmo, expectativa e excitação emocional.
Philiarepresenta o amor da amizade, da parceria e da reciprocidade. Para Aristóteles, a amizade era uma das maiores expressões da vida virtuosa. Diferentemente de Eros, que nasce do desejo, Philia nasce do reconhecimento mútuo. Nesse tipo de amor, o outro não é visto apenas como objeto de desejo, mas como alguém com quem compartilhamos valores, projetos e experiências. É caracterizado pela confiança, pela lealdade, pelo respeito mútuo, pelo companheirismo e pela cooperação. É o que acontece com dois amigos que se conhecem há décadas e permanecem próximos, mesmo quando moram em cidades diferentes. Compartilham alegrias, dificuldades e apoio emocional. Em um casamento duradouro, Philia frequentemente se torna o principal elemento de sustentação da relação. Muitos relacionamentos fracassam porque possuem muito Eros e pouca Philia. Quando a paixão diminui, a amizade torna-se fundamental para a continuidade do vínculo.
Estorge refere-se ao amor natural existente entre familiares e é caracterizado pelo afeto estável, pelo cuidado, pelo sentimento de proteção e pertencimento e pela responsabilidade. Esse tipo de amor costuma surgir espontaneamente nas relações entre pais e filhos, irmãos, avós e netos, familiares próximos. Podemos encontrá-lo de forma concreta quando observamos uma mãe que passa a noite inteira acordada cuidando de um filho doente. Mesmo cansada, ela permanece ao lado dele porque o vínculo afetivo ultrapassa a lógica do interesse ou da recompensa, por isso, amar também implica permitir que o outro cresça e desenvolva sua própria identidade.
Finalmente temos o Ágape que é frequentemente considerado a forma mais elevada de amor. Enquanto Eros deseja reciprocidade, Ágape deseja oferecer. Trata-se de um amor marcado pela generosidade, pela compaixão e pela disposição de buscar o bem do outro, mesmo quando isso exige sacrifício pessoal. Embora o conceito tenha raízes gregas, foi amplamente desenvolvido pela tradição cristã. Podemos também observá-lo quando vemos um voluntário que dedica parte significativa de sua vida ao cuidado de pessoas vulneráveis sem esperar reconhecimento ou recompensa. Outro exemplo ocorre quando alguém permanece ao lado de um familiar gravemente enfermo, oferecendo apoio constante, apesar das dificuldades. Ágape representa a capacidade humana de transcender o próprio interesse e agir em favor do bem-estar do outro.
Na prática, O casamento saudável costuma combinar essas quatro formas de amor: Eros, com a atração e desejo, Philia com a amizade e o companheirismo, Estorge, com o sentimento de família e pertencimento e o Ágape com o cuidado e a dedicação ao bem-estar do outro. Quando uma dessas dimensões desaparece completamente, o relacionamento tende a empobrecer. Por outro lado, quando elas coexistem de maneira equilibrada, a relação torna-se mais rica e resiliente.
A Psicanálise entende que a maturidade afetiva consiste justamente em integrar essas diferentes dimensões, reconhecendo que o amor humano é mais complexo, mais profundo e mais plural do que uma única palavra é capaz de expressar. Muitos conflitos conjugais surgem porque os parceiros esperam que apenas Eros sustente a relação ao longo dos anos, quando, na realidade, os vínculos mais duradouros costumam depender cada vez mais de Philia, sem perder completamente Eros e incorporando doses crescentes de Ágape e Estorge.
Quem tem ouvidos, que ouça!
Se você quiser se aprofundar no assunto, é só me retornar.



