Alvíssaras: Cláudio Coração lança livro sobre música e afeto em Mariana
Professor da UFOP une rigor acadêmico e memórias pessoais em obra que revisita a contracultura e a música popular brasileira
O professor Cláudio Coração enfrentou uma maratona de autógrafos na noite de ontem - Foto: Lui Pereira/Agência Primaz
Caía a tarde do dia 10 de fevereiro de 2026 quando o Museu de Mariana foi palco de um encontro que transcendeu o lançamento de uma obra acadêmica. Entre abraços e recordações, o professor de Jornalismo da UFOP, Cláudio Coração, apresentou seu livro "Bêbados Trajando Luto: Movimentos Críticos, Contracultura e Música Popular nos Anos 1970", em um evento que celebrou não apenas a pesquisa, mas a trajetória humana por trás das páginas.
Canções que atravessam o tempo
A cerimônia foi aberta com uma fala sensível da professora e amiga de Edir, Hila Rodrigues, que destacou como Cláudio utiliza a arte para compreender a vida. Segundo ela, o autor "se agarra às canções para atravessar o tempo", utilizando a música para refletir sobre como chegamos ao presente e como faremos nossas escolhas futuras. A obra utiliza quatro canções principais como fios condutores: "Vapor Barato", "Movimento dos Barcos", "O Bêbado e a Equilibrista" e "Cajuína".

Durante o lançamento, Cláudio explicou a escolha dessas músicas, revelando o peso emocional de cada uma. Ao falar de "Cajuína", de Caetano Veloso, a dimensão afetiva ficou evidente: a música, feita em homenagem ao poeta Torquato Neto, era a que a mãe de Cláudio mais cantava, embora ela talvez nunca soubesse da tristeza profunda que carregava em sua origem.
O luto e a educação sentimental

O livro, fruto de uma pesquisa de anos e de um estágio de pós-doutorado, não esconde suas cicatrizes. Cláudio descreveu a obra como o resultado de três inquietações, sendo a última de ordem puramente pessoal: "O fato de evocar essas referências desse tempo passado, recente, era uma maneira também de dizer sobre esse tempo atual", afirmou o autor, relembrando que a arte e a literatura sempre chegam antes para anunciar novos códigos e caminhos.
O aspecto humano da produção também surgiu no relato dos bastidores, como os momentos em que Cláudio lia capítulos inteiros em voz alta para a amiga Hila, buscando sentido e partilhando a felicidade de "dizer as coisas que a gente queria dizer".

A liberdade como revolta e nascimento
Um dos momentos mais marcantes da noite foi quando Cláudio compartilhou a epígrafe do poeta Laudeir, que abre o livro e define o tom da obra através de três dimensões da liberdade: ela é uma revolta, acontece de dentro para fora e, acima de tudo, "dói para nascer". Para o professor, essa angústia é recorrente na sociedade brasileira, que constantemente precisa reivindicar seus projetos de vida e sonhos.

Ao final, em meio a perguntas do público e provocações sobre "preferir uma obra ou um destino humano", Cláudio dedicou o trabalho aos seus alunos da UFOP, passados, presentes e futuros.
Após o bate-papo, uma celebração musical e quetais deram o tom da noite, com a presença de muitos alunos, professores e de ilustres aldravistas, Cláudio encarou uma maratona de autógrafos.




Com o fechamento do museu e conforme prometido na divulgação do evento, o “after” aconteceu no jardim, onde todos puderam celebrar e conversar sobre contracultura, música e afetos. A noite vagarosamente se encerrou com sentimento de que, como diz a canção de Jards Macalé citada pelo tio do autor, "é impossível levar um barco sem temporais", mas é a música que nos mantém navegando. Clá!
Para quem deseja adquirir, o livro está disponível para compra pela Artêra Editora e também no site da Amazon.

Lui Pereira
É jornalista, fotojornalista e contador de histórias. Um cronista do cotidiano marianense.










