Mariana (MG), 5 de setembro de 2026 MPJ | Mais Pelo Jornalismo
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Até onde a vista alcança: cenários para as eleições de 2026

Os textos publicados na seção “Colunistas” não refletem as posições da Agência Primaz de Comunicação, exceto quando indicados como “Editoriais”

Fotografia em primeiro plano de uma urna eletrônica branca sobre uma mesa preta, com tela ligada exibindo a mensagem “Início da votação – Identifique o eleitor” e teclado com teclas numéricas pretas, tecla verde de confirmação e tecla laranja de correção. Ao lado, está o módulo biométrico conectado à urna. Ao fundo, desfocados, aparecem os dizeres “Eleições 2026” e o logotipo do Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ).

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Leia o texto (ou ouça o áudio) da coluna de Cláudio Coração:

  1. Não há como rascunhar qualquer tipo de análise para a eleição deste ano sem lembrar das consequências das chamadas Jornadas de Junho de 2013 e do golpe parlamentar-militar-midiático de 2016. Mais de uma década depois, ainda estamos mergulhados nos ânimos desses acontecimentos. E, portanto, vamos de novo para um processo eleitoral marcado pela imagem do “gigante adormecido” que acordou tal qual um zumbi.
  2. O presidente Lula busca seu quarto mandato em um cenário menos bélico, se compararmos com os pleitos de 2018 (quando foi impedido de disputar) e de 2022 (quando o acirramento com o adversário se deu com o bolsonarismo no poder). Parte da “sensação de normalidade”, por ora, tem a ver com os excelentes resultados de seu terceiro governo (recorde de emprego, inflação baixa, crescimento sustentável, relação externa altiva, saída do mapa da fome etc.). No entanto, isso não se traduz em aprovação popular expressiva, longe, portanto, dos recordes de seus primeiros mandatos nos anos 2000. Além desse desajuste, a candidatura para Lula 4 representa, ainda, em essência, os fundamentos básicos da resistência democrática brasileira, cambaleante desde a constituição de 1988. O presidente continua a ser o maior líder popular do país e tem na estrutura do Partido dos Trabalhadores (PT) um suporte sobrevivente, que estabelece pontos de capilaridade e identificação bastante significativos em todo o país.
  3. O bolsonarismo também é um fenómeno popular e a extrema-direita brasileira, mesmo dividida e fraturada, ainda tem na família do ex-presidente, em seus filhos como esteio, a hegemonia da pauta do pensamento conservador-reacionário. Esse movimento fagocitou a direita clássica liberal e fez com que setores do capital especulativo (“Faria Lima” e seus tentáculos com o crime organizado nos territórios) investissem apoio, energia e dinheiro para projeto ultraliberal articulado a tez fascista. Mesmo com postulante pouco carismático, Flávio Bolsonaro (PL), a candidatura se torna competitiva justamente por causa desse saldo alargado de identificação reacionária entre o capital e a ideologia. O pai de Flávio, Jair Bolsonaro, continua condenado e preso.
  4. O trumpismo conluiado com a “internacional fascista” já interfere, sem sutileza, no nosso processo eleitoral e nas questões de expansão do imperialismo atualizado da doutrina Monroe (a “américa para os americanos”). O tarifaço decretado recentemente contra o Brasil pelos EUA, a ofensiva logística e golpista na América Latina e as chantagens e ameaças diárias vindas de Washington definem de modo contundente que, diante da necessidade de defesa e reação diplomática, a eleição é entre o entreguismo e a soberania.
  5. O centrão (avolumado em partidos como PP, União Brasil, Republicanos, PSD etc.) e o parlamento cerrado com o chamado orçamento secreto se dividem, na bolsa de apostas da correlação de forças, na observação do movimento dos barcos: parte se aproxima ao lulismo calcado na institucionalidade, outra parte mergulha no sedutor estresse político capitaneado pelo bolsonarismo. Os movimentos recentes de Hugo Motta (Republicanos/PB) e Davi Alcolumbre (União/AP), presidentes das casas do poder legislativo, no aceno a Lula no empenho da votação do fim da jornada 6x1, é uma demonstração interessante sobre os cursos e modulações a curto e a médio prazo.
  6. A eleição nos estados também é fator de lastro na correlação de forças. Parece haver uma projeção de certo equilíbrio entre o voto reacionário e o progressista no país (uma repetição, a despeito das tensões, das últimas eleições). Talvez haja uma diluição do bolsonarismo mais feroz no Sudeste, mesmo com a possível reeleição de Tarcísio de Freitas (Republicanos) em São Paulo, se pensarmos na correspondência inversa da eleição de Eduardo Paes (PSD) no Rio de Janeiro. Em Minas Gerais, as possibilidades são múltiplas: Cleitinho Azevedo (Republicanos), Patrus Ananias (PT), Mateus Simões (PSD), Alexandre Kalil (PDT), todos eles têm alguma chance no disputado significado dos emblemas mineiros. E como Minas é a síntese do Brasil, o olhar para as alterosas deve ser atento e forte.
  7. Diferentemente das últimas eleições, há candidatos muito fortes (se irão vencer é outra história) no campo da esquerda brasileira na concorrência ao parlamento (os chamados puxadores de voto). Só em São Paulo, por exemplo, o maior colégio eleitoral brasileiro, teremos Zé Dirceu (PT) e Erika Hilton (PSOL) muito bem votados à Câmara Federal. Na importante eleição para o Senado Federal, a disputa parece estar equilibrada entre esquerda e direita, mesmo com quadros graúdos da extrema direita (e também puxadores de voto) no jogo. Representantes do centrão, contudo, tendem a ocupar um grande naco das vagas Brasil afora.
  8. O tribunal eleitoral está, circunstancial e terrivelmente, comandado pelas figuras de proa do bolsonarismo no STF, os ministros André Mendonça e Kassio Nunes Marques. Mendonça virou figurinha carimbada na cobertura midiática. E atravessa o rubicão da razoabilidade republicana na mediação para lá de suspeita com os processos que coordena. Os vazamentos de informações sigilosas das instituições (de setores da Polícia Federal e do próprio poder judiciário) fazem com que atores opostos à agenda de Mendonça no STF (marcadamente o rival Alexandre de Moraes, mais Flávio Dino e Gilmar Mendes) imprimam agendamentos diversos a partir, e diante, de pressões que vêm de todos os lados. Haja barulho até a votação.
  9. A imprensa corporativa e hegemônica (grupos Globo, Folha, Estado e ramais menos relevantes) parece ter tirado do guarda-roupa o modelito da malfadada operação lava-jato em sua cobertura em curso. Há claros sinais de naturalização de processos terríveis, de mediação torta sobre falas polêmicas, e fabricação de denúncias vazias, em contraste, portanto, com as demandas e reais necessidades da população brasileira. Há também informações dispostas, em grande proporção e alcance, fora dessa lógica de mediação da grande mídia: desde veículos independentes segmentados e progressistas até redes de desinformação como máquinas de fake news. Como diria a velha canção, quem lê tanta notícia, não é mesmo?
  10. Os movimentos sociais organizados estão ativos, nas ruas e nas redes. Talvez instados de modo mais tranquilo do que outras vezes. Isso é também um sinal preponderante da ideia de reconstrução por Lula da terra devastada por Bolsonaro. Isso não quer dizer que os tentáculos das massas não possam ser ordenados pela barbárie, isso que as pesquisas de opinião pública cada vez mais têm dificuldade de alcançar e decifrar. A propósito, há pesquisas de todas as cores e sabores, com todos os interesses do mundo colocados à prova (e à chantagem) no processo eleitoral. De qualquer modo, apesar do chamado “pesquisismo”, existe um Brasil que se move na imprevisibilidade.
  11. Há em muitos grupos religiosos (marcadamente, os grupos pentecostais) uma inflexão de gosto em relação à simpatia com o bolsonarismo (considerando ainda a enorme adesão desse grupo em particular às suas fileiras). Os púlpitos espalhados pelo país e pelas telas moldam, é importante frisar, independentemente do letramento político dos fiéis mais jovens, corações e mentes. Há uma interessante disputa nesse recorte populacional, que não se esgota em 2026.
  12. Falando em telas, as big techs (google, tik tok, x, grupo meta), por meio da frouxidão das leis, carregam, literalmente, por meio de bots e de campanhas ordenadas e patrocinadas, a bateria de personalidades alçadas à relevância (as candidaturas de Augusto Cury (Avante) e de Renan Santos (Missão) são exemplos, nesse sentido). Como não houve legislação e medidas de racionamento desse fuzuê comunicacional, a farra do uso escatológico de deep fake e inteligência artificial inunda percepções falsas da realidade. Como todos sabem, tais grupos transnacionais estão bem articulados com as forças da extrema direita no mundo todo. Não vai ser diferente aqui e agora nas eleições brasileiras de 2026.
  13. Em resumo, nos últimos quatro anos, em termos bem materiais, visíveis e factíveis, um chamado bem-estar voltou à sociedade brasileira (na dinâmica do cotidiano e nas relações concretas de melhoras de vida). Paradoxalmente, há uma sensação de profundo mal-estar, articulada por forças ativadas desde o chamado “mundo virtual”. Esse pêndulo entre a dinâmica das conquistas e a pauta das agruras projeta uma eleição sedimentada no seu significado duplo. Entretanto, pesquisadores dizem, até o dia da eleição, a dinâmica das decisões é muito volátil, por mais que as questões estejam todas aí, desde 2013, como afirmamos no início: evidentes, nítidas. No mais, nem precisa ser um ás da concisão analítica para constatar: assim como em 2018 e em 2022, 2026 é a eleição mais importante de nossas vidas. Já que é, de novo, a eleição da civilização contra a barbárie, da soberania contra a rendição. Que os ventos sejam bons!
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