Leia o texto, ou ouça o áudio da coluna de Giseli Barros:
Cresceu ouvindo as histórias sobre a edificação da casa. Principalmente, nas tardes chuvosas e preguiçosas, enquanto a mãe fazia o café para servi-lo com bolinhos fritos e cheinhos de cristais de açúcar, a avó aproximava-se da grande janela da cozinha e ficava ali por longos minutos em silêncio. A menina não entendia por que alguém teria uma ideia tão absurda de encher a casa com tantas paredes, colocando, no meio delas, janelas muito altas. Desejava, com força muito intensa, crescer rapidamente para ver o que a avó admirava naqueles dias em que o céu desaguava. Com receio de interromper aquela senhora de cabelos macios como as nuvens, resignava-se e distraía-se também com o aroma que milagrosamente tomava conta da cozinha. E, antes mesmo do primeiro bolinho ser servido, a avó, ainda imersa no mundo que transcendia aquelas paredes, contava, com a voz doce das avós, como era bom viver naquele lugar.
A menina recebia as histórias como saídas de um livro. Às vezes, retornava a uma página guardada no fundo da sua cabeça infantil, de uma outra tarde como aquela, para compreender melhor sobre o que falavam. Ao mesmo tempo, a senhora recontava o que o seu pai lhe havia confidenciado na mesma cozinha. Era assim que a avó dizia e a menina entendia. “O meu bisavô ajudou o pai dele a erguer tudo isso.”, dizia. A garota escutava com bastante atenção. A senhora, por sua vez, contemplava a liberdade que vivia naquela janela. “Do outro lado, depois do quintal, havia um vale, e, depois desse vale, havia uma montanha. E essa montanha ainda está lá. Intacta.”. Parecia, então, que ao contar as velhas histórias, o seu bisavô, o avô e o pai dela ainda existissem entre as paredes da casa, como se pudesse ser possível vê-los também esperando os bolinhos de chuva. Por que chamar esses bolinhos assim? A menina não entendia e queria perguntar, mas a avó falava e falava ainda mais.
Assim foi crescendo. Chegou o dia em que não foi mais preciso puxar nenhum móvel para ver. Numa tardezinha, ficou ao lado da avó, num silêncio gostoso, só olhando. Queria saber como era possível que tudo aquilo coubesse nos olhos, duas bolinhas tão pequeninas. Com o coração aos saltos, mirou a senhora, que sorriu de volta entendendo tudo. O céu brincava de molhar o telhado. Cada gota era uma nota, juntas faziam uma música. A avó dedilhava no ar para que a neta a imitasse. “Vamos comer”, convidava. “Vó, um dia, eu terei os cabelos tão branquinhos quanto os seus, bem macios como aquela nuvem risonha daquele lado.”, apontava. “Mas, vai de-mo-rar muito.”, continuava. A avó concordava e olhava para dentro. A menina pensava que a outra estivesse sentindo os cristais de açúcar brincando no céu da boca. A outra procurava a infância. “E, agora, as janelas ainda são misteriosas?”, endereçava a provocação à neta. “Não.”, respondia com voz firme. “Agora, eu já vejo tudo.”, emendava entre a inocência e a arrogância pueril.
Demorou um tempo. Ainda existiram muitas tardes. Em uma delas, porém, a casa ficou toda aberta por longas horas. Serviram café, pão e biscoitos. Muita gente entrava e saía. Algumas permaneciam murmurando. Um homem todo vestido de preto chegou, trazendo um livro com páginas douradas. Depois, tudo foi fechado. Por meses, preferiu fazer as refeições do outro lado da mesa, de costas para a montanha. Foi surpreendida, no entanto, num dia qualquer, contando umas histórias sobre o vale. Comentava sobre o tempo em que tudo ali havia sido bastante silencioso, porque não morava ninguém naqueles lugares, somente os bichos e os pássaros, pois estes, os pássaros, não eram bichos como os outros. Então, existia a hora do silêncio, e o mundo era acordado pelo canto dos passarinhos. As horas surgiram assim, determinando o momento de cada coisa. E foi até a janela, e respirou profundamente, olhando o passado na montanha. Ela sabia como cada um havia chegado e como fora construída a casa. Nesse momento, sentiu gotinhas de chuva beijando o seu rosto. “Seria a avó?”. Refez as notas no ar, permitiu que a janela permanecesse bem aberta e preparou, com muito cuidado, bolinhos bem doces tais quais as histórias e o canto dos passarinhos.



