Mariana (MG), 30 de abril de 2026 MPJ | Mais Pelo Jornalismo
Publicidade
https://agenciaprimaz.com.br/apidata/imgcache/521bed8dda120165d672d4a8d85ee169.webp

Câmara acusa SAAE de apropriação indébita por cobranças na pandemia

Parlamentares denunciam descumprimento de lei de isenção de TBO em Mariana; estudantes e moradores relatam surpresa com dívidas de até R$700 acumuladas no site da autarquia

A foto mostra um hidrante com a tampa preta e um lacre azul onde se lê: SAAE.

Para o vereador Fernando Sampaio, o SAAE não pode ir contra a isenção definida por lei - Foto: Lui Pereira/Agência Primaz

A 8ª Reunião Ordinária da Câmara Municipal de Mariana, realizada nesta segunda-feira (23), foi palco de duras críticas à gestão do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE). O centro do debate seria o descumprimento da Lei Municipal nº 3.585/2022, que garantiu a isenção da Tarifa Básica de Operação (TBO) durante os anos críticos da pandemia (2019-2021). Segundo os vereadores, a autarquia continua "achacando" o contribuinte com cobranças que legalmente não deveriam existir.

A lei ignorada e o "protesto" Legislativo

O Requerimento nº 35/2026 é de autoria do vereador Marcelo Macedo, o parlamentar destacou que a lei é clara ao isentar os débitos de 2019 a 2021 e que o Poder Executivo está ferindo o princípio da legalidade.

 

Mariana exige respeito e cumprimento à lei. O Poder Executivo não tem o direito de ignorar a isenção tributária ali estabelecida. Eu não concordo com essa cobrança, ela é injusta e penaliza o cidadão que já sofreu com os impactos da pandemia

Marcelo Macedo, vereador


 

Um dos pontos mais sensíveis da discussão refere-se aos cidadãos que, mesmo isentos, efetuaram o pagamento. A lei prevê a compensação automática desses valores nos boletos futuros, o que, segundo denúncias, não está ocorrendo. O requerimento aprovado chega a questionar se a retenção desses recursos configura apropriação indébita por parte da prefeitura e da autarquia.

Além do dano imediato ao morador, o vereador Fernando Sampaio alertou para o "tiro no pé" financeiro que a prefeitura está dando. Com base no Código de Defesa do Consumidor, cobranças indevidas podem gerar o direito ao ressarcimento em dobro.

 

O meu receio é que, quando você é cobrado por uma taxa indevida, pode pedir o ressarcimento em dobro. O que o SAAE acha que está ganhando hoje, pode estar perdendo em dobro amanhã

Fernando Sampaio, vereador

""

O impacto no bolso

A teoria discutida no plenário ganha rostos reais fora dele. É o caso de Gisele Oliveira, estudante que mora em uma república no município. Ela relata que foi surpreendida em abril por uma conta com multas por atraso. Ao verificar o site do SAAE, Gisele encontrou um passivo de 37 contas em débito, totalizando um valor entre R$600 e R$700.

"Tive que mobilizar todo mundo lá de casa, porque ninguém tem R$600 assim, ainda mais a gente que é estudante, que mora em república para economizar", desabafou Gisele, ressaltando que as moradoras anteriores haviam sido informadas de que não precisariam pagar essas taxas. A estudante criticou ainda a falta de transparência e a dificuldade em obter descontos: "Eles só dão o desconto se você pagar à vista. Quem que tem R$600 para pagar à vista? Aí a gente teve que parcelar e ainda ficou sem o desconto".

"Apropriação indébita": A acusação do Legislativo

Para os vereadores, casos como o de Gisele são prova do desrespeito à legislação vigente. O vereador Marcelo Macedo foi enfático ao afirmar que a retenção desses valores, diante da isenção legal, configura apropriação indébita dos recursos do contribuinte.

 

Publicidade
/apidata/imgcache/e9bd5514f213916015e37de1ab9ceab3.jpeg?banner=postmiddle&when=1777555488&who=345

Não se trata apenas de um pedido de informações, mas de um veemente protesto contra a cobrança indevida de valores que esta Casa de Leis já extinguiu. O Poder Executivo não tem o direito de ignorar a isenção tributária ali estabelecida

Marcelo Macedo, vereador


 

Para moradores como Gisele, a sensação é de injustiça, especialmente pela qualidade do serviço prestado. "Como não era uma coisa divulgada, as 37 contas iam continuar lá no site e a gente recebendo multas", lamentou a estudante. O sentimento é ecoado no plenário, onde Macedo relatou mensagens de munícipes reclamando que, além das taxas abusivas, a água que chega às torneiras é "puro barro", alertou o vereador.

"Inventando histórias" no atendimento

Durante a reunião, os parlamentares relataram que o SAAE tem usado interpretações distorcidas para forçar o pagamento, tratando a isenção apenas como uma "flexibilização" para parcelamento.

O vereador Fernando Sampaio criticou a postura da diretoria da autarquia, para o vereador, a lei é soberana e deve ser cumprida. "O diretor do SAAE finge que a flexibilização é só para parcelar débitos de 2022 para frente. A isenção de 19, 20 e 21 foi concedida por esta Casa e é lei. Se não concordam, que entrem com uma ADIN [Ação Direta de Inconstitucionalidade] para derrubar a lei. Enquanto não derrubar, ela está em vigor", afirmou.

Próximos passos

Com a aprovação unânime do requerimento, a Câmara agora exige que seja apresentada uma listagem de todos os boletos emitidos indevidamente após a publicação da lei e as providências para o cancelamento imediato dessas dívidas sejam tomadas. Os vereadores aconselharam a população que se sentir lesada a buscar seus direitos, inclusive judicialmente, caso a prefeitura não regularize a situação.

Entramos em contato com o SAAE Mariana solicitando esclarecimentos sobre a manutenção das cobranças de TBO do período de 2019 a 2021, que contraria a isenção prevista na Lei Municipal nº 3.585/2022, além de questionarmos as barreiras enfrentadas sobre o não ressarcimento e a contínua cobrança de dívidas acumuladas durante a pandemia. No entanto, até o fechamento desta reportagem, não obtivemos respostas da autarquia sobre as perguntas enviadas.

Compartilhar

Leia também

Justiça para o Botafogo: MPF pede fim da mineração em vitória histórica Botafogo

Justiça para o Botafogo: MPF pede fim da mineração em vitória histórica

Vereador cobra plano para conter alto custo de vida em Mariana Política

Vereador cobra plano para conter alto custo de vida em Mariana

Mariana vira palco de debate sobre catástrofes que não acabam Educação

Mariana vira palco de debate sobre catástrofes que não acabam

Publicidade
/apidata/imgcache/f65eae2af01c1767b4f34a602857d49c.webp?banner=middle&when=1777555488&who=345