A preservação da memória das vítimas do rompimento da barragem de Fundão foi assunto da 16ª Reunião Ordinária da Câmara Municipal de Mariana, realizada nesta segunda (18). O centro da discussão foi o Requerimento nº 70/2026, que exige do Executivo detalhes sobre o destino e a aplicação dos R$27 milhões depositados pela Samarco para a construção do Museu dos Territórios Atingidos em Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo.
A Identidade sob a Lama
O debate na Câmara revelou que, para os representantes e para a comunidade, o museu não é apenas uma obra física, mas um acerto de contas com a história. O vereador Ronaldo Bento enfatizou que o espaço precisa de verdade e respeito, lembrando as histórias de vida interrompidas:
Não gostaríamos de estar aqui hoje falando de nós termos que colocar algo para que seja visitado de uma tragédia crime que houve no passado, mas infelizmente a gente precisa de alguma forma demonstrar para que aquilo fique em memória
O parlamentar ressaltou ainda a dor imaterial que persiste no território: "A identidade de maioria daquelas pessoas foram soterradas ali com aquela lama", pontuou.
Além da questão emocional, foram levantados entraves técnicos e de infraestrutura. O secretário de governo, Danilo Brito, informou que o recurso de R$27 milhões já está em conta e que o município conduzirá as desapropriações individuais.
Para incentivar a negociação, o município pretende oferecer um acréscimo financeiro: "Será feito a avaliação individual e aí o município ainda vai, dentro do acordo, acrescentar um percentual... eu acredito que é de 50% em cima da avaliação".
Entretanto, a viabilidade do museu depende de segurança e acesso. O antigo Bento Rodrigues está em uma "Zona de Autossalvamento" (ZAS) da nova barragem Santarém 2, o que exige que a mineradora rebaixe o nível de risco para permitir a frequência de turistas.
Outro ponto de discussão foi o acesso ao distrito. O vereador José Sales alertou que, sem estradas adequadas que religuem os distritos de Bento, Camargos e Santa Rita Durão, o museu ficará isolado: "Como é que o pessoal vai chegar lá? Qual segurança que vai ter? Primeiro nós temos que pensar nos acessos", questionou.
Conflitos de projeto
A discussão atual na Câmara ecoa um impasse histórico sobre como as ruínas da Capela de São Bento devem ser protegidas. A discussão se aprofunda sobre os aspectos culturais e monumentais dos locais atingidos.
Um dos projetos sugeridos, da arquiteta Jô Vasconcellos, propunha um "bunker" de concreto misturado aos próprios rejeitos da mineração para envolver o que restou do templo do século XVIII.
Tal proposta gerou revolta na comunidade, sendo vista como uma tentativa de "monumentalizar" o crime ambiental. Mônica dos Santos, integrante da Comissão de Atingidos (CABF), expressou a indignação local:
Infelizmente nesses 10 anos o que mais apareceu foi pessoas querendo decidir a nossa vida sem nos ouvir... Esse projeto tinha que ser construído dentro do complexo das empresas ASSASSINAS, principalmente por usarem o próprio rejeito na construção. Cabe lembrar que a comunidade de Bento surgiu anos antes das empresas... por que nossa história tem que ser apagada pra prevalecer a lama?
Em contrapartida, os atingidos e a assessoria técnica da Cáritas MG defendem o projeto do arquiteto Rodrigo Meniconi, intitulado "Ambiência e Memória". Esta proposta foca na reconstituição da volumetria original da capela utilizando madeira e vidro, permitindo a visualização das ruínas e recuperando o sentido de pertencimento sem privilegiar o símbolo da destruição.
Entretanto, qualquer avanço no sentido de construir um espaço de memória nas comunidades atingidas, passa primeiro pela necessidade de dialogar com a população atingida e pelas negociações sobre projetos e desapropriações, além das obras de infraestrutura viária e de segurança de barragens, o que torna imprevisível qualquer prazo para a conclusão do projeto.


