Mariana (MG), 18 de junho de 2026 MPJ | Mais Pelo Jornalismo
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Câmara cobra transparência sobre verba para Museu de Bento Rodrigues

Vereadores aprovam pedido de informações sobre recursos da reparação e alertam para entraves de segurança e infraestrutura no antigo distrito

A imagem mostra o interior protegido das ruínas da Capela de São Bento, localizada no distrito de Bento Rodrigues, em Mariana (MG). A estrutura histórica, que foi soterrada e danificada pelo mar de lama do rompimento da barragem de Fundão, está abrigada sob um grande galpão temporário de metal e lona para fins de preservação e escavação arqueológica.


Em primeiro plano, cruzando a imagem na diagonal, veem-se as bases grossas e desgastadas das paredes da capela, feitas de blocos de terra compactada e pedras, que apresentam rachaduras profundas na superfície avermelhada. Entre essas paredes originais, há um chão de terra batida coberto por fragmentos de rocha.


Do lado esquerdo, uma longa estrutura de andaimes metálicos com passarelas de madeira estende-se ao longo do recinto, permitindo o trânsito de técnicos e pesquisadores sem pisar no solo arqueológico.


Ao fundo, sob o teto de zinco, destaca-se uma pequena imagem emoldurada fixada no alto, retratando o antigo altar da capela antes da tragédia — um contraste simbólico com a destruição abaixo. Nas laterais do galpão, grandes aberturas revelam claridade e vislumbres da vegetação externa que hoje cresce ao redor do antigo vilarejo.

Após o rompimento da Barragem de Fundão, a Igreja de São Bento ficou completamente destruída - Foto: Lui Pereira/Arquivo Agência Primaz

A preservação da memória das vítimas do rompimento da barragem de Fundão foi assunto da 16ª Reunião Ordinária da Câmara Municipal de Mariana, realizada nesta segunda (18). O centro da discussão foi o Requerimento nº 70/2026, que exige do Executivo detalhes sobre o destino e a aplicação dos R$27 milhões depositados pela Samarco para a construção do Museu dos Territórios Atingidos em Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo.

A Identidade sob a Lama

O debate na Câmara revelou que, para os representantes e para a comunidade, o museu não é apenas uma obra física, mas um acerto de contas com a história. O vereador Ronaldo Bento enfatizou que o espaço precisa de verdade e respeito, lembrando as histórias de vida interrompidas:
 

Não gostaríamos de estar aqui hoje falando de nós termos que colocar algo para que seja visitado de uma tragédia crime que houve no passado, mas infelizmente a gente precisa de alguma forma demonstrar para que aquilo fique em memória

Ronaldo Bento


 

O parlamentar ressaltou ainda a dor imaterial que persiste no território: "A identidade de maioria daquelas pessoas foram soterradas ali com aquela lama", pontuou.

Além da questão emocional, foram levantados entraves técnicos e de infraestrutura. O secretário de governo, Danilo Brito, informou que o recurso de R$27 milhões já está em conta e que o município conduzirá as desapropriações individuais.

Para incentivar a negociação, o município pretende oferecer um acréscimo financeiro: "Será feito a avaliação individual e aí o município ainda vai, dentro do acordo, acrescentar um percentual... eu acredito que é de 50% em cima da avaliação".

Entretanto, a viabilidade do museu depende de segurança e acesso. O antigo Bento Rodrigues está em uma "Zona de Autossalvamento" (ZAS) da nova barragem Santarém 2, o que exige que a mineradora rebaixe o nível de risco para permitir a frequência de turistas.

Outro ponto de discussão foi o acesso ao distrito. O vereador José Sales alertou que, sem estradas adequadas que religuem os distritos de Bento, Camargos e Santa Rita Durão, o museu ficará isolado: "Como é que o pessoal vai chegar lá? Qual segurança que vai ter? Primeiro nós temos que pensar nos acessos", questionou.

Conflitos de projeto

A discussão atual na Câmara ecoa um impasse histórico sobre como as ruínas da Capela de São Bento devem ser protegidas. A discussão se aprofunda sobre os aspectos culturais e monumentais dos locais atingidos.

Um dos projetos sugeridos, da arquiteta Jô Vasconcellos, propunha um "bunker" de concreto misturado aos próprios rejeitos da mineração para envolver o que restou do templo do século XVIII.

Tal proposta gerou revolta na comunidade, sendo vista como uma tentativa de "monumentalizar" o crime ambiental. Mônica dos Santos, integrante da Comissão de Atingidos (CABF), expressou a indignação local:
 

Infelizmente nesses 10 anos o que mais apareceu foi pessoas querendo decidir a nossa vida sem nos ouvir... Esse projeto tinha que ser construído dentro do complexo das empresas ASSASSINAS, principalmente por usarem o próprio rejeito na construção. Cabe lembrar que a comunidade de Bento surgiu anos antes das empresas... por que nossa história tem que ser apagada pra prevalecer a lama?

Mônica dos Santos


 

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Em contrapartida, os atingidos e a assessoria técnica da Cáritas MG defendem o projeto do arquiteto Rodrigo Meniconi, intitulado "Ambiência e Memória". Esta proposta foca na reconstituição da volumetria original da capela utilizando madeira e vidro, permitindo a visualização das ruínas e recuperando o sentido de pertencimento sem privilegiar o símbolo da destruição.

Entretanto, qualquer avanço no sentido de construir um espaço de memória nas comunidades atingidas, passa primeiro pela necessidade de dialogar com a população atingida e pelas negociações sobre projetos e desapropriações, além das obras de infraestrutura viária e de segurança de barragens, o que torna imprevisível qualquer prazo para a conclusão do projeto.

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