Mariana (MG), 19 de julho de 2026 MPJ | Mais Pelo Jornalismo
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Câmara de Ouro Preto pressiona por mudanças na duplicação da BR-356

A imagem mostra a realização da Segunda Reunião da Comissão Especial para acompanhamento das obras na BR-356, ocorrendo no plenário da Câmara Municipal de Ouro Preto. O ambiente une a arquitetura histórica local — com tetos e pisos de madeira, janelas coloniais de moldura azul e móveis robustos entalhados — à modernidade de grandes painéis eletrônicos instalados na parede ao fundo, que exibem o brasão da instituição e cronômetros. No cenário, parlamentares e autoridades aparecem assentados nas bancadas de madeira escura conduzindo os trabalhos, enquanto em primeiro plano, de costas para a câmera, duas mulheres acompanham atentamente a sessão legislativa.

Com diálogo aberto com a população e com os parlamentares de Ouro Preto, a empresa responsável pela duplicação da BR-356 apresentou plano de concessão para os próximos 30 anos. - Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz

Na tarde desta segunda-feira (8), vereadores, representantes do Executivo Municipal, moradores e a concessionária Rota da Liberdade se reuniram no plenário da Câmara Municipal para discutir os impactos e funcionamento da duplicação da rodovia, considerada uma das principais intervenções viárias previstas para a região nos próximos anos.

Embora a empresa tenha apresentado um pacote de investimentos estimado em R$5 bilhões para os próximos 30 anos, a reunião foi marcada por questionamentos sobre desapropriações, cobrança de pedágio e a falta de definições sobre o futuro de famílias e empreendimentos instalados às margens da estrada.

A principal conclusão do encontro foi a de que o projeto ainda precisa ser debatido com a população e com o governo do Estado. Ao final da reunião, ficou definido que uma nova audiência será realizada no final de agosto, quando a concessionária deverá apresentar atualizações dos estudos e ouvir novamente moradores e representantes do poder público.
 

O que está previsto para a BR-356

A Rota da Liberdade assumiu oficialmente a administração do trecho em março deste ano. O lote concedido possui 190 quilômetros de extensão e conecta 11 municípios mineiros: Nova Lima, Rio Acima, Itabirito, Ouro Preto, Mariana, Acaiaca, Barra Longa, Ponte Nova, Urucânia, Piedade de Ponte Nova e Rio Casca.

O empreendimento é uma das primeiras grandes obras financiadas com recursos do Acordo de Repactuação firmado no fim de 2024, após quase 10 anos do rompimento da Barragem de Fundão. O contrato prevê duplicações, terceiras faixas, correções de curvas, construção de acostamentos, passarelas, áreas de escape, bases de atendimento ao usuário e o contorno viário de Cachoeira do Campo. Os locais presentes no acordo são historicamente pontos focais de acidentes rodoviários à décadas na região.
 

Entre as principais intervenções previstas estão:

* 78,7 quilômetros de duplicação entre Nova Lima e Mariana;

* 65,4 quilômetros de acostamentos;

* 40,6 quilômetros de terceiras faixas;

* 22,9 quilômetros de correções geométricas em curvas;

* 11 novas passarelas;

* implantação de quatro pórticos de pedágio eletrônico, incluindo um em Ouro Preto;

* bases de atendimento em Ouro Preto, Mariana e Ponte Nova.
 

As obras de maior impacto estão programadas para começar a partir do terceiro ano da concessão, entre 2028 e 2029.

Durante a apresentação, o diretor institucional da Rota da Liberdade, Marconi Zanon, defendeu a concessão como uma oportunidade para reduzir acidentes e modernizar a infraestrutura rodoviária da região.
 

Estamos aqui para fazer o melhor possível para todas as comunidades envolvidas nesses 190 quilômetros de concessão

Marconi Zanon, diretor da Rota da Liberdade


 

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“Isso faz parte, não vai garrar ninguém não. O que garra é o monte de acidente de trânsito”, Marconi zanon sobre a desapropriação das pessoas que moram à beira da rodovia. - Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz

Segundo ele, a empresa ainda está na fase de estudos e elaboração dos projetos executivos, o que significa que não existe, neste momento, uma definição exata sobre quais imóveis serão atingidos pelas futuras obras.

Desapropriações dominam o debate

Se por um lado a concessionária apresentou números e cronogramas, por outro os vereadores concentraram suas preocupações nas famílias que vivem às margens da BR-356. A Câmara já possui uma comissão especial criada para acompanhar os processos relacionados às desapropriações e à situação dos imóveis localizados na faixa de domínio da rodovia.

Questionado diversas vezes sobre as notificações e decisões judiciais que vêm preocupando moradores de Ouro Preto e Mariana, Zanon afirmou que cada situação será analisada individualmente. “Tudo vai ser negociado. Não vai ser feito de nenhuma forma truculenta ou agressiva com a população. Existe um processo legal para cuidar desse assunto”, declarou.

O diretor reforçou que ainda não há projetos concluídos capazes de indicar exatamente quais áreas serão necessárias para as futuras ampliações da estrada e que “cada caso, é um caso, que terá que ser individualizado judicialmente”. 

Mesmo assim, o tema gerou forte reação entre os parlamentares. O vereador Luiz Gonzaga do Morro (PSB) manifestou preocupação com os impactos sociais da concessão. Já o vereador Mateus Pacheco destacou a necessidade de garantir que os interesses da população estejam acima das demandas técnicas do projeto.

 

“Eu falo o que eu tenho que falar, a minha opinião mesmo. E a preocupação é com a população, estamos aqui pra lutar por ela”, disparou o vereador Luiz Gonzaga. - Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz

Melhorias questionadas

Desde março, a empresa vem realizando serviços de roçada, limpeza, recuperação do pavimento e reforço da sinalização. Entretanto, Vantuir Silva, presidente da Câmara, afirmou que parte dessas ações não dialoga com problemas históricos enfrentados pelos moradores.

Como exemplo, citou a revitalização de sinalizações horizontais em trechos urbanos que, segundo ele, foram refeitas sem diálogo prévio com a comunidade. Para o presidente, a discussão não deve se limitar ao cumprimento contratual das obras, mas incluir o que efetivamente melhora a vida de quem utiliza a rodovia todos os dias.

Segundo ele,  o sentimento que ficou após a apresentação do plano de concessão é de “déficit para a população”. E completou que as pessoas podem acabar convivendo simultaneamente com pedágios, desapropriações e alterações profundas na dinâmica das comunidades sem que os benefícios compensatórios estejam claramente demonstrados.

As obras de reforma que já foram concluídas e apresentadas pela empresa durante a reunião, provocaram desconforto no parlamentar, que, natural de Cachoeira do Campo, afirmou que nem todas obras foram benéficas para a população.

Algumas faixas que foram restauradas, por exemplo, “estavam no lugar errado colocado pela prefeitura, a empresa vai lá e refaz por cima, errado também. Se não tiver uma conversa com a população pra ver o que precisamos, a gente só vai sair perdendo”, disparou. 

 

O presidente da câmara liderou os questionamentos da reunião, seguido pelos vereadores da comissão. - Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz

 

“Não estou dormindo direito”

Seu Vicente, morador e participante assíduo de todas as reuniões acerca da duplicação teme perder a casa, herança há meio século na família. - Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz

As dúvidas discutidas dentro do plenário têm rosto, endereço e história. A poucos quilômetros dali, o aposentado Vicente Cosmo Damião, de 73 anos, vive há meses sob a ameaça de perder a casa onde sua família construiu uma história de cinco décadas. Seu pai morou no imóvel durante dez anos. Depois vieram ele, a esposa, os filhos e os netos. Ao todo, são cerca de 50 anos de vínculo com o local.

Vicente conta que recebeu notificações relacionadas ao processo e chegou a tomar uma decisão extrema. Com medo de uma demolição repentina, desmontou o próprio telhado.

“Eu desmanchei o telhado de medo. Falaram que iam derrubar a casa toda”, relata.

O aposentado afirma possuir documentação do imóvel, pagar IPTU, água e demais tributos regularmente. Mesmo assim, vive em permanente estado de insegurança. 

Como que tira a gente daqui, eu pago tudo direitinho e não resolve nada, né. Enquanto isso, eu não estou dormindo direito, nem alimentando direito. Fico aguardando.

Seu Vicente, morador

 

Sem um projeto definitivo da duplicação apresentado, Vicente diz não entender por que sua propriedade está entre as áreas atingidas pelos processos. “Eles não têm o projeto ainda. Não sabem se a estrada vai passar na minha casa ou mais para frente.A gente fica sem saber o que vai acontecer”, lamentou. 
 

Próximo capítulo

Ao final da reunião, vereadores e representantes da concessionária concordaram que o diálogo precisa continuar. A expectativa é que até o final de agosto a empresa apresente novos avanços dos estudos técnicos, permitindo uma avaliação mais detalhada dos impactos previstos para Ouro Preto e seus distritos.

Enquanto os mapas seguem em elaboração e os projetos ainda são revisados, moradores como Vicente convivem diariamente com uma pergunta sem resposta: quando o progresso chega sem ajuda da comunidade, quem fica pelo caminho?

 

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