Mariana (MG), 19 de julho de 2026 MPJ | Mais Pelo Jornalismo
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Comunidades se unem contra mineração no Itacolomi

Mais de 100 pessoas participaram de reunião em Lavras Novas e questionam licenciamento do Projeto Tesoureiro

Na imagem vemos um grupo numeroso e diversificado de pessoas reunidas em um ambiente interno ou sob uma área coberta com teto de lambris de madeira. O grupo, composto por homens e mulheres de diferentes idades e etnias, está sorridente e posa para a foto em um clima de união e mobilização comunitária ou política. No fundo, algumas pessoas erguem uma grande faixa azul e branca com os dizeres SALVE O ITACOLOMI - Não à mineração, evidenciando o caráter ativista do encontro. Mais ao centro e à esquerda, destaca-se uma bandeira vermelha do movimento MAM (Movimento pela Soberania Popular na Mineração), segurada por integrantes do grupo. Na parte inferior, algumas pessoas aparecem agachadas, e à frente delas há mapas estendidos, um dos quais exibe o título PARQUE ATINGIDO, sugerindo que o encontro envolve o mapeamento ou a discussão de áreas afetadas por atividades minerárias. A iluminação centralizada no teto gera um reflexo difuso sobre as pessoas, capturando a energia de um momento de articulação coletiva.

O evento ficou marcado pela luta do povo e ausência de apoio político.  Foto: Associação Salve o Itacolomi

A possibilidade de instalação de uma mina a poucos quilômetros de Lavras Novas, Saramenha, Chapada, na zona de amortecimento do Parque Estadual do Itacolomi levou mais de 100 pessoas a uma reunião pública realizada na noite de segunda-feira(15), em Lavras Novas. 

O encontro, organizado por movimentos comunitários e entidades ambientais, expôs críticas ao processo de licenciamento do Projeto Tesoureiro, da Rio Manso Mineração Ltda, e foi marcado pela ausência da maioria das autoridades convidadas. Além da Rio Manso, a mineradora BHP também tem projetos de mineração da mesma área, intitulado Projeto Rancharia - Fase 2.

Embora representantes de órgãos públicos, instituições ambientais e parlamentares tenham sido convidados para o debate, apenas o vereador Mateus Pacheco e o secretário municipal de Meio Ambiente de Ouro Preto, Chiquinho de Assis, participaram da reunião. A falta de representantes estaduais e de outros órgãos envolvidos no processo gerou críticas dos participantes.

Ao longo de mais de duas horas de apresentações e debates, pesquisadores da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), moradores e ambientalistas apresentaram uma série de questionamentos sobre os estudos ambientais que embasam o licenciamento do empreendimento e defendem maior participação popular na discussão. O debate avança em reunião na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), marcada para o dia 29 deste mês, às 15 horas.
 

Mina ficaria próxima a patrimônios naturais e históricos

Um dos pontos que mais chamou atenção durante a reunião foi a localização prevista para o empreendimento. Segundo mapas e documentos apresentados pelo Grupo de Pesquisa e Extensão sobre Conflitos em Territórios Atingidos (CONTERRA/UFOP), a área destinada à mineração está localizada a apenas 80 metros da divisa do Parque Estadual do Itacolomi, uma das mais importantes unidades de conservação de Minas Gerais. 

Mapa desenvolvido pelo CONTERRA/UFOP

Os levantamentos mostram que a mina também ficará próxima de patrimônios históricos e culturais inseridos na área protegida. A Capela de São José está a cerca de 680 metros do empreendimento. A Casa Bandeirista aparece a aproximadamente 690 metros e o Museu do Chá a pouco mais de um quilômetro.

O impacto potencial não se restringe ao parque. O empreendimento está inserido em uma região marcada por áreas protegidas, atingindo diretamente a zona de amortecimento do Itacolomi e aproximando-se também da Estação Ecológica do Tripuí e do Monumento Natural Estadual de Itatiaia.

Além disso, a possível mina estaria a cerca de quatro quilômetros de Lavras Novas e do Pico do Itacolomi, a cinco quilômetros de Saramenha e Chapada e a aproximadamente 6,5 quilômetros do centro histórico de Ouro Preto, reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Mundial da Humanidade. Para os pesquisadores e moradores presentes, a localização do projeto é incompatível com a vocação ambiental, turística e cultural da região.
 

Estudo da UFOP aponta falhas no licenciamento 

A apresentação técnica realizada pelo CONTERRA concentrou partes das críticas ao Estudo de Impacto Ambiental e ao Relatório de Impacto Ambiental(EIA/RIMA) elaborados para o empreendimento. Segundo os pesquisadores, os documentos apresentam lacunas consideradas significativas para a avaliação dos impactos reais da mineração. 

Entre os pontos destacados está a exclusão de comunidades como Lavras Novas, Chapada e Santo Antônio do Salto da área de influência do projeto, apesar da proximidade geográfica e da conexão ambiental existente entre esses territórios e a área prevista para exploração mineral. 

Também foi questionado a ausência ou insuficiência de estudos aprofundados sobre patrimônio arqueológico, cavernas, biodiversidade, recursos hídricos, patrimônio cultural e impactos socioeconômicos. Outro aspecto levantado foi a falta de detalhamento sobre possíveis efeitos cumulativos da atividade minerária em uma região já marcada pela presença histórica da mineração e pela pressão sobre os recursos naturais.
 

Nascentes, cachoeiras e cursos d’água preocupam

Os mapas apresentados indicam que a área destinada ao Projeto Tesoureiro abriga diversas nascentes e é atravessada por uma rede de cursos d’água que alimentam importantes sistemas hídricos na região, como o Córrego Belém e dos Prazeres. 

Segundo os pesquisadores da CONTERRA, há nascentes localizadas dentro ou muito próximas da área prevista para a exploração mineral. Os levantamentos apontam ainda conexão direta com corpos hídricos que abastecem ecossistemas protegidos e atrativos naturais como a Cachoeira do Icó e a Cachoeira dos Prazeres e a Represa do Custódio. 

A presidente da Associação de Proteção Ambiental de Ouro Preto (APAOP), Marilda Costa, afirmou que a defesa da água tem sido uma das principais bandeiras do movimento contrário ao empreendimento. “Essa luta é para preservar as nossas vidas e as das futuras gerações”, declarou. 

 

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Mapa desenvolvido pelo CONTERRA/UFOP

O conselheiro do Parque Estadual do Itacolomi, Du Evangelista, também defendeu maior proteção das áreas de recarga hídrica e criticou a demora na atualização da legislação municipal de uso e ocupação do solo. 
 

Turismo e qualidade de vida entram no centro do debate

Além das preocupações ambientais, moradores manifestaram receio quanto aos possíveis impactos sobre a economia local. Lavras Novas tem no turismo sua principal atividade econômica e depende diretamente da preservação da paisagem, das trilhas, das cachoeiras e do patrimônio ambiental que cerca o distrito. 

Os mapas apresentados mostram que o empreendimento está próximo de trilhas utilizadas por visitantes e frequentadores do Parque Estadual do Itacolomi, incluindo rotas que dão acesso ao Pico do Itacolomi, ao Morro do Cachorro e a outros atrativos turísticos da região. 

Durante a reunião, moradores também citaram preocupações relacionadas ao aumento de poeiras, ruídos, circulação de veículos pesados e possíveis reflexos sobre a saúde da população. 
 

Prefeitura é cobrada por falta de transparência

Representando a Prefeitura de Ouro Preto, o secretário municipal de Meio Ambiente, Chiquinho de Assis, informou que o município negou, em agosto de 2025, a certidão de regularidade solicitada pela empresa. Segundo ele, a decisão teve como base um decreto municipal que restringe a circulação de veículos pesados na região de Saramenha.

O secretário também destacou que o Conselho Consultivo do Parque Estadual do Itacolomi já emitiu parecer contrário ao empreendimento e afirmou que a Prefeitura defenderá a ampliação da área protegida do parque durante audiência pública que será realizada na Assembleia Legislativa de Minas Gerais. As explicações, entretanto, não impediram críticas dos moradores.

Diversos participantes questionaram o fato de a população ter tomado conhecimento mais amplo do projeto apenas recentemente, embora o processo de licenciamento esteja em andamento há mais de um ano. Segundo moradores, a falta de divulgação sobre o avanço do licenciamento permitiu que etapas importantes fossem concluídas sem debate público efetivo.

Entre as críticas apresentadas durante o encontro está a perda do prazo para solicitar uma audiência pública específica com a presença da empresa responsável pelo projeto, considerada pelos participantes uma oportunidade importante para esclarecimentos técnicos.

Também foram levantadas preocupações sobre discussões envolvendo possíveis rotas alternativas para o transporte de minério, incluindo uma eventual nova ligação viária próxima ao bairro Tavares, em Saramenha.
 

Mapa desenvolvido pelo CONTERRA/UFOP

Mobilização segue para audiência na ALMG

Ao final da reunião, o Movimento Salve o Itacolomi anunciou que concentrará esforços na mobilização para a audiência pública marcada para o próximo dia 29 de junho, na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, em Belo Horizonte. A expectativa é reunir moradores de comunidades potencialmente atingidas, pesquisadores, ambientalistas e representantes do poder público para ampliar a discussão sobre os impactos do Projeto Tesoureiro.

Para a ambientalista Maria Cláudia de Freitas Vanucci, da APAOP, a reunião demonstrou o fortalecimento da mobilização regional em torno da defesa do Parque Estadual do Itacolomi e de seu entorno. “Achei muito positiva. Iremos desta reunião agora para uma audiência na Assembleia Legislativa no dia 29. O movimento está criando força entre as comunidades e agentes ambientalistas”, afirmou.

Segundo ela, o movimento também convidou a Prefeitura de Mariana para participar do debate. “Convidamos o secretário de Meio Ambiente de Mariana e esperamos que ele compareça, porque grande parte do Parque do Itacolomi está localizada em território marianense”, destacou.

A expectativa dos organizadores é ampliar a participação de representantes dos dois municípios, além de pesquisadores, órgãos ambientais e moradores das comunidades potencialmente atingidas pelo empreendimento.

 

 

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