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Concessão de título a Camilo Santana gera crise e divide opiniões na UFOP

Entidades criticam indicação do ex-ministro para Doutor Honoris Causa. Decisão será tomada pelo Cuni nesta quinta (30)

Fotografia em plano médio mostrando dois homens conversando em um ambiente interno movimentado. À esquerda, um homem de pele parda, cabelos pretos curtos e cacheados e barba cheia, veste uma camisa polo vermelha. Ele está com a boca aberta, com uma expressão de surpresa ou fala enfática, olhando para o homem à direita. O segundo homem, visto de perfil, tem pele clara e cabelos escuros com fios grisalhos; ele veste uma camisa social branca por baixo de um paletó ou blazer escuro. Ao fundo, de forma levemente desfocada, aparecem outras pessoas e luzes de teto de um espaço público ou comercial.

Camilo Santana enfrenta cobrança por posicionamentos em negligência à educação nacional desde o seu mandato no Ceará - Foto: Reprodução/SINASEFE

A proposta de concessão de título de Doutor Honoris Causa ao ex-ministro da educação, Camilo Santana desencadeou uma crise institucional na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e expôs tensões entre a administração da universidade e entidades representativas da comunidade acadêmica. A decisão final será deliberada pelo Conselho Universitário (Cuni), que se reúne nesta quinta-feira (30), às 14h, para apreciar o mérito da proposta.

Na última terça-feira (28), ASSUFOP, ADUFOP e o DCE UFOP divulgaram uma nota conjunta de repúdio à indicação, classificando a possível concessão como “um equívoco institucional” e “um acinte à memória das lutas em defesa da educação”.
 

Críticas à trajetória e à gestão

Na nota, as entidades contestam a atuação de Camilo Santana enquanto governador do Ceará, apontando conflitos com docentes das universidades estaduais e o não cumprimento de acordos firmados com a categoria. Entre os episódios citados, estão uma greve de quase cinco meses em instituições como a Universidade Estadual do Ceará (UECE) e a Universidade Estadual Vale do Acaraú em 2016, além de cortes orçamentários e medidas que teriam impactado carreiras docentes.

Já no período à frente do Ministério da Educação, as críticas se concentram na condução das negociações com servidores federais. Segundo as entidades, houve “morosidade e negligência” no cumprimento de acordos firmados após a greve de 2024, com pautas como o Reconhecimento de Saberes e Competências (RSC) sendo, segundo os sindicatos parcialmente descaracterizadas.

Também são mencionadas críticas à manutenção de normativas consideradas prejudiciais à autonomia docente, como a Portaria 983/2020, que estabelece diretrizes complementares à Portaria nº 554, de 20 de junho de 2013, para a regulamentação das atividades docentes, no âmbito da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica.  além de questionamentos sobre a relação do MEC com setores privados da educação.
 

Falta de transparência e resposta incompleta

A reportagem solicitou esclarecimentos à UFOP sobre os critérios da indicação, o processo interno e a eventual consulta à comunidade acadêmica. Em resposta, a assessoria da universidade informou que a concessão de títulos honoríficos é competência do Cuni e que a proposta foi apresentada por seis conselheiros, seguindo o regimento institucional. 

No entanto, a universidade não respondeu diretamente a pontos centrais do questionamento, como a existência de debate prévio com docentes, técnicos e estudantes, nem comentou as críticas realizadas pelas entidades. Também não esclareceu se há possibilidade de revisão da indicação diante da repercussão negativa.

Em resposta, a UFOP afirmou apenas que “o debate público e as manifestações da comunidade acadêmica contribuem para o fortalecimento institucional”.
 

Debate sobre o sentido da honraria 

O título de Doutor Honoris Causa é a mais alta distinção concedida por universidades e costuma ser reservado a personalidades com contribuições reconhecidas à ciência, cultura ou educação.

Rufo Herrera, músico, compositor, bandoneonista é ex-professor do Departamento de Música da UFOP (DEMUS), e recebeu o título de doutor honoris causa da universidade em 2005.

O músico também foi homenageado em 2023 pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais, pelos seus 90 anos e destacada obra musical. Marcado pela criação da Orquestra Experimental de Ouro Preto, atual Orquestra Ouro Preto, Rufo foi agraciado com o mérito de  Cidadão Honorário pela Câmara Municipal de Ouro Preto no mesmo ano.

Rufo Herrera construiu sua carreira desde os anos 60 na cidade de Ouro Preto, é vencedor de diversos prêmios por composições de trilhas sonoras para teatro e cinema, além de ter recebido diversos prêmios musicais, como o Grammy Latino pelo álbum Latinidade (2015).

Para as entidades que se posicionaram contra a indicação de Santana, a trajetória recente de Camilo não segue a mesma lógica de prestígio e importância nacional embutida nos critérios que contemplam o título. “Não há o que homenagear em uma gestão que ignora a crise estrutural das universidades federais”, afirmam. 

Além das críticas ao nome indicado, também há questionamentos sobre o próprio processo. Integrantes da comunidade acadêmica relatam que a proposta não teria sido amplamente debatida nos institutos e escolas da universidade antes de ser encaminhada ao conselho.
 

Expectativa para a decisão

A reunião do Cuni ocorre em meio a um cenário de mobilização popular e pressão interna. “Vergonhosa essa indicação” “SOCORRO! Que bizarro”, foram alguns dos comentários presentes na nota publicada via rede social. Com posicionamentos públicos já estabelecidos na região, a decisão desta quinta-feira tende a aprofundar o debate sobre critérios de concessão de honrarias e participação da comunidade acadêmica nos processos decisórios.

A 392º reunião do CUNI, onde a indicação será deliberada, será transmitida a partir das 14h desta quinta (30) através do link:
 

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