O cheiro do queijo artesanal dividia espaço com o perfume das geleias recém-preparadas e do doce de laranja cristalizada. Enquanto crianças corriam pela Praça de Lazer do bairro Cabeças, moradores, turistas e famílias circulavam entre barracas de artesanato, cerveja artesanal e comidas típicas.
Ao fundo, o choro, o groove, o samba e a MPB se revezavam no palco. Foi assim que o Festival Conexão Cultural estreou, nos dias 27 e 28 de junho, transformando a Área de Lazer no bairro Cabeças, um espaço pouco utilizado para grandes eventos, em um ponto de encontro entre artistas, produtores e a comunidade de Ouro Preto.
A diferença da conexão
O diferencial da primeira edição foi justamente conectar diferentes linguagens. A programação reuniu apresentações musicais, DJs, teatro, feira de gastronomia e artesanato e as cozinhas-show, aproximando produtores da sede e dos distritos em um mesmo espaço. São Bartolomeu, Santo Antônio do Leite, Amarantina e Glaura dividiram protagonismo com artistas da cidade em um evento gratuito pensado para valorizar quem produz cultura durante todo o ano.
O público também aprovou a iniciativa. O servidor público Daniel Magalhães destacou que o bairro ganhou vida com o festival. "Esse espaço é muito subutilizado. É enorme, tem infraestrutura e ficou muito legal ocupado dessa forma.", comemora.
Cultura também se faz nas mãos
Na feira de artesanato, cada barraca carregava uma história. A ceramista Ilka Harry, formada em Artes Plásticas pela Escola de Belas Artes da UFMG, vê na cerâmica uma linguagem artística, mas também uma possibilidade de viver da própria produção.
Mais do que vender, Ouro Preto precisa desses espaços. É importante sair de casa, encontrar pessoas, ouvir música, comer bem. A cidade precisa viver esses momentos.

Ao lado dela estava a ex-aluna e hoje, professora de cerâmica, Adrisda, que encontrou na cerâmica um contraponto à rotina acadêmica exaustiva. Formada em Ciência dos Alimentos, ela conta que o contato com o barro mudou completamente sua trajetória. "A cerâmica me conquistou pelo processo, pelo trabalho manual e eu fiquei muito feliz com o convite do festival, a gente precisa desses espaços para expor, pra gente vir curtir a rua com todo mundo", destacou a artista.


Direto do distrito de Amarantina, a bordadeira Renata levou trabalhos produzidos ao longo de uma década de dedicação."É uma forma de mostrar que também existe produção cultural nos distritos", afirmou a amarantinense, que não se limitou ao próprio trabalho e reuniu na barraca peças maravilhosas de uma artista do bairro Cabeças e de duas bordadeiras da FAOP.


Representando Santo Antônio do Leite, Taís Castanheira reuniu joias produzidas por diversos artistas da região. Para ela, realizar o festival no bairro Cabeças foi uma escolha simbólica. "Um espaço lindo desse, não pode deixar tudo concentrado apenas no Centro Histórico.", afirmou.


Sabores que contam histórias



Na Cozinha Show, tradição e memória dividiram o mesmo fogão. Moradora de São Bartolomeu há mais de quatro décadas, Vovó Pia preparou ao vivo a tradicional casquinha de laranja cristalizada, receita herdada da cultura portuguesa.
Mais do que ensinar o preparo, ela apresentou um modo de vida construído em torno das frutas dos quintais.
Cada época do ano tem um cheiro diferente. Então, fevereiro, março é a goiabada, aí só vê cheiro de goiaba. Depois em junho, julho, vem as laranjas, as mexericas, os limões, os cítricos. Depois, vem jabuticaba, outubro, aí depois vem pêssego, aí vem o figo e assim eu vou o tempo todo, transformando as frutas em geleias, doces, licores deliciosos
Para ela, o maior mérito do festival foi reunir os distritos em um mesmo espaço. "São Bartolomeu, Santo Antônio do Leite, Amarantina, Glaura...são os distritos mostrando a cara em Ouro Preto. Isso é lindo."


Música que nasce da cidade
Quem chamou atenção na programação musical foi o Trio Choro Negro.

Formado por Danilo Campos (Violão 7 cordas), Tiago Couto (Sax e Flauta) e Diovane Inácio (Pandeiro), o grupo vem construindo uma trajetória marcada pelo choro autoral e pela valorização da música instrumental brasileira.
Durante a apresentação, o trio encontrou um público atento e receptivo."A música mais instrumental às vezes parece distante, mas basta começar a tocar para as pessoas perceberem que aquilo faz parte da identidade brasileira", resume Danilo.
O grupo vive um momento importante da carreira com o lançamento do primeiro disco autoral e prepara a apresentação do trabalho na Casa da Ópera no próximo dia 4. Paralelamente, segue com o projeto Choro nos Morros, que leva apresentações para bairros e periferias de Ouro Preto.
O trio rasgou elogios ao Conexão Cultural, mas deixaram claro que tudo só foi possível graças à produção exímia do evento, realizado pelas produtoras locais contratadas da Ireni Eventos. Quando as mulheres botam a mão na massa para fazer a produção de evento assim, a coisa acontece muito mais seguro, muito mais confortável pra gente artista.", destacou Diovane.
Silvia Gomes faz do samba um reencontro com as próprias raízes


Foi ao som contagiante do Groove de Vinil que encontrei Silvia Gomes nos bastidores do Festival Conexão Cultural. Enquanto o público ocupava a Vila Rica e a música preenchia cada canto do espaço, a cantora falou com calma sobre uma trajetória construída muito antes de assumir o samba como caminho definitivo. Atriz, pesquisadora, intérprete e uma das vozes mais marcantes da cena cultural da Região dos Inconfidentes, Silvia entende a música como resultado de uma vida inteira dedicada à arte.
Natural de Itabirito e criada em Cachoeira do Campo, ela costuma dizer que a arte a encontrou ainda na infância. Aos 11 anos, estudando em um colégio de freiras, teve a sorte de cruzar o caminho da irmã Eunice Grossi, atriz que abandonou os palcos para a vida religiosa, mas nunca deixou de formar artistas. Foi com ela que Silvia teve contato com montagens teatrais, textos clássicos e nomes fundamentais da literatura brasileira.
Esse momento foi crucial. Foi quando eu comecei a entender a conexão com a arte, o respeito por ela e tudo o que ela pode entregar quando a gente está a serviço dela.
A vocação cresceu junto com ela. Aos 18 anos ingressou no curso técnico de Formação de Atores da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), mergulhando também na dança e no teatro de rua. Durante os 18 anos em que viveu em Belo Horizonte, ampliou parcerias artísticas e consolidou uma carreira voltada à música popular brasileira, ainda sem perceber que o samba já fazia parte de sua identidade.
Grande parte dessa construção passou pelo encontro com o compositor Mestre Jonas, artista da Favela da Serra, em Belo Horizonte. Durante uma década, os dois dividiram palco, gravações, turnês e uma amizade que Silvia descreve como "profunda e sagrada". Mas mesmo interpretando suas composições, ela ainda resistia a se reconhecer como sambista.
O samba já me chamava fazia tempo, mas eu não conseguia assumir. Eu ia participar de uma roda e cantava ajoelhada. Parecia até uma cena, mas era porque minhas pernas perdiam a força. O samba é muito poderoso
A virada aconteceu em 2009, quando recebeu o convite para abrir o projeto Sambaqui, realizado no Conservatório da UFMG. A princípio recusou, dizendo que não cantava samba. A resposta da produção mudou completamente sua percepção. “'Como assim você não canta samba? Você canta a obra do Jonas.' Foi ali que eu percebi que já estava fazendo samba há muito tempo. Depois disso, eu nunca mais deixei o samba. E o samba também nunca mais me deixou."
Sua ligação com Ouro Preto também ganhou força através do Candongueiro, grupo do qual participou entre 2007 e 2011. Foi nesse período que aprofundou o contato com compositores históricos da cidade, como Seu Valter das Latinhas, Vandico e Vicente Gomes, ampliando sua relação com o patrimônio musical da região.
Hoje, Silvia segue carreira solo dedicada ao samba, equilibrando repertório autoral, obras inéditas e clássicos do gênero. Entre os próximos projetos está a gravação de um álbum inteiramente dedicado à obra de Mestre Jonas, do qual se considera a principal intérprete.
"Ele deixou uma obra linda e eu sigo honrando esse legado. A música está pronta. O que falta agora é encontrar os caminhos para transformar esse projeto em realidade.", Silvia Gomes
Mesmo olhando para o futuro, Silvia fala da própria caminhada como um processo permanente de descoberta. "Às vezes eu penso que a gente precisava nascer e renascer umas quinze vezes para conseguir conhecer o samba de verdade."
A cantora estreou no festival no domingo, onde segundo ela, a “dona música” conduziu o público, com muita homenagem ao samba e um repertório autoral que cantando em casa destacou, “é bom demais cantar aqui, o público já me conhece das rodas de samba e cantam junto, é lindo demais”.
Ela terminou dizendo que o festival veio para “provar que Ouro Preto tem total condição de ter um evento, um festival com a cena local. Teve choro, vai ter samba, groove de vinil incrível, Laura Catarina maravilhosa, vindo coroar e presentear o evento com esse show lindo com a obra do pai dela. Os DJs, então… é muito importante, porque realmente, a conexão cultural está acontecendo.
Laura Catarina encerra um ciclo

Se Silvia Gomes representa o samba que nasce das vivências e dos encontros, Laura Catarina sobe ao palco carregando uma história que atravessa gerações da música mineira. Filha do cantor e compositor Vander Lee, ela chega ao Festival Conexão Cultural em um momento decisivo da carreira: dez anos após a morte do pai, encerra um ciclo de homenagens para ampliar o espaço à própria voz. Depois de anos dedicados ao tributo, prepara o lançamento de "Virei Areia", primeiro álbum totalmente autoral, previsto para 2027.
"Estou me despedindo desse projeto de homenagem para dedicar minha energia ao meu trabalho autoral." Mesmo iniciando um novo capítulo, Laura afirma que cantar Vander Lee continua sendo uma forma de manter viva uma obra que atravessa gerações
Um sonho de festival

O festival chegou para balançar as estruturas da Vila Rica, prometeu e cumpriu a premissa de ser um espaço para todos os gostos e idades. A DJ Viviane Barcelos, que movimentou a Área de Lazer no sábado, relembrou de um momento específico que afirma ser o motivo de amar tanto trabalhar com música.
“Eu tava lá tocando e passou uma criança assim, que parecia ter uns 6, 7 anos me pedindo pra tocar Michael Jackson e eu amei. Eu amo Michael Jackson e amo mais ainda as crianças que gostam. E é sobre isso, você tocar uma música e as pessoas se identificarem, gostarem e ser um momento ali de lazer”, contou a artista.
Ela que aflorou o set de brasilidades no Festival colaborou com a ideia inicial do evento, de deixar um legado da importância da ocupação de espaços públicos e potencializar Ouro Preto como endereço permanente do acesso à cultura, mas que não fica centralizado não, vai do número 35400-001 a 35407-899.


