Foi entrando noite adentro que as ladeiras de Ouro Preto começaram a ganhar cor nessa quarta-feira(3). Sacos de serragem tingida se espalhavam pelas calçadas, crianças corriam de um lado para o outro atrás do tom exato para completar um desenho, estudantes se abaixavam sobre o chão para preencher os contornos e turistas observavam e participavam, encantados, com uma tradição que há séculos transforma as ruas de Ouro Preto em um grande mosaico de fé, arte e encontro.
A confecção dos tapetes devocionais para o Corpus Christi reuniu moradores, visitantes, estudantes universitários e fiéis em uma verdadeira celebração comunitária. Entre um punhado de serragem e outro, o clima era de alegria compartilhada. Havia quem trabalhasse concentrado nos detalhes dos desenhos, quem registrasse tudo e quem simplesmente parasse para admirar o trabalho coletivo que, por algumas horas, transforma a cidade histórica.

Entre o tapete, o caminho e a história
Os tapetes guiam os fiéis pelo trajeto da procissão de Corpus Christi, tradição que em Ouro Preto remonta ao século XVIII. Sua origem está ligada à Procissão do Triunfo Eucarístico, realizada em 1733, durante a trasladação do Santíssimo Sacramento da Igreja de Nossa Senhora do Rosário para a então recém-inaugurada Matriz de Nossa Senhora do Pilar. Resgatada na década de 1970 pela Fundação de Arte de Ouro Preto (Faop), a prática permanece viva graças ao envolvimento da comunidade.
Neste ano, porém, alguns moradores perceberam uma diferença. Com a alteração do percurso da procissão, que deixou de passar pelo tradicional eixo central da cidade, algumas ruas registraram menor concentração de participantes na montagem dos tapetes. Ainda assim, a mudança não diminuiu o entusiasmo de quem decidiu ocupar as ladeiras com desenhos religiosos, símbolos e mensagens de esperança.
Ouro Preto como símbolo de cultura
Entre os participantes estava o empresário cearense Caio Martins, que atravessou o país para viver mais uma vez a experiência ouropretana. “Eu tenho hiperfoco em Minas, na cultura, nas igrejas, nas histórias. Gosto muito de arquitetura e consumo muito esse conteúdo. Me organizei, tirei alguns dias de férias para conseguir viver esse momento aqui”, contou.
Apaixonado pela cidade desde sua primeira visita, em 2023, Caio afirma que retornar durante o Corpus Christi é mais que um desejo, mas um sonho antigo de ver essa tradição sendo preservada.
Essa cidade é mágica para mim. É um dos meus lugares preferidos do mundo. Tem que manter isso aqui vivo. É patrimônio histórico da humanidade e, enquanto cidadãos que gostamos disso, precisamos incentivar. E o melhor incentivo é estar aqui, viver isso.

Se alguns vieram de longe para participar, outros enxergaram nos tapetes uma oportunidade de registrar e compartilhar a riqueza cultural mineira. É o caso do fotógrafo Maicon Bucater, morador de Olaria, município da Zona da Mata com cerca de dois mil habitantes.
Ele percorre cidades históricas de Minas Gerais reunindo imagens para um projeto fotográfico que pretende levar mais da cultura mineira para comunidades rurais de sua região, de forma gratuita.
“Lá o foco é muito a agropecuária. As pessoas trabalham muito, não têm tanto acesso a essas manifestações culturais, ao lazer, não têm tempo. A ideia é mostrar que existe um mundo além, para quando forem em um posto de saúde, no dentista, enxergarem um pouquinho de um mundo além do trabalho. É vida, cultura, gastronomia, dança, tudo”, explicou.

Depois de passar por cidades como Diamantina, Milho Verde, São Gonçalo do Rio das Pedras e Mariana, ele chegou a Ouro Preto para registrar mais um capítulo dessa viagem.
Fotografia tem essa magia de levar outras histórias para as pessoas. Foi isso que me trouxe aqui.
A criança e o mundo

E não é apenas de adultos e gente grande que se fazem os tapetes não. A pequena ginasta Fernanda Santana Moreira, de 11 anos, percorria as ladeiras atrás das cores necessárias para completar os tapetes. Entre uma tarefa e outra, completava o desenho, que mesmo sem moldes ia ficando lindo, porque para Fernanda imaginação e criatividade viraram praticamente sobrenomes. “É nota 10 isso aqui. É muito legal, muito relaxante. Eu to amando”, resumiu a atleta.

Veterana na tradição, ela participava pela segunda vez da confecção dos tapetes.“A primeira vez eu fiz com minhas amigas da ginástica, lá na Rua São José, é sempre muito divertido.”
A movimentação também chamou a atenção de visitantes de diferentes partes do Brasil e do mundo. Vinda de Belo Horizonte, mas atualmente morando nos Estados Unidos, Celinha Martins decidiu incluir Ouro Preto em sua passagem pelo país justamente para acompanhar a celebração.
Queria um lugar pra celebrar essa data, que particularmente é a minha favorita. Aí eu pensei: Ouro Preto tem uma das melhores decorações. Vou para lá
Entre os estrangeiros que circulavam pela cidade estava também a holandesa Francisca Werdum, em sua primeira visita ao Brasil. Hospedada em Ouro Preto havia apenas dois dias, ela dizia estar seguindo uma jornada guiada pela fé e que Deus à trouxe para Ouro Preto. “Não planejei, mas senti que precisava vir pra cá. Sou guiada por Deus para onde eu vou”, afirmou.
Apesar da barreira linguística, Francisca não se intimidou nem um pouco por não falar português e, tendo conhecido Bento Rodrigues no dia anterior, deixou a sua mensagem de solidariedade que leva a todo lugar que visita.
Todos nós podemos levar amor para onde formos. Hoje é tão fácil continuar vivendo e não olhar para essas tragédias, mas trazer amor é o mais importante. Eu sou uma turista do amor

A tradição também capturou estudantes que vivem a rotina universitária da cidade. Para Laura Evelyn, estudante de Farmácia, os tapetes representam um dos momentos em que Ouro Preto reafirma sua identidade coletiva. “Essa cultura une muito as pessoas que moram aqui porque é muito forte na cidade. Aqui vão ter muitas pessoas que nem são católicas participando.”
A colega Rania Ávila, natural do interior de Minas Gerais, concorda. “A gente acompanha muito a Igreja daqui e Ouro Preto tem essa história. É muito legal fazer parte”, comentou a estudante.
Já para a futura farmacêutica Camile Vitória, a alteração do percurso não desanimou em nada, pelo contrário, trouxe uma oportunidade de ampliar a participação popular. “Eu acho legal porque passa em mais ruas. Diferentes bairros conseguem ver e participar”, pontuou.

Ao longo da madrugada, a cidade seguiu preenchendo seus desenhos. O frio do sereno se misturava à serragem colorida, grupos dividiam ferramentas e materiais, turistas faziam perguntas, moradores ofereciam ajuda. Crianças subiam e desciam as ladeiras em busca de uma cor específica enquanto novos participantes eram naturalmente incorporados aos trabalhos.
Mais do que uma manifestação religiosa, os tapetes devocionais mostraram, mais uma vez, sua principal força: a capacidade de reunir pessoas que talvez nunca se encontrassem em outro contexto. Entre moradores antigos, estudantes recém-chegados, visitantes brasileiros e estrangeiros, a tradição transformou as ruas de Ouro Preto em um espaço de convivência, memória e pertencimento, uma obra coletiva construída por muitas mãos e por histórias vindas de diferentes lugares, mas que por algumas horas passaram a compartilhar o mesmo caminho.



