Mariana (MG), 5 de setembro de 2026 MPJ | Mais Pelo Jornalismo
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Dentro do silêncio

Os textos publicados na seção “Colunistas” não refletem as posições da Agência Primaz de Comunicação, exceto quando indicados como “Editoriais”

Calçada molhada pela chuva, com poças d’água refletindo o ambiente e dois sapatos pretos parcialmente visíveis no canto superior direito

Foto: Beyzaa Yurtkuran/Pexel

Leia o texto, ou ouça o áudio da coluna de Giseli Barros:

Na sequência dos acontecimentos, perdeu a chegada e a partida. Foi assim, bem assim mesmo, numa tarde quente, abafada, quase sufocante. A casa era pequena e igual às demais dali. Ouviu um grito. Talvez, nem tivesse sido um grito. Com as paredes tão finas, não era preciso esforço para que qualquer pessoa fosse ouvida. Com o mínimo de exaltação, até os vizinhos mais próximos participavam parcialmente da conversa. Naquele dia, porém, somente ela ouviu. Invadida pelo interesse de saber o que ocorria no quarto alheio, lutava sozinha e inutilmente. Considerou que ninguém percebesse a sua presença. Estática e atenta, engoliu o silêncio e o tempo. “Tola”, pensou, porque, quando a porta foi aberta, pesados passos atravessaram a sala. Um porta-retrato ficou no chão. 

Foi assim. Foi assim mesmo. Alcançava o sucedido com nitidez. Em algumas situações, vinha-lhe um gosto indefinido na boca. Incontrolável desconforto. Fechava os olhos e respirava de forma ritmada. Buscava, no fundo de uma memória qualquer, alguma doçura. Insistia mais um pouco. Quando a estratégia funcionava, nada dizia. Somente a sensação de alívio. Havia, aqui e ali, no entremeio da existência, um descompasso entre o ritmo da inspiração e o alcance da memória. A primeira vez foi na escola. Insistiu. Nada. Abriu os olhos e todos riam. Nenhuma chance de correr. Entre cochichos e expressões de escárnio, a professora mandou que fosse ao banheiro se limpar. Alguém sugeriu que fosse melhor voltar no outro dia com um babador. Nem sabe como pôde suportar o retorno para a sala inimiga. A camisa manchada a incriminava. Sem a menor possibilidade de disfarce, evitava como podia os olhos da líder. Só queria fugir. Aprendeu a lidar com apelidos. Sem par, mas grupos forçados. Esforços imensos. Forjou algumas táticas. O atraso era sempre pior, pois atraía a reprovação alheia. Chegava antecipadamente em qualquer lugar. Treinou a altura do som e a intensidade, controlando a voz. Se alguém a tivesse notado, perceberia o contraste entre a doçura e a força, entre a delicadeza e a brutalidade da vida. No entanto, dissolvia-se. Como incômoda presença, adaptou-se à invisibilidade. 

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Contudo, houve um tempo em que lhe ocorreu uma espécie de audácia. Arriscava um bom dia na chegada. Outras vezes, escolhia o dia para passear entre as araras de uma grande loja popular. Gostava dos dias mais barulhentos e movimentados. Observava a cena com toda atenção. E, assim que notava uma funcionária mais solícita, depois de um atendimento a uma mãe com crianças em altas algazarras ou em choros intermináveis, forjava um sorriso discreto e perguntava sobre uma promoção qualquer. Satisfeita, voltava para casa com a compra necessária. O espelho devolvia, então, o carinho da malha que cobria o corpo franzino. Gostava também dos dias movimentados na praça central da cidade. Ali, já exigia maior cautela. De casa, saía sozinha. Um corpo quase inerte jazia entre as finas paredes. Acostumou-se a falar do dia, das coisas afins de... Então, passava as mãos pelos cabelos e pelo vestido comprado na véspera. Tomaria um sorvete, talvez ousaria a sala de cinema. Prestava atenção na fila que se formava e até concordava com as opiniões e conjecturas anteriores à sessão. Fazia, assim, um leve movimento de concordância com a cabeça. Por fim, encontrava o seu lugar no silêncio da sala escura. Era um momento agradável. 

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Certa vez, sabendo da previsão de forte chuva, acordou mais cedo. Chegou ao trabalho antecipadamente. Lembrava-se do dia em que duas colegas comentavam na cozinha sobre a morrinha que vinha dela, depois de ter chegado um pouco molhada. Correu ao banheiro e examinou a si mesma de forma cautelosa. Não identificava o que havia de errado. Pensava na escola. Precisou controlar a respiração e buscar qualquer melhor lembrança que a retirasse dali. Nada. Somente o vazio. A boca não suportaria por mais um segundo e explodiria como uma cascata. Precisou voltar para casa mais cedo. Atenta, refez os seus cálculos. Agora, ao final do expediente, depois de transcorrido tudo com segurança, realizava um leve aceno com a cabeça para sair. Muita chuva caía, mas já não se importava com isso. Atravessou a rua. O ponto de ônibus lotado. As pessoas tentavam algum tipo de proteção. Sombrinhas e guarda-chuvas disputavam espaço. Vez ou outra, um carro afoito provocava uma onda que logo acertava os mais desprevenidos da calçada. E, assim, desse jeito mesmo, bem no meio da confusão dos passantes e do trânsito, reclamou da roupa encharcada, da sombrinha gasta, ainda que usável, intrometendo-se na conversa acalorada da plateia. No ônibus, ainda ouvia as pessoas falando da tempestade, da dificuldade de retornar para casa, do filho que estava na escola, do acidente que alongava ainda mais a via pública, do clima que ninguém mais previa, do preço da gasolina, da passagem e do gás. E era verdade. Tudo estava para a hora da morte. Uma sacolinha no mercado custava uma fortuna. A mulher ao lado comentava com a certeza das coisas. Ela, então, também falou. Falou baixinho, mas não foi compreendida. Mediu, pois, a intensidade da voz. Não virou completamente o rosto para quem dividia ali o assento com ela dentro daquela grande massa metálica que as conduzia para um lugar qualquer. Recebeu um sim. Continuou a análise. A mulher, calada, olhava através do vidro. Enquanto isso, animada, não percebeu que já falava para si mesma. 

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Protegida entre as finas paredes da casa, tentava contar do dia, da forte chuva, do trabalho, dos preços e da moça do ônibus. Também pedia para que a outra tivesse cuidado, que se protegesse bem nos momentos de sua ausência. Ao mesmo tempo, abria as poucas janelas, endireitava um ou outro móvel e agradecia a comida feita. Até animava-se com isso. Pensava sobre um esforço que talvez fosse maior que o dela. Sentavam-se no mesmo sofá. Olhavam, sem querer, para o mesmo porta-retrato. Distraidamente, arriscou uma canção pueril de tempos remotos. Nem reparou nos olhos que pousaram nela. Sentindo que o vento chegava muito úmido, levantou-se para cerrar o dia. Conferiu a previsão para as horas seguintes. Realizou os ajustes de que precisava. Mirou a outra, inclinando levemente a cabeça e tocando-lhe nas mãos. A manhã seguinte chegaria logo. “Boa noite”, ela disse. “Boa noite, filha.”, recebeu como resposta.

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