Quem passou pela Sala de Vidro da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) durante a abertura da exposição “Dos Laboratórios às Coleções: uma viagem pela ciência na UFOP” encontrou um espaço diferente do habitual. A sala estava cheia, com estudantes de diferentes cursos, museólogos, professores e integrantes da comunidade universitária reunidos para conhecer de perto parte dos acervos científicos, históricos e culturais da instituição.
Entre a visita às peças e a conversa entre os participantes, a abertura também marcou o início de um projeto que pretende fazer justamente o contrário do que costuma acontecer com muitas coleções universitárias: tirar os objetos dos bastidores e colocá-los em circulação.
A exposição reúne peças de diferentes museus, coleções e laboratórios didáticos da UFOP. São seis módulos temáticos que apresentam um recorte de um acervo muito maior. Em vez de tentar colocar tudo em exposição, a curadoria escolheu uma peça de cada coleção participante e criou conexões entre áreas distintas do conhecimento.
Um dos exemplos está no diálogo entre a coleção de minerais e o Museu da Farmácia. A proposta é mostrar uma relação que nem sempre é percebida pelo público: a produção de medicamentos também tem os minerais como parte de sua história.
Também fazem parte do circuito materiais do Herbário, da Zoologia, da Paleontologia, coleções fotográficas e documentos do Arquivo Histórico. A ideia, segundo o curador Edson Fialho de Rezende, é justamente fazer com que essas coleções conversem entre si e, ao mesmo tempo, estabelecer uma aproximação maior entre universidade e sociedade.
Edson explica que a Rede de Museus e Acervos da UFOP, criada em 2020, já discutia formas de dar maior visibilidade às coleções da universidade. Muitas delas permanecem vinculadas às áreas específicas em que foram produzidas e acabam conhecidas apenas por pesquisadores, professores e estudantes daquele campo.
As coleções dentro dos seus laboratórios, às vezes elas falam somente pro seu grupo (...) sendo que ela tem muito a dizer (...) não só para a universidade como toda, mas para toda a sociedade.

Mais do que uma exposição, a proposta nasceu como um projeto de circulação. Depois de permanecer aproximadamente um mês na Sala de Vidro, no campus Morro do Cruzeiro, a estrutura deve passar por outros espaços de Ouro Preto e, posteriormente, seguir para cidades onde a UFOP está presente, como Mariana, João Monlevade e Ipatinga.
E a ideia é que a exposição não fique restrita aos espaços tradicionais da universidade. A equipe pretende levá-la também para escolas, prefeituras, rodoviárias, centros de saúde, distritos e outros locais de circulação pública. Para isso, os textos curatoriais foram pensados em uma linguagem simples e acessível, justamente para aproximar a ciência de quem não necessariamente faz parte do ambiente acadêmico.
A circulação está prevista para acontecer ao longo de 2026, 2027 e 2028 e deve ser acompanhada de ações educativas, formação de professores, visitas mediadas, seminários e outros eventos. O projeto conta ainda com a participação de programas de pós-graduação por meio do Programa de Extensão na Pós-Graduação.
Uma exposição para quem está dentro também conhecer

A proposta de abrir as coleções para a sociedade começa, curiosamente, dentro da própria universidade. Durante a abertura, profissionais envolvidos com os acervos destacaram que nem mesmo todos os estudantes e servidores da UFOP conhecem aquilo que a instituição guarda.
Para a museóloga Ingrid da Silva Borges, responsável pelo Museu da Farmácia, a exposição cria justamente essa oportunidade de apresentar aos alunos o trabalho realizado nos museus e coleções.
Acho que é o momento da gente trazer pros alunos, pra comunidade acadêmica que passa por esse espaço, um pouco sobre os trabalhos que estão sendo realizados nos museus e nas coleções.
A fala ajuda a explicar o movimento visto na abertura. Em meio aos visitantes, estavam estudantes de diferentes áreas e profissionais da Museologia, que acompanham de perto a rotina de preservação desses objetos.

Para Maria Ana, Juliana, Luiz e Davi Isaac, integrantes da equipe de Museologia, existe também uma dimensão afetiva nesse processo: ver os acervos ganhando vida diante de pessoas que, muitas vezes, sequer sabiam que eles existiam.
Ver eles ganhando vida e poder sair e ganhar o mundo é muito legal, interessante demais.
E, se a proposta é reunir áreas diferentes, a exposição parece encontrar justamente nessa diversidade um de seus pontos centrais. Os museólogos também destacaram como as peças conseguem estabelecer relações entre campos distintos. “É interessante como tudo conversa, né, mesmo tantas áreas (...) como elas se juntam como um todo”, contou a museóloga Maria Ana
A exposição também prevê a troca periódica das peças. Assim, o público não terá contato sempre com o mesmo recorte: diferentes objetos poderão ocupar os módulos ao longo do tempo, permitindo novas leituras dos acervos.
Da gaveta para o público
A história das coleções da UFOP também ajuda a entender por que essa iniciativa ganhou força. Parte desses materiais foi preservada durante décadas em prédios, laboratórios, armários e espaços ligados às escolas que deram origem à universidade.
A coordenadora da Rede de Museus e Acervos, Maria Rita SIlvério, lembra que muitas peças chegaram a ficar esquecidas dentro de armários e que a manutenção desses acervos frequentemente depende do trabalho de professores e profissionais que acumulam outras funções.

Para ela, dar visibilidade às coleções é também uma forma de garantir que elas sejam reconhecidas e preservadas.
A gente só vai valorizar aquilo que a gente conhece.
A pró-reitora de Extensão e Cultura, Cláudia Martins Carneiro, também destaca esse aspecto. Segundo ela, a Sala de Vidro foi escolhida justamente por estar em uma área de grande circulação de estudantes, próxima ao Restaurante Universitário.
Tem gente que tá aqui dentro e que não sabe o que a gente tem. Então, quando a gente traz isso para um espaço do lado do RU, a gente consegue mostrar um pouquinho daquilo que a gente tem logo ali e que tá escondido.
E depois da exposição?
A abertura também serviu para apresentar os próximos passos da universidade em relação aos espaços que abrigam seus museus e coleções. Em sua fala, o reitor Luciano Campos da Silva, abordou os desafios de infraestrutura enfrentados pela UFOP e citou obras em andamento e projetos de revitalização.
Entre elas está a revitalização do Centro de Convergência, que envolve cerca de R$ 29 milhões. Segundo o reitor, a desocupação do prédio foi necessária diante dos problemas de infraestrutura existentes no local. Ele também mencionou a construção de um hospital, com investimento previsto de R$ 280 milhões.
Sobre os prazos e a dimensão das obras, Luciano pediu paciência à comunidade universitária diante das mudanças provocadas pelas intervenções.
A UFOP nunca fez uma obra de 30 milhões. Então isso é novo pros nossos técnicos (...) eles sempre tocaram obras de 10 milhões, de cinco, de três, de repente chega 30 milhões.

Luciano também falou sobre a revitalização dos museus. Segundo ele, a universidade tem uma negociação avançada para estabelecer um convênio com uma grande empresa e desenvolver um projeto de revitalização do Museu de Ciência e Técnica. A expectativa apresentada pelo reitor é anunciar a primeira etapa antes das comemorações dos 150 anos da Escola de Minas. “Em breve a gente pretende anunciar aí (...) um convênio com uma grande empresa para a gente fazer um projeto de revitalização do Museu de Ciência Técnica.”, contou o reitor.
O Museu da Farmácia também está no planejamento, com a intenção de buscar uma solução para a organização do espaço, que atualmente divide o ambiente com uma biblioteca de outro instituto.
Desafio

E, se a Sala de Vidro já ficou lotada na estreia, o próximo desafio será fazer essas coleções continuarem circulando até que possam chegar a outros públicos, outras cidades e, quem sabe, voltar para os museus da UFOP com ainda mais gente interessada em conhecer o que existe por trás de cada peça.





