Mariana (MG), 20 de julho de 2026 MPJ | Mais Pelo Jornalismo
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E se a morte tirasse férias? Mambembe estreia peça nesta semana

Inspirado em Saramago, novo espetáculo do grupo leva humor, música autoral e reflexões sobre a vida às ruas de Ouro Preto e distritos

A imagem  captura uma performance expressiva e dramática do grupo de teatro Mambembe em um ambiente escuro. Um grupo de aproximadamente oito atores está reunido, a maioria olhando para cima e para a direita com expressões intensas, com bocas bem abertas que sugerem um canto, grito ou projeção de voz em uníssono. Os rostos estão decorados com maquiagens artísticas marcantes — bases brancas, bochechas coradas e traços pretos — que remetem à estética do teatro de rua e da palhaçaria, vestindo figurinos rústicos e texturizados. A iluminação quente e focalizada vem de um ponto lateral, criando um forte contraste com o fundo completamente preto e destacando a energia vibrante e a união do elenco em cena.

Mambembe adverte: final de semana (e próxima terça feira) repleta de risadas, reflexões, música boa e nem tanta morte assim. - Foto: Divulgação/Mambembe

"No palco, na praça, no circo, num banco de jardim." Há quase 23 anos, o Grupo Mambembe Teatro de Rua faz exatamente isso: espalha teatro pelas ruas, praças e esquinas de Ouro Preto, Mariana e distritos. Agora, o coletivo da UFOP retorna com uma pergunta capaz de fazer até a morte perder o sono: o que aconteceria se ninguém mais morresse?

A resposta chega com o espetáculo “No dia seguinte ninguém morreu”, adaptação livre de "As Intermitências da Morte", do escritor português José Saramago. A estreia acontece neste mês de junho, levando às ruas um circo que tenta desafiar a própria morte enquanto vê seu espetáculo ser engolido por forças muito maiores do que ele.
 

Da morte a arte

A premissa parece saída de um sonho estranho ou há quem diga, de um pesadelo. De repente, a morte simplesmente decide parar de trabalhar. Ninguém morre. Nem os muito velhos, nem os muito doentes. O que inicialmente parece um milagre logo se transforma em caos: hospitais lotam, funerárias perdem sua razão de existir, seguradoras entram em crise e até a igreja se vê diante de um impasse teológico.

Como escreveu Saramago, "sem morte não há ressurreição". E sem ressurreição, bem, muita coisa precisaria ser reinventada.

Mas antes que o tema assuste, o Mambembe avisa: a reflexão vem acompanhada de humor, música e poesia.

 

A peça traz uma reflexão divertida sobre a morte. Como narrador dessa história, o Circo que Desafia a Morte apresenta os personagens que encenam a conjuntura que assola um país onde a morte não existe mais

Ana Beatriz Ribeiro, diretora

 

A montagem nasceu de um convite da professora e coordenadora do grupo, Raquel Castro. A partir daí, Ana Beatriz e a dramaturga Malu Amaral mergulharam no universo de Saramago para criar uma dramaturgia inédita pensada especialmente para a rua.

"Eu e a Malu nos demos as mãos e fizemos isso acontecer. Temos uma relação muito próxima e muito conectada. Foi um trabalho muito lindo, com várias pessoas novas chegando ao grupo e trazendo muitas coisas diferentes para o espetáculo", conta Ana Beatriz.

A criação começou ainda em novembro do ano passado e chega ao público após meses de ensaios, construção coletiva e composição musical. As canções, todas autorais, foram criadas por Ana Beatriz, Malu Amaral e André Castro.

"A gente ama fazer música e encontrou nosso jeito de se comunicar para transcrever o que essa peça significa para nós. E a gente tá nessa expectativa de muita animação, pra apresentar esse filho aí, que a gente pariu, vamos parir, né.", brinca a diretora.
 

Teatro que nasce da rua

Quem conhece o Mambembe sabe que a palavra "mambembe" nunca foi sinônimo de improviso descuidado. Pelo contrário. Desde sua criação, em 2003, o grupo transformou a rua em laboratório artístico, criando espetáculos a partir de obras literárias de autores como Guimarães Rosa, William Shakespeare, Ítalo Calvino e o próprio Saramago.

Entre estudantes, ex-estudantes, professores, artistas e moradores, o coletivo construiu uma trajetória marcada pela criação autoral, pela música ao vivo e pela ocupação dos espaços públicos, democratizando o acesso à cultura do teatro. 

Talvez por isso a canção de Chico Buarque pareça descrever tão bem sua caminhada…

 

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Mambembe, cigano
Debaixo da ponte, cantando
Por baixo da terra, cantando
Na boca do povo, cantando

Chico Buarque

 

E é justamente nas praças e ruas que o novo espetáculo pretende encontrar seu público.

Afinal, poucas linguagens combinam tanto com as perguntas de Saramago quanto o teatro de rua: uma arte feita diante de gente comum, interrompendo o cotidiano para lembrar que a vida e a morte dizem respeito a todos.

Ou, como escreveu o autor português: "Cada um de nós tem a sua própria morte, transporta-a consigo num lugar secreto desde que nasceu, ela pertence-te, tu pertence-lhe."

Bom e para terminar, convenhamos, se a morte resolveu faltar ao trabalho, não há motivo para faltar ao teatro.
 

Programação

13/06 - Sábado - Santo Antônio do Leite às 16h na programação da Festa de Santo Antônio 

14/06 - Domingo - Praça do Pilar em Ouro Preto às 16h 

16/06 - Terça-feira -Escola Municipal Padre Carmélio às 10h 

A entrada é gratuita
 

Ficha técnica 

Dramaturgia: Malu Amaral

Direção: Ana Beatriz Ribeiro

Coordenação de dramaturgia: Gio de Oliveira

Coordenação de direção: Raquel Castro

Composição musical: Ana Beatriz Ribeiro, André Castro e Malu Amaral

Figurino: Grazi Cleodolpho, Lívia Estrella, Vitoria Goicochea e Yasmin Porto.

Costureira: Nayara Guimarães

Atuação: Ana Beatriz Ribeiro, André Castro, Grazi Cleodolpho, Lívia Estrella, Malu Amaral, Vitoria Goicochea e Yasmin Porto.

Arte gráfica: Malu Amaral

Produção: Gisele Ferreira
 

No dia seguinte ninguém morreu…

 

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