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Ouça o áudio de "Entre o ter e o ser: uma leitura psicanalítica da ostentação", de Júlio Vasconcelos:
Uma pessoa faz uma viagem para um lugar paradisíaco e, sem nem curtir o ambiente onde está inserida, imediatamente posta uma quantidade enorme de fotos, apresentando-se em destaque à frente da paisagem. Outra pessoa faz um passeio a uma praia com ares típicos caribenhos e, em trajes mínimos, estampa sua foto, com um fundo marinho azul e resplandecente. Outra ainda compra um carro novo, último modelo, possante e vai pelo mesmo caminho, com uma série de fotos ocupando todos os seus variados espaços nas mídias sociais. Isso sem contar os inúmeros vídeos que também postam para reforçar o sucesso! Detalhe importante: todas elas se apresentam com um “sorriso Colgate” estampado nos rostos, aparentando serem as pessoas mais felizes do mundo. O pior é que por trás de toda a montagem, encontramos um monte de gente angustiada e infeliz, tentando disfarçar ou encobrir o vazio que impera em suas vidas.
Surge, então, no ar uma pergunta, à luz da psicanálise, que não quer se calar: o que essas pessoas pretendem dizer com isso? Qual o significado subjacente de tais comportamentos? Creio que uma reflexão sucinta sobre esse assunto possa nos ajudar a entender um pouco mais do comportamento do ser humano.
Resguardadas as exceções que possam existir, sem qualquer tipo de generalização ou julgamento e com o devido respeito àqueles que se sentirem incomodados, o linguajar popular e a Psicanálise denominam esse fenômeno de ostentação.
A ostentação, sob o enfoque da Psicanálise, deixa de ser apenas um comportamento social visível ligado ao consumo, à exibição de bens ou ao status para se revelar como uma expressão subjetiva do desejo e da falta. Sigmund Freud, considerado o Pai da Psicanálise, compreendia que as ´pessoas não são movidas apenas por necessidades conscientes, mas por forças inconscientes que buscam satisfação, reconhecimento e, sobretudo, algum tipo de completude impossível.
Nesse sentido, ostentar pode funcionar como uma tentativa de tamponar uma falta estrutural. A pessoa exibe aquilo que possui: bens, conquistas e aparência como se pudesse, por meio disso, garantir um lugar no olhar do outro. Não se trata apenas de ter, mas de uma necessidade imperiosa de ser visto tendo. A ostentação, portanto, está profundamente ligada ao desejo de reconhecimento: ser reconhecido, admirado, validado. No entanto, como o desejo humano é marcado pela incompletude, nenhuma conquista é suficiente de forma duradoura, o que leva a um círculo vicioso interminável de mais consumo, mais exibição, mais busca por validação.
Evidentemente que não estamos falando aqui de postagens onde eventualmente pessoas sérias e compenetradas compartilham um post estampando uma grande conquista que serve de inspiração para outros que estão lutando, um inesquecível encontro de amigos ou familiares, uma reflexão espiritualizada e eventos de cunho profissional ou similares que transmitem reflexão e amadurecimento, mas estamos falando de postagens narcísicas e persistentes sem qualquer tipo de autocrítica ou mensagem aprofundada.
O psicanalista francês Jacques Lacan afirmava que as pessoas que exibem este tipo de comportamento desejam o que acreditam ser desejável para o outro. Assim, a ostentação pode ser entendida como uma tentativa de responder a si mesmo uma pergunta inconsciente: “O que o outro espera de mim?” ou “Como posso ser desejado?”. O objeto ostentado nesse contexto, deixa de ser apenas um objeto material e passa a funcionar como um significante de valor, um marcador simbólico de pertencimento e importância que precisa necessariamente ser validado pelos outros.
Contudo, há um paradoxo: quanto mais a pessoa se apoia nesses objetos para sustentar sua identidade, mais ela se afasta de si mesmo. A imagem construída para os outros pode se tornar uma prisão, exigindo manutenção constante e gerando angústia. A ostentação, então, pode ocultar não apenas uma falta, mas também uma fragilidade narcísica, uma dificuldade de sustentar o próprio valor sem recorrer ao olhar dos outros como garantia.
A Psicanálise não propõe uma condenação moral da ostentação, mas uma escuta de seu sentido. Pergunta-se: o que está sendo buscado por meio dessa exibição ostensiva? Que vazio se tenta preencher? Que reconhecimento se deseja alcançar? Ao deslocar o foco do objeto para o sujeito, abre-se a possibilidade de que o indivíduo reconheça a lógica que sustenta seu comportamento e, a partir disso, encontre formas mais autênticas de se relacionar com seu desejo.
Em última instância, a ostentação revela algo profundamente humano: a tentativa de lidar com a falta, mas é justamente quando o sujeito reconhece essa falta, em vez de encobri-la, que se torna possível uma relação menos dependente da aparência e mais sustentada na própria singularidade. Relembrando o saudoso Millôr Fernandes: “o importante é ter, sem que o ‘ter’ te tenha”.
Quem tem ouvidos, que ouça!...



