Mariana (MG), 20 de julho de 2026 MPJ | Mais Pelo Jornalismo
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Entrevista Primaz – Chrystian Mendes e Fábio Faversani

Desigualdade, Custo de Vida e Desafios Financeiros: O Papel da Extensão Universitária na Sociedade Atual

Três homens sentados ao redor de uma mesa de madeira em um estúdio de gravação revestido com espuma acústica preta. Ao centro da mesa há um microfone de condensador montado em pedestal, além de canecas, um celular e um par de óculos. Os três participantes sorriem para a câmera: um homem de cabelos longos e barba grisalha à esquerda, um homem de camiseta preta ao centro e um homem de cabelos brancos à direita. Ao fundo, uma televisão exibe a logomarca do programa “Entrevista Primaz”. O ambiente sugere a gravação de um podcast ou programa de entrevistas.

Fábio Faversani (esquerda) e Chrystian Mendes (centro) foram recebidos pelo jornalista Luiz Loureiro no estúdio da Agência Primaz – Foto: Gisele Santoli/Agência Primaz

Nesta edição da Entrevista Primaz, conduzida pelo jornalista Luiz Loureiro, os professores Chrystian Soares Mendes e Fábio Faversani, ambos com forte atuação na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), debateram a complexa realidade financeira e socioeconômica do Brasil e, de forma mais detalhada, do município de Mariana. Durante o encontro, os especialistas compartilharam percepções sobre a brutal desigualdade de renda que marca o país, a dinâmica inflacionária local motivada pela mineração e pelo turismo, e a importância de iniciativas de extensão universitária voltadas para o acolhimento e a orientação das finanças pessoais dos cidadãos.

O Retrato da Desigualdade e as Armadilhas da Renda

A conversa iniciou-se com uma análise abrangente sobre a configuração salarial da sociedade brasileira atual. O professor Fábio Faversani destacou que o Brasil é marcado por uma desigualdade gigantesca, brutal e incomum em termos internacionais. Como exemplo prático dessa assimetria, Faversani apontou que uma renda de cinco salários-mínimos — patamar que não seria considerado excessivamente elevado em outras realidades — já exclui mais da metade da população brasileira devido à extrema concentração de renda. 

Outro fator técnico discutido foi a mensuração da riqueza. Grande parte das métricas oficiais baseia-se unicamente na economia monetarizada, o que acaba ignorando formas de rendimento informal, como "bicos" e rendas eventuais. Os professores relembraram uma pesquisa realizada no passado em Mariana, onde a simples alteração na abordagem metodológica da pergunta — enfatizando a renda familiar em vez de dar margem para o cálculo da renda individual — e o estímulo à memória sobre ganhos eventuais elevaram a percepção da renda declarada da população em 30%. 

Complementando o cenário nacional, o professor Chrystian Mendes enfatizou que mais de 50% a 60% da população do país vive com, no máximo, um salário-mínimo. Ele também chamou a atenção para a distorção estatística provocada pela renda per capita em cidades mineradoras. Mariana, por exemplo, figura entre as dez maiores rendas per capita do Brasil devido ao alto volume produzido pela atividade minerária dividido pelo número de habitantes. Contudo, essa riqueza artificialmente socializada nas estatísticas contrasta drasticamente com a realidade local, onde muitos moradores sobrevivem com menos de um salário-mínimo. 

O Alto Custo de Vida em Cidades Mineradoras e Históricas

Um dos pontos centrais da entrevista foi o elevado custo de vida em Mariana, corroborado por pesquisas recentes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Chrystian Mendes explicou que Mariana sofre com uma dupla pressão sobre os preços por ser, simultaneamente, uma cidade mineradora, universitária e histórica. O turismo fomenta o "preço para turista", mas o impacto mais severo é sentido no setor imobiliário. A forte demanda habitacional gerada por empresas prestadoras de serviços da mineração inflaciona os aluguéis. Proprietários frequentemente preterem famílias locais para alugar imóveis a empreiteiras, que alojam múltiplos trabalhadores e pagam valores significativamente maiores. Essa dinâmica torna quase impossível para um trabalhador comum encontrar moradia a preços acessíveis na cidade. 

Somado a isso, Faversani criticou a ausência histórica de políticas públicas de habitação nas últimas décadas na região, o que reduz a oferta habitacional e impede uma dinâmica de preços mais racional, enquanto Chrystian ressaltou a perversidade do quadro de demanda aquecida em Mariana, colocando custo de uma cesta básica acima do valor encontrado na capital do Estado.

O Comportamento do Consumidor e as Causas do Endividamento

Ao analisar se o brasileiro sabe controlar suas próprias finanças, os entrevistados trouxeram à tona fatores culturais, psicológicos e históricos. Fábio Faversani lembrou que a sociedade brasileira carrega traumas da época da hiperinflação e que com a estabilização econômica e a posterior modernização bancária, surgiu um novo desafio: a forte expansão do crédito. Em um cenário de estabilidade no emprego, o acesso facilitado a cartões de crédito e empréstimos consignados transformou o endividamento em algo normalizado na sociedade. No entanto, os professores alertaram que o endividamento atual raramente é voltado para a aquisição de bens duráveis ou equipamentos que gerem nova renda. Trata-se, majoritariamente, de um endividamento de consumo imediato ou impulsionado por novos vícios, como o mercado de apostas virtuais (bets), que já é tratado como um problema de saúde pública e foi um dos estopins para programas governamentais de renegociação de dívidas, como o Desenrola. 

O comércio se aproveita dessa vulnerabilidade com o apelo de que "a parcela cabe no bolso". O erro crucial, segundo Mendes, reside no parcelamento de despesas de consumo imediato, como compras de supermercado. O acúmulo excessivo de parcelas cria o efeito "bola de neve", culminando no uso do cheque especial e no parcelamento da própria fatura do cartão, cujas altíssimas taxas de juros compostos tornam o débito rapidamente impagável. 

Educação versus Orientação: O Surgimento do SOF

Fábio Faversani é um dos integrantes do Serviço de Orientação Financeira da UFOP. Coordenado pelo Prof. Chrystina Mendes – Foto: Gisele Santoli/Agência Primaz

Diante dessa vulnerabilidade financeira crônica, os docentes apresentaram as iniciativas promovidas dentro do ambiente universitário da UFOP. Inicialmente, o projeto Educa Mais UFOP atuou, durante um ano, auxiliando estudantes beneficiários de bolsas de permanência a gerirem seus recursos e compreenderem a necessidade de fazer escolhas e renúncias orçamentárias. 

A partir dessas experiências, consolidou-se o Serviço de Orientação Financeira (SOF), coordenado pelo professor Chrystian Mendes. Durante a entrevista, Mendes estabeleceu a diferença conceitual entre educação e orientação financeira: 

A educação financeira é um processo de aprendizagem. Mostra os princípios, o que é gasto, despesa, custo fixo, reserva de emergência. ... O Serviço de Orientação Financeira tenta orientar as pessoas a organizar suas próprias despesas e sonhos

Chrystian Mendes

Enquanto a educação financeira lida com conceitos teóricos que muitas vezes começam na infância, a orientação funciona de forma prática e personalizada, atuando diretamente na dor do cidadão. O projeto também atua como um laboratório de formação para os estudantes de Ciências Econômicas da UFOP. Para qualificar o atendimento, membros da equipe — incluindo o professor Faversani e estudantes — buscaram certificações oficiais do mercado financeiro junto à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e à ANCORD. Os especialistas deixaram claro que o SOF não faz indicação de produtos comerciais ou fórmulas mágicas de enriquecimento, mas foca em alinhar a renda, o consumo e os sonhos de cada indivíduo. 

Como Funciona o Atendimento à Comunidade

O SOF é um projeto de extensão totalmente gratuito e não remunerado que visa estreitar os laços entre a universidade e a comunidade marianense. O acesso ao serviço é simples: os interessados preenchem um formulário disponível no perfil do Instagram do projeto.

O processo de atendimento foi estruturado em etapas, priorizando encontros presenciais para construir uma relação de mútua confiança, livre de julgamentos éticos ou morais. A dinâmica inicial assemelha-se a uma "anamnese" médica ou psicológica, na qual a equipe colhe dados detalhados sobre o padrão de vida, despesas e objetivos de longo prazo do cidadão. A partir daí, cria-se um protocolo aberto e customizado. 

Os professores pontuaram que um dos maiores desafios do atendimento é combater o imediatismo e conscientizar as pessoas sobre o planejamento de longo prazo, como a aposentadoria.

Parceria de Comunicação com a Agência Primaz

Ao final do encontro, foi anunciada uma cooperação direta entre o Serviço de Orientação Financeira da UFOP e a Agência Primaz. Reconhecendo a importância da divulgação científica e da democratização do conhecimento acadêmico, os professores passarão a assinar colunas e artigos informativos no veículo de comunicação. 

O objetivo da parceria é publicar regularmente as chamadas "pílulas de conhecimento". Por meio de uma linguagem simples, didática e acessível, os economistas pretendem traduzir o jargão do mercado financeiro — explicando termos técnicos como spread bancário, juros compostos e psicologia do consumo — além de abrir canais diretos para responder a dúvidas e sugestões enviadas pelos próprios leitores e moradores da região.

Acompanhe a íntegra da Entrevista Primaz no link abaixo ou pelo Spotify.
 

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