Mariana (MG), 5 de setembro de 2026 MPJ | Mais Pelo Jornalismo
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Entrevista Primaz - Eduardo Campos, Museu Minas do Gogô

Vozes do Gogô revelam memórias de resistência e o protagonismo Negro na origem de Mariana e de Minas Gerais

Eduardo conversou com Gisele Santoli nos estúdios da Agência Primaz - Foto: Joyce Campolina

Na edição desta semana da “Entrevista Primaz”, recebemos Eduardo Campos, artista plástico, escritor, professor, historiador e diretor-fundador do Museu Minas do Gogô. Eduardo contou sobre a fundação do Museu Minas do Gogô, as técnicas de mineração trazidas por africanos escravizados e a urgente necessidade de preservar a história completa de Mariana para além do ciclo do minério. Além de como a Vila do Gogô representa a resistência artística e a preservação do patrimônio histórico do município.
 

Uma linhagem dedicada à cultura Marianense

Nascido e criado em Mariana, Eduardo Campos descende de uma família relevante para a história da região. Seu contexto familiar o moldou desde cedo para o apreço pelas manifestações artísticas e pela pesquisa de campo.

'Eu fui criado nesse ambiente de arte, de cultura. Na minha família tem o primeiro bispo negro da América Latina, Dom Silvério, era tio do meu bisavô! E o meu bisavô, por sua vez, também foi o primeiro diretor da tipografia do Dom Silvério, chamava-se Olímpio Pimenta. Então, fez muita pesquisa na área da música, inclusive pesquisas que são consideradas embrionárias para a criação do Museu da Música em Mariana.'

Eduardo Campos

Essa imersão cultural culminou em uma carreira de quatro décadas na arte e no restauro, com passagens pela Fundação de Ouro Preto (FAOP) e pela Faculdade de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Eduardo trabalhou em restaurações em diversos estados, como o Ceará, antes de concentrar sua energia no Morro Santana, também conhecido popularmente como Gogô.
 

 

O Sítio do Gogô e o resgate da tecnologia africana

O interesse de Eduardo pelo Morro Santana se aprofundou ao perceber que o local guardava um imenso sítio arqueológico que foi pioneiro na fundação de Mariana, cuja história não estava inserida ao contarem a história local. Ao coletar fragmentos do cotidiano colonial, o historiador se deparou com uma realidade que a historiografia oficial costuma omitir: o pioneirismo técnico dos escravizados.

'Esse trabalho de resgate da memória é muito importante, a partir de cada fragmento que eu encontrava de uma peça, um cachimbo, um fragmento de cerâmica, aquilo ali era uma porta que se abria para compreensão do que foi o passado. Eu fui descobrindo ali a importância do papel do africano escravizado na formação da história de Mariana, o trabalho, as técnicas de mineração que eles trouxeram.'

Eduardo Campos

Eduardo explica que os africanos trouxeram conhecimentos avançados de engenharia mineral que permitiram a extração de ouro nas encostas marianenses, incluindo o uso de brunidores, artefatos de pedra utilizados para triturar o minério antes da apuração na bateia e de buracos de sarilho valas profundas usadas tanto para a ventilação das galerias subterrâneas quanto para o escoamento do material.

'A história sempre que eu escutei foi essa. Salvador Furtado de Mendonça, Miguel Garcia, fundaram Mariana. Mas os escravizados nunca, muito pouco foi falado ou nunca foi falado. A partir dessa experiência, a gente abre essa janela para o passado e traz essa história à tona.'

Eduardo Campos

O Sítio do Gogô destaca-se por ser um dos poucos locais do Quadrilátero Ferrífero que restou preservado em sua forma original, sem ter sido engolido pelo crescimento urbano desordenado, ao contrário do que ocorreu em partes semelhantes em Ouro Preto.
 

Resistência da casa-museu

Diante do abandono e do risco de apagamento do patrimônio arqueológico, Eduardo tomou uma decisão prática e corajosa, há cerca de cinco anos, fundou o primeiro museu dedicado à fundação da cidade e de Minas Gerais dentro de sua própria residência, aproveitando o espaço ocioso do terraço. O Museu Minas do Gogô funciona de forma independente, voluntária e com visitação gratuita.

'Eu montei esse museu na minha casa e fiz toda a adaptação para o lugar, né? E foi muito bom e o trabalho é voluntário, viu? A visita ao museu é gratuita, eu nunca cobrei nada de escola e nem de ninguém para visitar.'

Eduardo Campos

O acervo reúne artefatos encontrados no próprio sítio, como cachimbos de argila decorados com símbolos de matriz africana e do catolicismo europeu, revelando o processo de sincretismo e a habilidade artística dos escravizados. O museu também abriga frascos medicinais do século XIX com inscrições de remédios ingleses, como o "opodeldoque", usado para tratar o reumatismo e as doenças pulmonares severas que acometiam os trabalhadores devido à umidade extrema e ao frio das minas.
 

Arte sacra com identidade local

Como artista plástico, Eduardo Campos buscou romper com as representações eurocêntricas da arte sacra barroca, trazendo os elementos do cotidiano colonial e a representatividade negra para o centro de suas criações. O maior exemplo disso é o presépio mecanizado, articulado e muito querido pelas crianças que visitam o espaço, ele retrata o dia a dia dos escravizados na extração mineral. Mais recentemente, o artista iniciou a confecção de uma Via Sacra singular:

'Eu coloquei a entrada do Cristo por Mariana, então ele chega pelo São Gonçalo. A Santa Ceia acontece na Câmara de Mariana, coloquei o leitão pururuca e para inovar coloquei a cachaça, um queijo de Minas e o Cristo negro, justamente para chamar a atenção para essa questão do protagonismo do africano escravizado e seus descendentes na formação da nossa cultura, né, da nossa história.'

Eduardo Campos


 

O sonho de um amanhã pós-mineração

Apesar de já ter cogitado desistir por questões financeiras ao longo da vida, Eduardo destaca o apoio incondicional de seus pais e de sua esposa, Thaís, como pilares para continuar resistindo. Seu maior objetivo é fazer com que as autoridades e a própria população compreendam o imenso potencial turístico e sustentável do Morro Santana antes que os recursos minerais da cidade se esgotem definitivamente.

'O meu sonho é ver o Gogô cheio de pessoas, de turistas, visitando o sítio arqueológico, visitando o museu. E através disso vir o turismo, vir a cultura, a movimentação da economia, geração de emprego, porque um dia o minério vai passar. Vai chegar uma hora que a cidade vai empobrecer novamente. O momento é agora e o turismo é uma indústria que está aí pronta, basta querer.'

Eduardo Campos


 

Onde acompanhar 

O público pode acompanhar o Eduardo Campos pelo Instagram oficial do artista: eduardo.souzacampos.71. Assista agora mesmo a entrevista completa abaixo,  pelo Spotify, ou na sua plataforma de podcast preferida.

Entradado Museu: Totalmente gratuita (necessário agendamento prévio).

Agendamento: Diretamente com Eduardo Campos pelas redes sociais ou pelo telefone (31) 98875-0892.
 

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