Na edição desta semana da Entrevista Primaz, recebemos Helbert Almeida (conhecido carinhosamente como Betinho), engenheiro de produção, mestre em economia aplicada pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e atual doutorando pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).
Em um bate-papo profundo com o jornalista Lui Pereira, o pesquisador detalhou sua trajetória de atuação comunitária, as bases de sua dissertação sobre o mercado de trabalho dos artistas de forró e os gargalos das políticas públicas de incentivo à cultura no Brasil.
Das planilhas de engenharia ao balanço da sanfona
Natural de Santa Luzia (MG) e técnico em informática, Helbert chegou a Ouro Preto em 2016 para cursar engenharia de produção na UFOP. Com fortes raízes familiares no Nordeste, com familiares em estados como Piauí, Ceará e Bahia, o forró sempre esteve presente em sua memória afetiva. Contudo, foi no ambiente universitário que ele se consolidou como um verdadeiro agente cultural ao ingressar nas aulas do Gefop (Grupo de Forró Ouro Preto).

Além de sua atuação na dança, Helbert utilizou sua facilidade com gestão de projetos para presidir o Rotaract Club de Ouro Preto (2020-2021). A experiência no clube não apenas o ajudou a superar antigos traumas de oratória e comunicação, mas também aprimorou sua visão sobre o desenvolvimento comunitário e a articulação social na Região dos Inconfidentes.
Como se vive de forró?
Essa inquietação com as condições de trabalho dos músicos e dançarinos levou Helbert a formular a pergunta central de sua dissertação de mestrado em Economia na UFOP, sob orientação da professora Francisca Diana: "Como se vive de forró?". Conduzida com bolsas da CAPES, FAPEMIG e auxílio institucional da Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação da UFOP, a pesquisa revelou a profunda precariedade e invisibilidade que cercam os fazedores dessa matriz cultural tradicional.
O forró passa por um local de invisibilidade econômica e política. Dentro da nossa cultura brasileira, o poder público muitas vezes empurra uma cultura que nem sempre é a nossa de base. Vemos grandes eventos fomentando estruturas culturais de padrão europeu ou centralizadas em São Paulo como 'populares', enquanto as matrizes nordestinas e afro-brasileiras são taxadas apenas como 'regionais' e empurradas para a margem.
A pesquisa de Helbert mapeou que a Região dos Inconfidentes (marcada por uma agenda intensa de eventos voltados ao turismo), carece de aparatos públicos eficientes que protejam e remunerem dignamente a classe artística local. O economista tece duras críticas ao modelo de "turismo predatório", caracterizado por grandes shows comerciais patrocinados que captam altos recursos, mas funcionam apenas como um "circo itinerante" de consumo imediato.
Esses eventos drenam o capital financeiro da cidade sem oferecer contrapartida formativa ou oportunidades de trabalho de grande porte para quem sustenta a cultura do território o ano inteiro.

O Plano de Salvaguarda e as parcerias de base
Como consultor na elaboração do Plano de Salvaguarda das Matrizes Tradicionais do Forró, Helbert ressalta que o documento atua como um norteador de metas, e não como uma imposição legal direta ao poder público. A efetivação dessas conquistas depende da união e mobilização política da categoria.
O plano de salvaguarda é um conjunto de metas. Nós, como classe trabalhadora da cultura, temos que nos unir, bater na porta da prefeitura e da Câmara e exigir a sua execução, cobrando representatividade e cotas de artistas locais em eventos públicos patrocinados.
Essa articulação comunitária já gerou frutos práticos na trajetória do Gefop, que se formalizou como Ponto de Cultura através da Lei Aldir Blanc. Entre as principais ações promovidas estão o festival Cultura Forrozeira (iniciado em 2019 com foco estritamente formativo), as comemorações do Dia Nacional do Forró em Ouro Preto (celebrado em 13 de dezembro, nascimento de Luiz Gonzaga) e a caravana solidária ao distrito de Camargos, onde o cachê da equipe foi revertido para viabilizar o transporte de moradores e a divulgação da comunidade afetada pelo rompimento de barragens.
O fomento cultural no interior

Atualmente cursando o doutorado na UFBA, o foco de investigação de Helbert se voltou para o impacto das políticas culturais nacionais, com ênfase na Lei Rouanet. O pesquisador pontua o severo abismo de distribuição regional da lei federal, citando dados em que apenas o município de São Paulo chega a captar mais recursos do que as regiões Norte e Nordeste juntas. Essa disparidade força a dependência dos artistas aos grandes players comerciais, transformando a arte em uma ferramenta de "panfletagem empresarial".
Em contrapartida, Helbert defende o papel revolucionário das leis de repasse direto, como a Lei Paulo Gustavo e a Política Nacional Aldir Blanc (PNAB). Ele as compara a um investimento estatal em "startups" de cultura de base, essenciais para descentralizar os recursos e atingir distritos isolados e comunidades tradicionais que antes estavam completamente à margem do mercado.
Esse fomento descentralizado permite que o artista consiga sustentabilidade financeira sem precisar abandonar sua terra e sua história para tentar a vida nos grandes centros urbanos do Sudeste.
O público pode acompanhar as ações culturais e novidades de Helbert Almeida em seu Instagram oficial @havyday. Para saber mais sobre oficinas, bailes e a salvaguarda do forró na região, siga o perfil do Gefop no Instagram @gforroop.
A entrevista completa com Helbert Almeida está disponível em todas as plataformas de podcasts e também pode ser ouvida na íntegra no tocador abaixo ou no Spotify.


