Na edição desta semana da Entrevista Primaz, recebemos Luzzmiila: cantora, agroecologista, bioconstrutora e guardiã de sementes crioulas. Em um bate-papo profundo com Joyce Campolina no estúdio da Agência Primaz, a artista marianense compartilhou sua jornada singular que passa pela Floresta Amazônica, pelo Japão e pelos Andes Peruanos. Na oportunidade ela detalhou a construção de sua obra musical, que define como um "mandato espiritual" em defesa da biosfera.
Uma trajetória nômade: da Amazônia a Tóquio
Nascida em Mariana, Luzzmiila viveu uma infância marcada pela diversidade de biomas e culturas. Filha de um engenheiro da Vale, mudou-se aos dois anos para Carajás, no Pará, onde viveu no coração da Floresta Amazônica. Aos nove anos, a família transferiu-se para Tóquio, no Japão, onde estudou em uma escola internacional com colegas de 24 nacionalidades diferentes.
Essa vivência multicultural, no entanto, gerou um choque de realidade ao retornar ao Brasil. Durante sua graduação em Artes Cênicas na UNIRIO, Luzzmiila visitou uma aldeia Guarani em Paraty e sentiu-se "mais estrangeira dentro da aldeia do que no Japão ou na Alemanha". "Aquilo marcou um desejo de estar mais próxima dos povos, em busca dessas tradições e dessa ancestralidade", revelou a artista.

Permacultura e o Sítio Açafrão Canela
Após anos viajando de Fusca pela América Latina e morando em comunidades indígenas no Peru, Luzzmiila retornou a Mariana em 2018, fixando residência no Sítio Açafrão Canela. Lá, ela pratica a permacultura, um sistema de "cultura permanente" que busca o equilíbrio com o ecossistema através da bioconstrução e do plantio orgânico.
A natureza da terra é seguir se regenerando. O ser humano às vezes é que não a enxerga nessa riqueza dela
Essa filosofia guiou seu primeiro EP, Sintrópica, baseado no conceito de agricultura sintrópica de Ernst Götsch, que propõe que a intervenção humana inteligente pode levar a uma harmonia cada vez maior com a natureza.
Música como denúncia: "Bento Lamento" e o novo álbum
Embora sempre tenha composto, Luzzmiila iniciou sua carreira profissional no Spotify em 2020 com a canção "Bento Lamento". A música, composta após o rompimento da barragem em Brumadinho, tornou-se um marco de seu posicionamento como artista de Mariana, tratando dos traumas e danos causados pela mineração na região.
Seu próximo trabalho, o álbum "Grande Teatro da Vida", previsto para agosto, é descrito como um manifesto. O primeiro single, "Donos dos Danos", traz um tom de urgência e inclui um trecho do emblemático discurso da ativista Greta Thunberg. "Nossa memória não é passado, é munição", afirma a letra, destacando a necessidade de retomar uma identidade de pertencimento à vida.
O álbum conta com parcerias de peso, como a ícone afroperuana Susana Baca, além de artistas brasileiras como Tamara Franklin, Bia Nogueira e Laura Catarina. Produzido quase exclusivamente por mulheres, o disco foi parcialmente financiado pela Lei Paulo Gustavo.

Reflexões sobre o "lucro acima da vida"
Ao ser questionada sobre a mineração em Mariana, Luzzmiila apresentou uma visão crítica baseada na lógica de mercado. "O problema não é minerar, é a forma, o ritmo... é essa lógica do lucro a todo custo que precisa de um mercado de consumo crescendo através da obsolescência planejada", pontuou. Ao final da entrevista, a artista deixou uma mensagem de valorização da existência:
A mensagem é viver o momento, degustar da vida. Confiar e desfrutar da existência. A vida é tão rara
O público pode acompanhar os lançamentos de Luzzmiila através de seu perfil no Instagram e ouvir suas canções no Spotify e YouTube. A íntegra da Entrevista Primaz com Luzzmiila pode ser assistida abaixo, pelo Spotify ou em sua plataforma de podcast favorita.


