Fundadora do canal e portal Fora do Plástico, referência nacional em jornalismo sobre quadrinhos, a jornalista Mariana Viana participou da Entrevista Primaz para falar sobre sua trajetória, a relação com os quadrinhos e os caminhos do jornalismo cultural em meio às transformações digitais.
Premiada no fim de 2025 com o Troféu Ângelo Agostini na categoria de jornalismo especializado, Mariana relembrou desde o contato ainda na infância com o jornalismo até a construção do Fora do Plástico ao lado do também jornalista Pedro Ferreira, seu companheiro de vida e de trabalho.

Uma jornalista antes mesmo da faculdade
Natural de Ipatinga, Mariana chegou a Mariana para cursar jornalismo na Universidade Federal de Ouro Preto e talvez por dividirem o mesmo nome, a jornalista nunca mais conseguiu deixar a cidade. Segundo ela, o interesse pela profissão surgiu ainda na infância, quando brincava de entrevistar familiares durante reuniões de família.
Apesar das dúvidas comuns no momento de escolher uma profissão, especialmente diante dos desafios conhecidos da área, ela conta que o jornalismo sempre falou mais alto.
Não teve jeito. Quando chegou a hora, eu falei: é isso aqui que eu sempre quis fazer
Foi na Primaz, durante a graduação na UFOP, que ela conheceu mais profundamente o universo dos quadrinhos e, posteriormente, construiu sua trajetória profissional no jornalismo cultural.
Dos gibis da infância ao jornalismo sobre quadrinhos
A relação com os quadrinhos começou cedo, principalmente através da Turma da Mônica e das revistas adolescentes dos anos 2000. Mas foi durante a adolescência, ao ler Persépolis, obra da iraniana Marjane Satrapi, que Mariana percebeu o potencial narrativo e político dos quadrinhos, leu e pode garantir: “quem leu Persépolis uma vez, nunca mais vai esquecer”.
Na UFOP, ela integrou a primeira turma da disciplina Jornalismo em Quadrinhos, criada em 2015. E o contato mais íntimo com obras como Palestina, história em quadrinhos de Joe Sacco, que narra as experiências do autor na Cisjordânia e na Faixa de Gaza em dezembro de 1991 e janeiro de 1992, ampliou completamente a sua visão sobre o potencial jornalístico da linguagem. Parafraseou ainda a professora da UFOP Hila Rodrigues, “a palavra não é capaz de tudo”.
quadrinho vai muitas vezes no lugar onde a câmera não consegue ir
Para a especialista, os quadrinhos unem informação e sensibilidade artística, criando uma experiência mais imersiva para o leitor. O que permitiria abordar temas complexos e sensíveis, como guerras, genocídios, desigualdades, de maneiras que imagens tradicionais ou reportagens convencionais, muitas vezes, não conseguem alcançar. “A arte sempre vai ter o poder de mudar um pouquinho a gente”, ressaltou.
O Fora do Plástico e as mudanças da internet
Criado em 2017, o Fora do Plástico nasceu inicialmente no Instagram, em uma época em que a plataforma ainda era voltada quase exclusivamente para fotos pessoais. Mariana relembrou que o projeto começou de forma experimental, apostando em formatos que eram pouco utilizados na época, como postagens informativas com grandes blocos de texto e resumos semanais de notícias sobre quadrinhos.
Com o tempo, o projeto cresceu, expandiu sua atuação para o YouTube e, posteriormente, para um portal de hard news especializado no universo dos quadrinhos nacionais e internacionais.
Segundo ela, o jornalismo sobre quadrinhos ainda é pouco explorado profissionalmente no Brasil e que o Fora do Plástico, de um modo único criou a sua rede de público com um conteúdo revolucionário. “A gente abriu uma janelinha do jornalismo cultural para falar: isso aqui é jornalismo sobre quadrinhos, já existia algumas pessoas que tratavam do assunto, mas da forma que a gente começou a fazer não, foi modéstia parte, revolucionário”, afirmou.
Hoje, o Fora do Plástico acompanha lançamentos do Brasil, França, Estados Unidos e Japão, produzindo entrevistas, reportagens, críticas e conteúdos jornalísticos voltados para a chamada “gibisfera”, isso tudo com a mão de obra de apenas quatro pessoas.
Um jornalismo “gostoso” de fazer
Durante a entrevista, Mariana também falou sobre a satisfação em atuar no jornalismo cultural. Segundo ela, trabalhar diariamente com arte, criatividade e narrativas visuais transformou sua relação com a profissão.
Ela relembrou que, durante a graduação, imaginava seguir no jornalismo político, mas encontrou no universo cultural uma forma de produzir um jornalismo mais criativo e afetivo. “É um jornalismo muito gostoso de fazer”, resumiu.
Além da produção de conteúdo, Mariana destacou a importância da comunidade construída pelo Fora do Plástico ao longo dos anos, especialmente através do financiamento coletivo e da relação próxima com leitores e apoiadores espalhados pelo Brasil.
Desafios em quadrinhos
Como nem tudo são flores, produzir jornalismo cultural independente e especializado no Brasil também significa enfrentar desafios constantes, principalmente financeiros. Manter um projeto nichado funcionando exige lidar diretamente com as dificuldades econômicas enfrentadas pelo próprio público consumidor de quadrinhos.
Para a jornalista, o cenário funciona quase como um ciclo: se o poder de compra da população diminui, menos pessoas conseguem consumir quadrinhos e, consequentemente, menos pessoas chegam até conteúdos especializados sobre o tema.
Se o poder de compra tá pequeno, quem vai comprar quadrinhos para se interessar pelo portal? Qual estudante vai ter dinheiro?
Ela também aponta a ausência de políticas públicas culturais mais amplas voltadas especificamente para o setor dos quadrinhos no Brasil. No Brasil, muitas iniciativas independentes “nascem e não têm espaço para florescer do jeito que poderiam, porque não existem meios de financiar”.
Durante a conversa, Mariana destacou ainda a concentração do mercado editorial e das oportunidades no eixo paulista. Segundo ela, São Paulo acaba centralizando grande parte dos investimentos e editais culturais ligados aos quadrinhos, enquanto outros estados seguem com pouca estrutura de incentivo.
“O estado de São Paulo tem editais específicos para quadrinhos. A gente brinca que deveria existir um edital de quadrinhos em cada estado, porque senão você concentra toda a produção em um lugar que historicamente já concentra tudo”, comentou.
Nesse cenário, permanecer no interior de Minas Gerais também se torna um ato de resistência. Mariana contou que muitas pessoas se surpreendem ao descobrir que o Fora do Plástico é produzido em Mariana, e não em Belo Horizonte ou São Paulo.
Tem gente que fala: ‘vai para São Paulo que lá as coisas vão acontecer’. Mas eu penso: pode acontecer aqui também

O retorno à UFOP e o simpósio nacional
Durante a entrevista, Mariana também comentou a participação dela e de Pedro Ferreira no I Simpósio Nacional de Jornalismo em Quadrinhos, realizado recentemente pela UFOP. Além de convidados, os dois acompanharam desde cedo a construção da proposta do evento, que era um projeto antigo dentro da universidade.
Para ela, retornar à UFOP em outro momento da vida e agora como referência na área foi uma experiência simbólica. “É muito gostoso voltar para a UFOP em outra fase da vida e estar ao lado de profissionais tão renomados”, comentou.
O simpósio reuniu pesquisadores, jornalistas e artistas para discutir os quadrinhos como linguagem jornalística, artística e política, reforçando o espaço cada vez maior que a área vem conquistando dentro da academia e do jornalismo cultural brasileiro.
Entre criatividade, informação e narrativa visual, o trabalho desenvolvido pelo Fora do Plástico mostra como os quadrinhos também podem ocupar um espaço relevante dentro do jornalismo contemporâneo.
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