Em mais uma edição da Entrevista Primaz, as professoras Tânia de Fátima Arantes e Patrícia Ramos analisaram o cenário da educação pública em Minas Gerais. Representantes da base da categoria, elas destacaram a perda de direitos, criticaram políticas educacionais recentes e defenderam a construção coletiva de um projeto de ensino público, democrático e de qualidade. Logo no início, as entrevistadas ressaltaram a importância de espaços de diálogo com a sociedade, especialmente diante do que classificam como um período de “ataques” à educação e aos profissionais da área. Segundo elas, a categoria tem enfrentado sucessivas perdas, mas mantém a resistência como marca histórica.
A educação é uma categoria que vem sofrendo muitas perdas. Todo espaço para dialogar com a comunidade é fundamental

Confira abaixo algumas das declarações de Tânia e Patrícia e, ao final, acesse os links do Youtube ou spotify, para conferir a íntegra da entrevista.
Resistência diante de um “legado de destruição”
Para Patrícia Ramos, os últimos anos deixaram marcas profundas na rede pública de ensino, com políticas que, segundo ela, fragilizam o sistema educacional. “É um legado de destruição da educação pública, afirmou.”
A professora associa esse cenário às tentativas de privatização por meio de diferentes iniciativas, como terceirizações e parcerias com a iniciativa privada, apontando também a desvalorização dos profissionais e precarização das condições de trabalho.
“A privatização é pegar o dinheiro público e enviar para uma empresa que visa lucro — e, para ter lucro, ela precisa precarizar o serviço”, declarou Patrícia.
Tânia de Fátima complementou a análise ao afirmar que existe um projeto mais amplo em curso. “É um projeto de destruição da escola pública, com sequestro de recursos para a iniciativa privada”.
Burocracia e perda de autonomia nas escolas
Outro ponto de crítica é o aumento da burocratização nas escolas. Segundo Patrícia, o excesso de demandas administrativas e a centralidade em avaliações externas têm limitado o trabalho pedagógico. “Perde-se a autonomia. O professor deixa de olhar para a realidade dos alunos para cumprir metas”, ressalta Tânia, destacando que materiais padronizados passaram a orientar o ensino, muitas vezes desconsiderando as especificidades de cada turma.
Material didático caro e ineficiente
As entrevistadas questionaram veementemente a adoção de novos materiais didáticos na rede estadual. Para elas, há uma discrepância entre o alto investimento e a baixa qualidade do conteúdo entregue. “Um material de baixa qualidade, sem diálogo com a escola, que não responde aos problemas reais”.
Tânia chama atenção para o volume de recursos públicos destinados à iniciativa. “É como se você comprasse a mesma mercadoria duas vezes com dinheiro público”.

Escolas cívico-militares sob crítica

O modelo de escolas cívico-militares também foi alvo de críticas contundentes. Para Tânia, a proposta não dialoga com os princípios de uma educação democrática. “É um modelo autoritário, que não respeita a diversidade e limita o pensamento crítico”.
A professora aposentada e militante do Sind-UTE avalia que a iniciativa não resolve os problemas de violência nas escolas, que têm origem em questões sociais mais amplas, avaliação também compartilhada por Patrícia ramos.
Queriam mudar toda a estrutura da escola em menos de um mês, com um documento que não respondia às questões fundamentais
Municipalização e transferência de responsabilidades
As professoras também abordaram o processo de municipalização do ensino, apontando insegurança para profissionais e dúvidas sobre a capacidade dos municípios. “É uma transferência de responsabilidade do Estado, que pode aumentar desigualdades”, afirmou Tânia, considerando que há falta de clareza sobre o financiamento dessas mudanças e impactos diretos na carreira dos servidores.
Educação pública como projeto coletivo
Apesar do cenário crítico, as entrevistadas reforçam a defesa de uma escola pública forte, inclusiva e construída com participação social. “A base da escola é o diálogo, o respeito às diferenças e a construção coletiva”, afirma Tânia, destacando que a disciplina, nesse contexto, deve ser construída de forma consciente, e não imposta pelo medo. “A disciplina negociada é muito mais eficaz do que a disciplina baseada no medo”, complementa.
Resistência e mobilização da categoria
Patrícia Ramos enfatiza o papel dos profissionais da educação na manutenção da qualidade do ensino, mesmo diante das dificuldades. “A educação ainda entrega resultados por causa da resistência dos professores”.
Ela também destaca a importância de parcerias com a comunidade e de iniciativas que partem da base.
Chamado à participação social
Ao final da entrevista, as professoras fazem um apelo à sociedade para que participe da construção de um projeto educacional mais democrático. “A educação pública de qualidade só será possível com autonomia e construção coletiva”.
Elas defendem o fortalecimento da mobilização social e a necessidade de debate amplo sobre os rumos da educação, especialmente em um contexto político decisivo.
Independentemente de quem esteja no governo, é preciso cobrar, criticar e exigir melhorias
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