Antes de disparar o obturador, é preciso esperar. Escolher o enquadramento, observar, escutar e entender se aquele é, de fato, o momento de fazer a fotografia. Com apenas 36 poses em um filme, não há espaço para a pressa. Foi nesse ritmo que a artista visual Thais Bertolin se aproximou das benzedeiras que encontrou em diferentes regiões do Brasil mulheres acostumadas a esperar o tempo da erva, da natureza e principalmente, da cura.
Essa relação entre tempo, escuta e memória está no centro de “Bem Dizer”, exposição que ocupa o Museu Casa de Alphonsus de Guimaraens, em Mariana, até 30 de setembro. Com curadoria de Marina Bortoluzzi, a mostra reúne fotografias analógicas, intervenções manuais, bordados, plantas, sons e vídeos para construir um retrato sensível dos saberes preservados pelas benzedeiras.
O projeto começou a tomar forma a partir de uma lembrança pessoal. Quando criança, Thais era levada pela mãe, junto com o irmão, para ser benzida. Anos depois, já vivendo em uma cidade grande, percebeu o quanto havia se afastado daquela prática. O desejo de compreender novamente aquela relação com a natureza, com o corpo e com a ancestralidade acabou se transformando em uma pesquisa que atravessou mais de uma década.
“Partiu muito de um desejo interno de me reconectar com essa essência, porque quando eu era criança, minha mãe me levava na benzadeira”, conta a artista.
A pesquisa ganhou novos caminhos quando Thais encontrou uma notícia sobre benzedeiras do interior do Paraná reconhecidas como agentes de saúde e autorizadas a realizar benzimentos em hospitais públicos. Depois, uma tese de mestrado sobre uma comunidade do Pantanal mato-grossense, onde essas mulheres exerciam um papel fundamental nos cuidados de saúde diante da ausência de postos médicos, levou a fotógrafa a outro território.
Mas chegar até elas não significava simplesmente encontrá-las e fotografá-las. Em muitos casos, a artista precisou perguntar, ouvir indicações e seguir caminhos dados pela própria comunidade.
Foi assim que conheceu Dona Tila, no interior do Paraná. Indicada pelos moradores como uma “senhorinha que mora na roça”, ela se tornou uma das personagens mais marcantes da pesquisa. Entre as lembranças daquele encontro, ficou um ensinamento que ultrapassou o próprio benzimento: a ideia de que cada pessoa nasce com uma pequena luz dentro de si e precisa cuidar dela para que não se apague.
“Quando a gente nasce, Deus põe uma luzinha dentro da gente e a gente precisa cuidar dessa luzinha, porque se essa luzinha vai se apagando, a gente vai ficando triste”, lembra Thais.
Um trabalho feito no tempo delas

A escolha pela fotografia analógica não foi apenas estética. Para Thais, trabalhar com filme era também uma maneira de estabelecer uma relação mais coerente com as mulheres que estava retratando.
Enquanto a fotografia digital permite uma sequência praticamente ilimitada de registros, o filme impõe um limite. São 36 poses. Cada clique precisa ser pensado.
Quando você tá com uma máquina analógica, você tem 36 poses ali, então você vai pensar 300 mil vezes antes de clicar. E aí, isso me coloca numa outra relação de tempo, que é o tempo delas. Elas também têm uma relação de tempo diferente, elas não têm pressa
A desaceleração também aparece na maneira como as benzedeiras lidam com a natureza. Elas esperam uma planta crescer, reconhecem suas propriedades, preparam um chá, um banho ou um remédio. Para a artista, não faria sentido registrar esse universo com um olhar apressado.
Muito além da fotografia

A pesquisa de Thais com processos fotográficos históricos começou antes de “Bem Dizer”. Formada em Turismo e com trajetória profissional ligada à cultura, ela se aproximou da fotografia ainda jovem, quando ganhou da mãe uma câmera usada, sem condições financeiras para fazer um curso.
Mais tarde, durante um mestrado em Gestão Cultural na Espanha, teve contato com a fotografia analógica e com o laboratório. A experiência despertou seu interesse pelos processos históricos de produção de imagens.
No Brasil, a aproximação com a fotogravura ampliou essa investigação. Thais passou a procurar maneiras de retirar a fotografia do papel fotográfico convencional e experimentar outras possibilidades de impressão e intervenção.
A inquietação vinha de uma sensação de que a fotografia, sozinha, não conseguia revelar tudo o que ela queria dizer.
“Eu sempre achava que tava faltando alguma coisa na imagem. Sempre eu sentia que tinha algumas camadas que não estavam ali, que a câmera não tinha registrado”, afirma.
Foi dessa busca por essas “camadas” que vieram as intervenções manuais presentes em “Bem Dizer”.
Entre elas está a goma bicromatada, técnica histórica que permite trabalhar a fotografia com pigmentos. A artista mistura uma emulsão fotossensível com a cor escolhida, pinta o papel manualmente e utiliza negativos para construir a imagem em camadas. No caso da exposição, predominam os tons ocre e terrosos.

Cada fotografia pode levar um ou dois dias para ficar pronta. Se o tempo de exposição ou o registro dos negativos der errado, todo o trabalho pode ser perdido.
A escolha das cores também carrega significado. Muitas das benzedeiras fotografadas por Thais realizavam seus benzimentos em terreiros de chão batido. Levar a terra para a imagem era, portanto, uma maneira de aproximar fisicamente a fotografia daquele território.
Eu escolhi trabalhar com tons terrosos porque elas têm uma conexão muito profunda com a terra
As palavras que saíram das entrevistas e foram parar no voal
A exposição também nasceu daquilo que as benzedeiras disseram. Durante as viagens, além de fotografar, Thais gravava entrevistas e rezas. As falas coletadas acabaram encontrando outro suporte: o tecido.

Os bordados em voal foram realizados em colaboração com a artista têxtil Tainá Bernard. A ideia era fazer com que frases ditas pelas próprias benzedeiras ocupassem o espaço de forma quase suspensa, delicada e translúcida. Uma delas resume o caráter poético da exposição: “Eu fecho os olhos e vejo aquela chuva de bem”.
A parceria surgiu depois que Thais percebeu que não conseguiria alcançar sozinha o resultado que imaginava. Tentou bordar, insistiu durante meses e, então, procurou Tainá para desenvolver as peças.
A cura nas entrelinhas
As ervas medicinais aparecem na exposição, mas não como uma espécie de manual de receitas. Thais optou por deixar esses conhecimentos sugeridos, preservando o caráter oral e subjetivo das histórias. Entre aquilo que ouviu estão relações entre ervas e diferentes formas de cuidado, como o uso do boldo, do alecrim e da lavanda.
Mais do que ensinar receitas, a pesquisa provocou na própria artista uma mudança na maneira de olhar para o próprio corpo. “Eu aprendi a me autoobservar, a entender, a escutar o meu corpo e a entender o que o meu corpo precisa”, relata.
Segundo Thais, algumas benzedeiras lhe mostraram que, em determinadas situações, quem procura uma cura pode estar precisando, antes de tudo, de um abraço ou de alguém disposto a ouvir.

Um saber fora dos livros
As benzedeiras retratadas em “Bem Dizer” são apresentadas como guardiãs de conhecimentos transmitidos entre gerações. São saberes que passaram de mães para filhas, de avós para netas, muitas vezes pela oralidade e pela convivência cotidiana.
Para Thais, ouvir essas histórias foi também compreender que o benzimento não pertence a uma única origem. A prática reúne diferentes caminhos culturais, com influências indígenas e africanas e relações profundas com a natureza, as ervas, os banhos e a espiritualidade.
É uma confluência de saberes que foram trazidos pelas pessoas em diáspora, africana, raízes indígenas. Então aqui você tem um pouco de tudo
É justamente por isso que registrar essas mulheres não significa apenas produzir retratos. Significa criar uma possibilidade de permanência para conhecimentos que, durante muito tempo, circularam principalmente pela fala.
Em Mariana, a exposição também se transforma
A passagem por Mariana acrescentou novas camadas ao projeto. A cidade foi escolhida para receber a primeira exposição individual de Thais, depois de anos de participação em mostras coletivas. Mas, ao chegar, a artista encontrou elementos que acabaram incorporados à própria instalação.
Um deles foi Seu Geraldo, responsável pelo jardim do espaço e também benzedor. Quando Thais decidiu levar plantas medicinais para dentro da exposição, descobriu que ele já cultivava ali as mudas que precisava. “Tudo vai confluindo, sabe? Tem uma sinergia no projeto assim”, conta.
Os sons da cidade também entraram na mostra. O artista sonoro Barulhista criou uma paisagem sonora a partir dos benzimentos registrados pela fotógrafa e de elementos encontrados em Mariana, especialmente os sinos.
Assim, o projeto que nasceu em diferentes partes do Brasil passa a absorver também o território onde é apresentado. A ideia, segundo Thais, é que isso continue acontecendo. Cada nova cidade pode acrescentar uma nova personagem, uma nova história, uma nova planta, uma nova fala.
E ela continua crescendo
A artista já planeja novas escutas e pretende voltar a alguns dos lugares por onde passou. O objetivo é transformar a pesquisa também em livro e recomeçar o processo de ouvir essas mulheres. “Eu quero ir de novo nelas, porque eu quero fazer um livro. Então eu quero começar de novo a escuta”, afirma.
No Museu Casa de Alphonsus de Guimaraens, em Mariana, esse processo encontra agora o público. Entre fotografias que carregam terra, palavras que atravessam o tecido, plantas que continuam vivas e vozes que chegam de diferentes lugares do Brasil, “Bem Dizer” transforma com sensibilidade a memória e os saberes em matéria. E lembra que alguns conhecimentos não sobrevivem porque foram escritos. Sobrevivem porque alguém parou o tempo para escutar.





