Nesta quinta-feira (3), à partir das 19h, o Museu Casa dos Contos recebe a abertura da exposição "Ganância: Justiça Climática e Mineração" e convoca a comunidade de Ouro Preto a confrontar as feridas abertas pelo extrativismo predatório.
A mostra estabelece um paralelo inevitável entre a voracidade colonial do ciclo do ouro do século XVIII e os crimes socioambientais corporativos do presente, utilizando a arte como ferramenta de resistência e clamor por justiça climática.
Uma experiência imersiva e sensível
Durante a exposição, o visitante é convidado a um "diálogo sensível" entre duas tragédias que, embora geograficamente distantes, compartilham a mesma raiz: o afundamento do solo em Maceió (AL), provocado pela Braskem, e o rompimento da barragem de Fundão em Mariana (MG), pela Samarco. A exposição não apenas documenta o desastre, mas reconstrói a humanidade que a lama e o descaso tentaram apagar.
As fotografias expostas preservam memórias, denunciam injustiças e reafirmam que esses crimes não podem ser esquecidos. “Enquanto houver memória, haverá resistência”.
Para que o público possa compreender profundamente com o espírito e a razão — a dor e a luta das populações atingidas, a mostra estrutura-se em três pilares fundamentais:
A Fotografia como Denúncia: O visitante vai encarar paisagens interrompidas. Não apenas registros de destruição, mas provas visuais da dignidade de quem se recusa a ser silenciado, transformando o olhar em um ato político.
O Documento como Prova: A exposição utiliza ainda documentos históricos para traçar uma linha contínua entre a extração mineral do período imperial e a exploração predatória atual. Esse pilar revela que a lógica da "ganância" é estrutural, provando que o que ocorre hoje em Maceió ou Mariana é um desdobramento de séculos de injustiça territorial.
A Poesia como Resistência: Elementos líricos, musicais e expográficos humanizam os dados técnicos. A poesia permite sentir o peso do território perdido, transformando estatísticas frias em narrativas vivas, conectando o coração do visitante ao sofrimento e à resiliência das comunidades.
Essa maturidade narrativa é fruto de um longo percurso pelos territórios brasileiros, onde a mostra se alimentou de diferentes vozes e resistências.
O percurso da "Ganância"
A exposição não nasceu pronta; ela é um organismo vivo que se expandiu cronologicamente, incorporando novas camadas de denúncia a cada parada estratégica. Antes de sua estreia em Ouro Preto, a exposição passou por Manaus durante o 68º Conad (Conselho Nacional do ANDES-Sindicato Nacional), por Belém na COP 30 e Em Conceição da Barra durante o Festival POCAR.
A solidez da exposição reside em uma colaboração intelectual que une diversas frentes. A idealização e curadoria geral são da Profª Dra. Deborah Kelly Nascimento Pessoa (UFOP), em parceria estreita com a Profª Flora d'El Rei Lopes Passos (UFOP) e o pesquisador Carlos Eduardo da Silva Lopes. A força institucional é ampliada pela parceria entre a Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e a Universidade de Brasília (UnB), com o apoio fundamental do Instituto Tambor de Raiz.
O desenho expográfico, que adapta a dor desses territórios à arquitetura secular da Casa dos Contos, é assinado pelo museólogo Jackson Henrique dos Santos Júnior. Todo este esforço de preservação da memória coletiva foi viabilizado pelos recursos da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB).
Desdobramentos na Ufop: arte e debate no ambiente universitário
A "Ganância" transborda as paredes do museu e ocupa a academia. Entre os dias 21 e 25 de setembro, a UFOP recebe uma "Ocupação Artístico-Visual" para integrar a mostra ao cotidiano dos estudantes. O ápice deste diálogo será uma mesa-redonda crucial que amplia o escopo da discussão para incluir o trauma de Brumadinho:
- Evento: "Justiça Climática e Mineração: diálogos sobre os casos Samarco-Mariana, Braskem-Maceió e Vale-Brumadinho".
- Data e Horário: 24 de setembro, das 17h30 às 19h30.
- Local: Auditório da Escola de Minas (Campus Morro do Cruzeiro).
- Temática: Um debate interdisciplinar sobre reparação, memória e a construção de um futuro ancestral diante do colapso ambiental.
A mostra permanece em cartaz até o dia 30 de setembro, com atualizações constantes e bastidores disponíveis no Instagram @exposicaoganancia. Em uma cidade construída sobre o ouro e o suor, a Exposição Ganância nos lembra que a cultura é o solo mais fértil para que a justiça, finalmente, floresça sobre as cicatrizes da mineração.



