A possibilidade de mudanças na jornada de trabalho tem mobilizado trabalhadores, empresários e especialistas em todo o país. Em discussão no cenário nacional, o fim da escala 6×1 reacendeu debates sobre qualidade de vida, saúde mental, produtividade e impactos econômicos. Em Ouro Preto, cidade onde o comércio e o turismo ocupam papel central na economia, a adoção da escala 5×2 por empresas como o Supermercado Farid ampliou a discussão e trouxe o tema para a realidade local.
Enquanto trabalhadores enxergam na redução da jornada uma oportunidade de melhorar o equilíbrio entre vida profissional e pessoal, empresários avaliam os desafios de reorganizar equipes, manter o funcionamento dos estabelecimentos e absorver possíveis aumentos nos custos operacionais. Em meio a esse cenário, especialistas apontam que os impactos da mudança dependem tanto da capacidade de adaptação das empresas quanto dos benefícios gerados para os próprios trabalhadores.
Entre expectativa e adaptação
Para quem trabalha seis dias por semana, o principal argumento em defesa da escala 5×2 é a possibilidade de recuperar tempo para a vida fora do ambiente de trabalho. Há aproximadamente 12 anos trabalhando na escala 6×1, uma trabalhadora do comércio de Ouro Preto, que preferiu não ser identificada, relata que a rotina atual dificulta até mesmo cuidados básicos com a saúde.
“Às vezes você deixa de ir ao médico e de cuidar de você, mesmo precisando, para não prejudicar você no trabalho”, conta. Segundo ela, a dupla jornada enfrentada por muitas mulheres torna a escala ainda mais desgastante. “Quando eu paro, já é meia-noite. Às vezes, é uma hora da manhã. É muito exaustivo.”
A trabalhadora acredita que dois dias consecutivos de descanso trariam melhorias não apenas para o lazer, mas também para a convivência familiar e para a disposição no trabalho. “A pessoa vai trabalhar um pouquinho mais animada. Vai trabalhar melhor.”
A percepção é semelhante à da comerciária Nicoly, que trabalha na escala 6×1 desde os 15 anos. Para ela, a rotina compromete planos pessoais e profissionais. “Eu ainda nem tive tempo de começar uma faculdade. Não dá tempo de estudar, me dedicar e fazer as coisas que quero e preciso”, afirma. Ela acredita que a redução da jornada permitiria investir na formação profissional, além de dedicar mais tempo à família e ao descanso.
Apesar das expectativas dos trabalhadores, empresários do comércio demonstram preocupação com a forma como uma eventual obrigatoriedade da escala 5×2 seria implementada.
Empresários apontam desafios para pequenos negócios
Para a empresária Jussara Mateus, proprietária de um estabelecimento do setor alimentício, ainda é cedo para avaliar os efeitos da proposta, já que o tema segue em discussão. Mesmo assim, ela acredita que pequenas empresas serão as mais impactadas.
“Nos custos, sim”, responde ao ser questionada sobre possíveis impactos financeiros. Para ela, empresas do ramo alimentício enfrentam dificuldades específicas. “Eu já não trabalho no domingo. Não trabalhar no sábado também, no meu setor, não seria viável.”
Jussara afirma que ainda não definiu quais adaptações faria caso a mudança se tornasse obrigatória e acredita que a maioria das empresas da cidade também não está preparada. “Ninguém está pronto. Especialmente as empresas menores, que vão sofrer muito mais do que grandes empresas.”
O empresário Luciano, proprietário de uma oficina mecânica, também defende que o debate deve considerar as particularidades de cada atividade econômica. Segundo ele, o sábado é justamente o dia de maior movimentação de seu estabelecimento, já que muitos clientes trabalham ao longo da semana e só conseguem tempo para levar suas motocicletas para manutenção nesse dia. Por isso, ele avalia com cautela os possíveis impactos que uma mudança na jornada poderia trazer para o funcionamento do negócio.
“O principal desafio está mais relacionado aos clientes do que a mim. Muita gente trabalha de segunda a sexta e usa o sábado para trazer a moto”, explica. Para o empresário, uma regra única pode produzir impactos diferentes entre os setores e, por isso, uma eventual transição para um novo modelo de jornada deveria considerar as especificidades de cada ramo de atividade.
Ainda assim, ele reconhece que a redução da jornada pode trazer benefícios aos trabalhadores, principalmente em empresas capazes de reorganizar suas equipes.

Especialistas defendem equilíbrio entre impactos econômicos e sociais
Especialistas da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) apontam que a mudança representa um desafio para parte das empresas, mas defendem que os efeitos sociais e econômicos podem ser positivos no médio e longo prazo.
Para o professor André Mourthé de Oliveira, do Departamento de Economia, reduzir a jornada significa oferecer ao trabalhador algo que vai além do descanso. “Você vai criar a possibilidade de que as pessoas tenham um pouco mais de dedicação de tempo a si mesmas e à família. Essa disponibilidade é super importante”, afirma.
O economista reconhece que haverá aumento dos custos para parte das empresas, especialmente micro e pequenos negócios, mas acredita que esse impacto pode ser compensado por ganhos indiretos. “Quando você tem uma redução da jornada, também há redução da quantidade de adoecimento. Isso tem um potencial produtivo e representa um ganho.”

A doutora Cristiane Márcia dos Santos, professora do Departamento de Economia da UFOP e pesquisadora nas áreas de mercado de trabalho, distribuição de renda e economia da saúde, também avalia que a mudança representa um ganho social. Para ela, trabalhadores submetidos à escala 6×1 acabam tendo pouco convívio familiar, realidade que afeta principalmente quem possui filhos. “O fim da escala vai contribuir para que a maioria da população possa ter mais contato com a sua família.”
Segundo a docente, embora a adaptação possa exigir novas contratações e elevar custos inicialmente, os ganhos de produtividade tendem a compensar parte desse impacto. Além disso, ela acredita que cidades como Ouro Preto e Mariana, fortemente ligadas ao turismo, podem experimentar reflexos positivos da mudança, já que trabalhadores com maior tempo livre tendem a consumir mais serviços e movimentar a economia local.
Um debate que vai além da economia
As entrevistas realizadas pela reportagem mostram que o debate sobre o fim da escala 6×1 envolve interesses distintos. Trabalhadores destacam o desgaste físico e mental provocado pela rotina e defendem uma jornada que permita mais tempo para a família, os estudos e o descanso. Empresários, por outro lado, demonstram preocupação com os custos, a necessidade de reorganizar equipes e as particularidades de setores que dependem do funcionamento aos sábados.
Apesar das divergências, especialistas apontam que a discussão não deve se limitar aos impactos imediatos sobre as empresas. Questões como produtividade, saúde, geração de empregos e desenvolvimento econômico também fazem parte desse cenário. Em Ouro Preto, onde comércio, serviços e turismo concentram grande parte dos empregos formais, a forma como trabalhadores e empresários enfrentarão essas mudanças poderá servir como um retrato dos desafios vividos por diversas cidades brasileiras diante das transformações nas relações de trabalho.






