Durante esses quatro dias, Mariana vem se transformando em um verdadeiro ponto de encontro para quem gosta de literatura, arte e boas histórias. A 4ª Feira Literária de Mariana, a FLIMARI, reúne estudantes, escritores, artistas, educadores e toda a comunidade em uma programação que aproxima o público dos livros, da poesia e das diferentes formas de contar histórias.
Criada pela escritora e artista Andreia Donadon, a feira chega à quarta edição com o tema “Quintais”. A proposta é parar de olhar para esses espaços como lugares físicos, mas passar a enxergá-los como territórios de memória, afeto, convivência e descobertas.
E foi justamente uma dessas histórias que ganhou vida nesta sexta-feira, dia 18, no Centro de Convenções de Mariana.
Histórias que cabem em um baú

No período da tarde, estudantes da rede municipal de ensino e integrantes da ADEM Mariana se reuniram para acompanhar uma apresentação do projeto Baú Recontando, com a artista e arte-educadora Ingrid Ribeiro.
E se a proposta era contar uma história, Ingrid mostrou que não existe idade certa para se deixar levar pela imaginação.

Com muita ludicidade, música e interação, ela apresentou ao público a história de Oyá, também conhecida como Iansã, conduzindo crianças e adultos por uma narrativa marcada por descobertas, liberdade e protagonismo feminino.
Dentro do baú, uma pequena personagem negra ajudava a dar ainda mais significado à história. Em determinado momento, a identificação das crianças com a personagem tomou conta do espaço.

“Ela é negra que nem a tia Ingrid”, exclamou a artista. E logo várias outras vozes das crianças presentes se juntaram: “Eu também sou negra!” Reconhecendo na personagem e na própria contadora de histórias uma representação de seus próprios corpos e identidades.

Mais do que interessados em uma narrativa, o público se viu dentro dela. A apresentação mostrou, de maneira leve e acessível, como a literatura, a oralidade e a cultura podem abrir espaço para que crianças se reconheçam, se expressem e percebam novas possibilidades de existir.
Uma feira que valoriza quem conta histórias

A presença do Baú Recontando na FLIMARI também conversa diretamente com a proposta da feira de colocar diferentes formas de expressão cultural em circulação e aproximar o público dos artistas e de suas histórias.
Para Marco Antônio Ferreira, que participa da feira com uma exposição e venda de livros, o crescimento do evento demonstra justamente esse interesse do público pela literatura.
Segundo ele, “a cada edição a feira recebe mais visitantes e amplia o contato entre leitores, autores e obras”.
Para Andreia Donadon, o tema “Quintais” representa justamente essa capacidade da cultura de nascer das experiências mais próximas. São os quintais afetivos, sensoriais e também o grande quintal que é Mariana, cidade que inspira e fertiliza a produção literária e artística.
A programação deste ano também presta homenagem ao artista primitivista Zizi Sapateiro, reconhecido por divulgar o nome de Mariana por meio de sua arte e, especialmente, de suas representações da natureza.

Do quintal de casa para a cidade
A história do Baú Recontando começou em 2019. Criado em 2019 por Ingrid Ribeiro, no bairro Santo Antônio, o projeto nasceu com o objetivo de aproximar crianças, jovens e famílias da narrativa oral e das manifestações culturais brasileiras. Ao longo dos anos, passou por escolas, comunidades e espaços culturais da região dos Inconfidentes e ampliou sua atuação.
Agora, o projeto também celebra seu próprio percurso com uma programação que reúne literatura, dança, música, contação de histórias e outras expressões artísticas.

Para Ingrid, “ocupar espaços e criar oportunidades para diferentes artistas também faz parte dessa trajetória”. E é essa cultura feita em rede que também aparece na FLIMARI: diferentes histórias, artistas e públicos dividindo o mesmo espaço e mostrando que literatura não precisa estar somente nas páginas de um livro. Ela pode estar na voz de quem conta, no corpo de quem dança, na memória de quem escuta e, principalmente, no encontro entre as pessoas.
E a FLIMARI continua
Depois de três dias de programação, a 4ª Feira Literária de Mariana chega ao encerramento neste sábado, dia 19.
Pela manhã, o Centro de Convenções recebe Beatriz Mirna e Gabriel Medina, do Carro-Biblioteca da UFOP, além de uma sessão de autógrafos com alunos da rede de ensino e do CRIA.
À noite, a programação se despede na Casa de Cultura da Academia Marianense de Letras, com o lançamento da antologia “Quintais - Aldravias e Quintas”.
Assim, entre livros, encontros, memórias e histórias compartilhadas, a FLIMARI encerra mais uma edição deixando um convite que combina com o tema deste ano: olhar para os próprios quintais, reconhecer as histórias que vivem neles e descobrir quantas outras ainda podem ser contadas.



